Decreto poderia inviabilizar o fim do Diário Oficial impresso

Possibilidade foi apresentada na sexta-feira pela vereadora Telma de Souza (PT) durante audiência pública

Um decreto municipal de 1969 pode inviabilizar a extinção da versão impressa do Diário Oficial (D.O.) em Santos. A possibilidade foi aventada pela vereadora Telma de Souza (PT), durante audiência pública realizada na tarde de ontem,  que tratou do tema.

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O decreto em questão  é o de número 47, de 10 de setembro de 1969, feito pelo interventor federal general Clóvis Bandeira Brasil e trata da criação da Imprensa Oficial do Município.

O artigo 2 estabelece que “ao órgão ora criado incumbe a edição do Diário Oficial do Município e a confecção  de impressos necessários à administração pública, bem como impressão e encadernação de livros”.

Telma alertou para o fim da versão impressa do D.O. poderia, neste caso, acarretar em crime de ­responsabilidade.

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“Este decreto determina a impressão. Até onde eu entendi, se permanecer a extinção do D.O. do jeito que foi feito, isso vai incorrer, segundo entendido a lei, em improbidade administrativa. E isso significa Ministério Público, significa que esta Casa vai ter que se pronunciar. E com toda a solicitiude que eu posso, quero dizer que se o procedimento está incorreto, o meu gabinete tem que entrar no Ministério Público. Se essa lei eu estou interpretando corretamente”.

O secretário municipal de Comunicação, Luiz Dias Guimarães, respondeu que irá encaminhar esta questão ao setor jurídico. “Mas a avaliação que nós fizemos é que realmente não implica em ato vinculado ao Legislativo”.

Duras críticas

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A audiência foi marcada por duras críticas a Administração Municipal pelo encerramento da versão impressa do Diário Oficial do Município.

Para Jorge Caetano Firmino, presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias Gráficas de Santos, São Vicente e Região comentou que a situação gera preocupação com mercado de trabalho, desemprego e falta de informação para a comunidade de Santos.

“O encerramento do Diário Oficial pode acarretar em mais desemprego no nosso setor. O setor gráfico passa por dificuldades. Talvez seja a categoria mais afetada com os adventos da informática e da internet. Todos os jornais do estado de São Paulo e do Brasil passam por essas dificuldades. A nossa preocupação é em relação ao desemprego. A Prefeitura deveria olhar um pouco para a questão social da população e toma uma decisão pode acarretar mais demissões na Baixada Santista”, falou Firmino, que também pediu que Telma encaminhasse uma moção de repúdio ao fim do Diário Oficial.

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Luiz Guimarães respondeu que tudo que envolve o emprego deve ser tratado com a maior importância, mas existe a questão das mudanças do mundo ­contemporâneo.

“Inúmeras atividades estão mudando. Algumas sendo extintas e surgindo outras. Pensando como comunicador, nesta área, isso é muito evidente. As atividades gráficas vem perdendo terreno muito grande em favor de outras funções que, há 30 anos atrás, sequer se imaginava que iria existir. São mudanças que extrapolam a nossa vontade”, disse o secretário, que ressaltou não acreditar que o fim do Diário Oficial irá afetar a condição de trabalho dessa categoria.

Representante do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, o jornalista  Carlos Ratton, do Diário do Litoral, atentou que a versão online é vulnerável à pirataria digital e de fácil manipulação por parte da Administração.

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“Ela (Prefeitura) pode tirar a informação do ar a qualquer momento sob o velho argumento do site em manutenção. Eu, como repórter, cansei de procurar informação em sites que estavam em manutenção e não era possível acessar”.

O secretário disse que adulterar documento é um caso de polícia, e que a certificação digital é um método de controle.

“A edição, quando ela é publicada, ela recebe uma assinatura de uma pessoa creditada no Serasa Experian. No caso, o nosso chefe do departamento de jornalismo, o Renato Nascimento, que é servidor municipal e servidor tem fé pública. Ele valida aquele bloco de informação diariamente. E se houver alguma adulteração, isso é facilmente identificado e ­comprovado”.

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No entanto, em pesquisa realizada pelo Diário, a certificação digital não é um documento válido. Ele não possui ID e nem chave do ICP para verificar a autenticidade do documento. Foi feito somente uma assinatura digital do responsável pela edição com data e horário, mas não serve pois pode ser alterado por qualquer servidor e foi feito somente em uma página e não em todas as páginas. Precisaria ser feito um ID em todas as páginas, dando autenticidade ao documento, ou igual ao Diário Oficial do Estado, onde é somente feito uma arte, mas ao entrar na pagina, se autentica o documento e somente este é o que vale.

Cobertor curto

Ao falar sobre o fim do D.O. impresso, Luiz Dias Guimarães destacou uma série de iniciativas que serão realizadas pelo setor de Comunicação da Prefeitura, como a divulgação das notícias em vídeo, o que pooderia auxiliar, por exemplo, deficientes visuais.

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“É um cobertor curto. Abrimos para essas pessoas, mas tiramos a possibilidade de pessoas chamadas da terceira idade. Elas estão completamente despreparadas para isso. Isso é uma realidade inafastável”, disse Jean Rodrigues Teixeira, chefe de gabinete do vereador Fabrício Cardoso (PSB).

Um munícipe, que se identificou apenas como Ricardinho, fez um discurso inflamado. O senhor, de 79 anos, destacou que gosta de fiscalizar o que acontece na cidade, mas que agora não tem mais acesso.

Wagner Bernardes Vieira, representante da Comissão de Acompanhamento dos Serviços Públicos e Improbidade Administrativa da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) criticou a alternativa dada pela Prefeitura de Santos para aqueles que não tem acesso ao Diário Oficial poderem ler a versão digital. A Administração Municipal disse que irá disponibilizar quatro totens de acesso, sendo que um ficará no Paço Municipal.

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“É uma quantidade extremamente ridícula. Não proporciona à sociedade, que não tem acesso a um computador e à internet, o devido conhecimento dos atos administrativos”.

Outros pontos também foram abordados como a real economia com o fim da impressão do Diário Oficial, a falta de diálogo com a sociedade antes da tomada de decisão, sem discutir, ao menos, a possibilidade de um período de ­transição.