Vinícius de Moraes, Luís de Camões e Olavo Bilac ficariam orgulhosos se estivessem vivos. É que o tipo de arte em que eram especialistas voltou à vida na Escola Municipal de Educação Infantil José da Costa Barbosa, no Marapé, em Santos, desde o início deste ano.
É bem possível que você conheça os clássicos versos ‘Mas que seja infinito enquanto dure’, de Vinícius, ou ‘Amor é fogo que arde sem se ver’, de Camões, mas não saiba que eles foram retirados de sonetos, estrutura literária de forma fixa composta por 14 versos, dos quais dois são quartetos (conjunto de quatro versos) e dois tercetos (conjunto de três versos).
Parece complicado? “Tudo o que você propõe, as crianças se apropriam. Elas nunca devem ser subestimadas”, afirma Ana Rosa Zuffo, professora há 28 anos e idealizadora do ‘Projeto Autoria: te oferto poesia, recebo alegria!’, realizado com 52 alunos de pré-escola em período integral, com idades entre cinco e seis anos.
Com a tarefa de criar um projeto para o ano letivo, Ana escolheu o tema natureza, mas quis sair do óbvio.
Buscou na sua essência, de alguém que escreve poesias desde muito jovem e tem dois livros publicados, uma ferramenta inusitada: o soneto, forma de escrita que significa ‘pequena canção’, criada na Itália no século 13.
“A poesia é uma ferramenta de sensibilização humana, para se expressar ao mundo e, pessoalmente para mim, uma forma de curar as emoções. Palavras, quando usadas para o bem, têm o poder de agregar, melhorar o nosso entorno. A poesia não é muito acolhida nem na vida, nem na escola, por isso decidi levantar essa bandeira e tive grande apoio dos colegas professores”, explica.
A obra ‘Sonho Pro Mundo’, escrita pela educadora e inspirada nas vivências com os alunos, fala sobre um sonho coletivo que faria qualquer pessoa, de qualquer canto, mais feliz.
Embora o soneto seja o produto final, sua construção vem sendo realizada desde março e envolve conteúdos muito além de quartetos e tercetos.
“As crianças conheceram mais sobre a Itália, a importância do cuidado com o meio ambiente, aprimoraram a linguagem e aprenderam o que são rimas, também obrigatórias nesse tipo de texto”, exemplifica a professora e escritora.
O projeto também resultou na construção de pequenos livros individuais. Em cada página, as crianças puderam ilustrar a mensagem que cada estrofe do soneto carrega.
Passeio no Orquidário
No Dia Mundial do Meio Ambiente, celebrado ontem, as crianças tiveram a experiência de declamar o soneto aos pais e ao público, dentro da escola, às 14 horas.
Enzo Capelupe, de 7 anos, não aguentou esperar: “Foi muito legal aprender o que é um soneto. Já até cantei para minha mãe”, confessa.
Anitta Leite, de 5 anos, disse ter certeza que as pessoas iriam gostar. “Aprendemos o que é estrofe, o que é soneto e a importância de não poluir o meio ambiente porque a Terra é a casa de todo mundo”.
Após a apresentação, as crianças fizeram um ‘tratado’ com as pessoas presentes: entregaram o soneto, em formato de pergaminho, com o objetivo de receber alegria de volta.
“O intuito é que as crianças sintam que a poesia é algo que eleva, traz felicidade e provoca uma sensação boa. Eles merecem isso, vivendo em tempos tão difíceis”, diz a professora.
A última estrofe ‘Não desisto de sonhar/ vou com pressa, ora essa,/ nem pense em me acordar!’, bem que poderia ser eternizada, assim como as obras de Vinícius, Camões e Olavo.
