Cotidiano

Conheça o homem que 'inventou' o sushi de salmão e mudou o paladar do mundo todo

Bjørn-Eirik Olsen transformou um excedente de produção norueguês no prato mais icônico dos restaurantes modernos

Nathalia Alves

Publicado em 25/01/2026 às 11:56

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Entenda o Projeto Japão e como a Noruega criou um mercado global para escoar milhares de toneladas de peixe / Reprodução/Freepik

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Uma cena comum em qualquer restaurante de sushi ao redor do mundo hoje é a presença do nigiri ou do sashimi de salmão, um clássico laranja brilhante que parece ter estado sempre ali.

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Poucos sabem, porém, que essa iguaria global tem uma origem recente e uma história de marketing ousado, idealizada por um norueguês apaixonado pelo Japão. Esta é a história de como Bjørn-Eirik Olsen convenceu um país que desprezava salmão cru a adotá-lo como protagonista de sua culinária mais icônica.

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Um mercado que rejeitava o produto

No final dos anos 80, a Noruega vivia um boom na criação de salmão em cativeiro. Para escoar a produção excedente, o governo lançou o "Projeto Japão", visando exportar peixe para o maior consumidor de frutos do mar per capita do mundo.

A cor vibrante do salmão norueguês conquistou primeiro os olhos, depois o paladar do público japonês, em uma das maiores reviravoltas do mercado de pescado global. /Getty Images
A cor vibrante do salmão norueguês conquistou primeiro os olhos, depois o paladar do público japonês, em uma das maiores reviravoltas do mercado de pescado global. /Getty Images
Chefes japoneses, como Yutaka Ishinabe, foram essenciais para validar o salmão norueguês como ingrediente premium para sushi e sashimi. /Getty Images
Chefes japoneses, como Yutaka Ishinabe, foram essenciais para validar o salmão norueguês como ingrediente premium para sushi e sashimi. /Getty Images
O modelo de restaurante kaitenzushi (com esteira rolante) foi crucial para popularizar o salmão entre famílias e crianças no Japão pós-crise. /Getty Images
O modelo de restaurante kaitenzushi (com esteira rolante) foi crucial para popularizar o salmão entre famílias e crianças no Japão pós-crise. /Getty Images
Réplicas de plástico de nigiri de salmão em vitrines simbolizaram a aceitação definitiva do produto na cultura gastronômica japonesa. /Freepik
Réplicas de plástico de nigiri de salmão em vitrines simbolizaram a aceitação definitiva do produto na cultura gastronômica japonesa. /Freepik
A piscicultura intensiva na Noruega garantiu o fornecimento constante que permitiu a massificação do salmão no mercado global de sushi. /Getty Images
A piscicultura intensiva na Noruega garantiu o fornecimento constante que permitiu a massificação do salmão no mercado global de sushi. /Getty Images

Bjørn-Eirik Olsen, o estrategista norueguês cuja paixão pelo Japão levou o salmão aos paladares do mundo. /Getty Images
Bjørn-Eirik Olsen, o estrategista norueguês cuja paixão pelo Japão levou o salmão aos paladares do mundo. /Getty Images

O desafio, porém, era cultural já que os japoneses não comiam salmão cru. Associado a parasitas, cheiro de rio e considerada uma carne "inferior", o salmão era ignorado pelos mestres do sushi.

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A solução chegou pelas mãos de Bjørn-Eirik Olsen, um analista de mercado que desde criança se encantara pela cultura japonesa ao assistir Os Sete Samurais, de Akira Kurosawa. Após estudar no Japão e dominar o idioma, Olsen compreendeu que o caminho para o sucesso passava pelo segmento de alto valor, o sushi.

A estratégia

A primeira jogada foi renomear o produto. Em vez de shake (salmão em japonês), Olsen criou a marca "Noruee Saamon", uma versão adaptada ao fonético japonês de "salmão norueguês".

O objetivo era desvincular a imagem do peixe criado em cativeiro no Atlântico do salmão selvagem do Pacífico, visto com desconfiança.

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Em seguida, veio o trabalho de bastidores: campanhas de marketing focadas na qualidade, segurança e cor vibrante do produto, além de parcerias estratégicas com chefs influentes, como Yutaka Ishinabe, estrela de um popular programa culinário na TV japonesa.

A crise que virou oportunidade

O avanço era gradual até que, no início dos anos 90, a produção norueguesa superou a demanda europeia. Com preços em colapso e freezers lotados, a indústria norueguesa correu risco de quebrar.

Desesperados, exportadores consideraram vender milhares de toneladas para o Japão, não para sushi, mas para pratos cozidos.

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Olsen viu o perigo e isso enterraria para sempre a ambição de posicionar o salmão como produto premium. Ele agiu rápido e negociou um acordo alternativo com a gigante japonesa Nichirei, de cerca de 5 mil toneladas, mas com a condição de que seriam vendidas exclusivamente para consumo cru.

Do plástico ao paladar popular

Em 1994, ao retornar ao Japão, Olsen viu a confirmação de seu sucesso: réplicas de plástico de nigiri de salmão expostas na vitrine de uma loja de sushi, prova de que o produto havia entrado de vez no imaginário gastronômico local.

Dois fatores consolidaram a popularização: a explosão dos kaitenzushi (restaurantes de sushi com esteira rolante), que se multiplicaram após a crise econômica japonesa dos anos 90, e a aceitação imediata das crianças, atraídas pela cor vibrante e pelo sabor suave do salmão.

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Um legado global

Hoje, o salmão é um dos ingredientes mais populares do sushi no mundo, e a Noruega segue como maior produtor global da espécie em cativeiro. Bjørn-Eirik Olsen, hoje escrevendo um livro sobre sua jornada, resume. "Observar a cultura japonesa se unindo com parte da norueguesa me enche de alegria".

Sua história é um caso clássico de como persistência, conhecimento cultural e timing estratégico podem não apenas abrir mercados, mas reescrever tradições gastronômicas. O salmão no sushi, afinal, não é uma herança milenar, é um capítulo moderno da globalização do paladar.

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