O conhecimento uniu as histórias de Ana Maria, Gonçalo e Robério. Os três integram a turma de Educação de Jovens e Adultos (EJA) da Escola Municipal de Ensino Fundamental (EMEF) República de Portugal, em São Vicente. Depois de anos fora da sala de aula, eles decidiram retomar os estudos. Além de retomar o convívio social e trocar experiências, hoje o trio coleciona conquistas como a aprovação em um concurso público.
“Passava em frente à escola e via a faixa falando do EJA. Decidi voltar a estudar. Parei no quarto ano, quando tinha 11 anos, porque precisei trabalhar para ajudar a minha família. Me perguntou até hoje por que não voltei a estudar antes?”, disse José Robério Ferreira, de 42 anos. O morador do Parque Prainha é casado e tem duas filhas.
Robério é natural de Itaquaquecetuba, município localizado na Grande São Paulo. Foi pai aos 16 anos. Trabalha atualmente como vendedor autônomo de peças artesanais confeccionadas por sua esposa. A dedicação aos estudos, retomados no ano passado, lhe rendeu a sétima posição do cargo de Auxiliar de Serviços Gerais no último concurso público realizado pela Prefeitura de São Vicente.
“Queria esperar o Ensino Médio para fazer o concurso. Fiz mais por incentivo dos professores Luciano e André. Foi uma surpresa ter passado. Pensei ficar entre os 50 melhores colocados e não entre os 10 primeiros. Outros candidatos estavam lá por causa do desemprego. Tinha gente até com faculdade”, afirmou Robério.
O vendedor disse que pretende dar continuidade aos estudos. Fã dos livros de História é a Matemática sua maior paixão. “Gosto de história por causa da política. Mas eu gosto mesmo é da matemática. Não importa se eu não tirar 10 na prova, o que importa é o conhecimento. O que eu vou usar na prática. Nunca é tarde para estudar”, destacou Robério.
Exemplo
Gonçalo dos Santos tem 79 anos e é o mais velho da turma do EJA da EMEF República de Portugal. Os colegas têm o aposentado como exemplo. Autodidata, ele também é artista plástico e um incansável na busca pelo conhecimento.
“Eu vim de Sergipe, nos anos 60, já adulto, para São Paulo. Já era casado. Parei de ir para a escola muito cedo, mas nunca parei de estudar. Nos lugares que eu já procurava um lugar para fazer o supletivo. Para mim estudar é muito importante”, disse o aposentado, que mora no Parque Bitaru.
Gonçalo começou a vida profissional como pedreiro e se orgulha por ter se aposentado na função de Mestre de Obras. Criou três filhos, sendo uma professora e um engenheiro, os quais o incentivam a permanecer firme nos estudos. “Eu ajudei a construir a Ponto do Mar Pequeno. Sou professor de Elétrica e Hidráulica. Aprendi tudo estudando e lendo. Aconselho todos a nunca deixar de estudar. Não importa a idade. Só cheguei onde cheguei por causa do conhecimento”, destacou.
Esforço
A auxiliar de serviços gerais Ana Maria dos Santos Andrade, de 61 anos, deixou a escola com 11 anos para trabalhar como doméstica. A moradora da Vila Margarida teve três filhos e, apesar de sempre ter o desejo de voltar a estudar, as dificuldades e a falta de tempo a impediram.
“Eu sempre pensava em voltar, mas não tinha condições com três filhos. As pessoas me elogiam muito e me incentivam por ter entrado no EJA. Pretendo continuar com o Ensino Médio. Até quando eu não precisar pagar, porque não tenho condições, eu continuar estudando”, afirmou Ana Maria. Ela também prestou o concurso público da Prefeitura de São Vicente. Foi a sua primeira participação em um processo seletivo. Apesar de não ter obtido colocação suficiente ao número de vagas disponíveis, ficou bem posicionada.
Dedicação
A professora Rochelly Correa, coordenadora do EJA da EMEF República de Portugal, destacou o desempenho dos alunos da unidade.
“É uma satisfação imensa para nós educadores. Principalmente em ver pessoas como o seu Gonçalo, com bastante idade. Não é só o estudo, mas a socialização do aluno, que muitas vezes está fora do ciclo social, com a família longe e a escola é uma forma de contato humano e de troca de experiências. Temos tido resultados fantásticos”.
No último dia 23, alunos do EJA apresentaram os resultados do projeto de leitura desenvolvido pelas professoras Laura Barros e Eliana Santos Isidoro, na unidade. Entre os textos selecionados, um cordel escrito por Robério:
“Meu leitor, meu amiguinho
Permita a imaginação
Desse encontro imaginário
De Kung Fu com Lampião
Na cidade Juazeiro
Do Padre Cícero Romão
Pois bem, eu vou lhe dizer
Como foi que aconteceu
Para contar quem te feriu
Quem se matou e quem morreu
Depois me dia por aí
Que quem contou isto fui eu…
Lampião todos conhecem
Mas não sabem interpretar
Só dizem coisas más dele
Poucos quiseram indagar
A causa que ele abraçou
E quem o forçou a matar
Lampião foi cangaceiro
Pode isso anotar
Foi um juiz bandoleiro
Quem o quis incriminar
Pois a justiça dos homens
Pouco ela sabe julgar
A China tem seu herói
Que luta pela justiça
Aprendeu a lei dos monges
Que desprezam a vã cobiça
E desde pequeno
Que ele teve escola sem malícia
Kung Fu desde pequeno
Ficou sozinho no mundo
E os monges do Himalaia
Que tem um saber profundo
Acolheram-no mosteiro
Pra não ficar vagabundo
Depois que Kung Fu cresceu
Saiu pelo mundo afora
Procurando fazer justiça
Que na cartilha decora
A perseguição e a cobiça
São Coisas que se deplora“.
Professores voluntários ministram curso preparatório
O sucesso obtido no concurso público por Robério e Ana Maria não foram à toa. Eles também não foram os únicos da turma. Mais que a dedicação, eles contaram com o apoio de professores do EJA que, voluntariamente, montaram um curso preparatório ministrado um pouco antes do início das aulas regulares.
“No início as aulas eram uma vez por semana, um pouco antes da aula do EJA começar. Depois foram mais dias. Eles se interessaram bastante, toparam a ideia e montamos a apostila”, afirmou André Zeferino de Oliveira, professor de Geografia. Ele e outros três professores – Luciano, de matemática, Fernando, de História e Eliana, de Língua Portuguesa – ministraram voluntariamente as aulas.
O professor contou que dos 120 participantes do curso preparatório, 12 foram aprovados no concurso. “A classificação ficou um pouco distante do número de vagas disponíveis, mas dentro do limite da lista de espera”. A iniciativa também foi aberta para a participação de ouvintes como monitores de creche de unidades de educação do município.
