Companhia de teatro prepara musical sobre a Ditadura

Grupo aposta no segmento para atrair mais jovens a conhecer a história do Golpe Militar de 1964

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19 MAR 2017Por Vanessa Pimentel10h30
Jovens afirmam que não tinham interesse em saber da história do Golpe, mas depois dos ensaios, essa postura mudouJovens afirmam que não tinham interesse em saber da história do Golpe, mas depois dos ensaios, essa postura mudouFoto: Rodrigo Montaldi/DL

A Cia Dons de Teatro Musical surgiu em 2011 para unir duas paixões do fundador Roberto Frantinelli: o teatro e a música.

“Sempre gostei de musicais, então fui para São Paulo fazer cursos para me aprofundar. Um dia, assistindo uma palestra sobre a ditadura, a ideia de produzir um musical sobre o tema surgiu na minha cabeça”, explicou Roberto.

O grupo trabalha mais com atores jovens, então o difícil, segundo ele, foi convencer os atores em atuar num espetáculo cujo tema era chamado de “velho”.

“Quando cheguei com a proposta, o pessoal falava que a história era chata, ninguém gostava”, contou Roberto. Para mudar a visão dos jovens atores, ele passou a estudar junto com eles os fatos da época e principalmente as letras das músicas.

Pedro Henrique, de 16 anos, foi um dos poucos atores que gostou da ideia assim que a ouviu porque viu nos textos da peça uma chance de entender de forma mais aprofundada o que foi o Golpe de 64. “Sabia pouca coisa daquela época porque a escola não ensina assim, com detalhes, como estamos aprendendo aqui”, justificou. Ele interpretará um estudante homossexual em meio aos tabus daquele tempo.

Roberto conta que a ideia de contar a história da ditadura através de um musical sofreu críticas até mesmo no meio teatral. “Comentei com uma diretora que iria montar um musical sobre o tema. Ela falou ‘a ditadura não canta’. Eu respondi que canta, canta sim, olha o tanto de músicas que existem daquela época”, relembra. O nome do espetáculo parece justificar o raciocínio: ‘64 – O Canto Calado’.

Beatriz Nicolau, de 19 anos, disse que antes da peça só ouvia as músicas “de hoje em dia”, mas depois que começou a estudar o significado das letras, tudo mudou. “Quando eu percebi que o conteúdo das músicas era a forma que os artistas acharam de contar o que estava acontecendo, me apaixonei. No meu celular não tem mais as músicas que eu ouvia, só música antiga”, declara Bia.

Leonardo Laranjeiras, de 21 anos, interpretará um militar. Para ele a experiência é válida não só porque ajudou a mudar a visão que tinha do golpe, mas por mostrar todos os lados da sociedade que presenciou a história. “A gente lê sobre os estudantes da época, os artistas e o militares, inclusive notei que nem todos os soldados eram ruins. Alguns faziam aquilo porque eram obrigados”, justifica.

“O bom é ter argumentos para rebater as pessoas que acham que a ditadura foi boa, que ela tinha que voltar”, diz Luiz Belmonte, de 15 anos.

“Eu acho que a escola passou para a gente a história da ditadura um pouco mascarada, porque foi um período muito ruim, mas a gente se forma sem saber que foi assim. Só depois, com essa oportunidade no teatro que fui entender melhor do que se tratava”, explicou a cantora e atriz Larissa Cristina.

Audições

O diretor da peça explica que é difícil montar elenco para musicais na região. Como a apresentação precisará de 64 atores e de músicos, Roberto decidiu abrir novas audições. “As vagas são para todas as idades. Quem quiser participar tem que ficar de olho nas nossas páginas das redes sociais para ver as datas que serão divulgadas em breve”, avisa.

Atualmente, o musical conta com 42 atores que já estão ensaiando. A partir do dia 1º de abril, o grupo pretende realizar flash mobs (ações espontâneas em locais públicos) para divulgar a peça prevista para estrear em 31 de maio, no Teatro Municipal de Santos.

A intenção é formar público e, principalmente, atrair os mais jovens para ir ao teatro. “O legal do espetáculo é ouvir Chico Buarque, interpretar aquelas letras maravilhosas, toda a dor que está ali”, explica Roberto.

Cia Dons

Com alguns prêmios na bagagem, a companhia se orgulha de ter conquistado durante três anos consecutivos o Fescete (Festival de Cenas Teatrais), promovido em parceria com a Prefeitura de Santos.

“Ganhamos melhor cena, figurino e maquiagem e conjunto da obra por trabalharmos com músicas brasileiras”, conta o diretor.

Em 2015, o grupo emocionou o público apresentando um musical sobre a vida de Anne Frank, uma adolescente alemã de origem judaica, vítima do Holocausto.