Como equilibrar a relação entre avós, pais e netos?

Quando o assunto é educação, as opiniões divergem e chega ao ponto em que é necessário deixar claro de quem vem a palavra final

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24 NOV 2017Por Vanessa Pimentel16h44
É preciso equilibrar a relação entre avós, pais e netosFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Com o avanço da modernidade e as mulheres cada vez mais conquistando o seu espaço no mercado de trabalho, a educação dos filhos muitas vezes depende também da participação dos avós. O que, por um lado gera conforto devido às crianças estarem sob os cuidados de seus progenitores, por outro pode acarretar conflitos entre pais e avós.

Quando o assunto é educação, as opiniões divergem e chega ao ponto em que é necessário deixar claro de quem vem a palavra final.  Segundo a jornalista e psicopedagoga Vanessa Ratton, a relação entre pais, filhos e avós, às vezes, é difícil, mas deliciosa.  

“O idoso, na maioria das vezes não trabalha fora, tem estabilidade financeira, e dispõe de tempo para curtir a criançada. Mas, uma coisa precisa ser respeitada: a opinião da mãe, que mesmo de longe, é a palavra final”, declara Vanessa.

Ela explica que se ficar estabelecido que a criança será cuidada pelos avós, então, eles terão que ter mais claro o papel de educadores junto com os pais, e serem comparsas apenas em momentos especiais.

“É preciso estabelecer limites entre os adultos, porque a educação deverá seguir a linha que os pais escolherem, mas os pais terão que negociar com os avós certas flexibilidades, porque eles não são funcionários, são co-educadores familiares. Sem regras as crianças ficarão confusas, o que poderá afetar a saúde mental e física dos pequenos”, analisa a psicopedagoga.

Outro detalhe importante, segundo Vanessa, é não tratar os avós como funcionários. “Os papéis devem ser bem definidos. Pais devem respeitar a experiência dos avós e avós devem respeitar a autoridade dos pais. Combinem procedimentos, mas respeitem as decisões e atitudes, afinal, era o avô ou avó que estava presente quando a situação ocorreu”.

Na casa de Lilian Souza, 52, é assim desde que a primeira filha nasceu, há 15 anos. Como trabalha fora, Lilian viu na ajuda da mãe a solução para a preocupação em comum que ronda a cabeça das mulheres quando o período da licença-maternidade termina.

“A princípio, eu tinha pensado em colocar minha filha na creche, mas minha mãe não gostou da ideia e veio morar comigo para ficar com a neta enquanto eu trabalhava”, explica Lilian.

“Eu não gosto de creche. Sei que algumas são boas, mas ficava preocupada, pensando se cuidariam bem da minha neta. E ela era muito gordinha, a cada mês engordava um quilo. Ninguém ia aguentar ficar com ela no colo quando chorasse”, brinca Aglair Souza, de 83 anos.

Desde então, a criação de Rafaela Souza, hoje com 15 anos, foi dividida entre a mãe e a avó. Ela afirma que isso nunca foi um problema.

A mãe, Lilian, explica que a palavra final é dela e quando tem alguma dúvida em relação à forma como está educando as filhas, divide as decisões com Aglair.

“Como eu passava mais tempo com a minha avó porque minha mãe trabalhava o dia todo, acabava conversando mais com ela (vó). Agora que estou mais velha converso muito com a minha mãe também”, diz Rafaela.

A psicopedagoga explica que essa relação entre avós e netos gera a valorização social dos idosos. “Estas responsabilidades são importantes e ajudam a evitar a depressão ou aquele sentimento de que os mais velhos já não são mais relevantes”.  

Gerações x conflitos

“Às vezes a gente discute porque elas não entendem algumas coisas comuns da nossa geração. Elas acham estranho”, diz Rafaela.

O ‘estranho’ citado pela menina ganha nome pela mãe. “Essa coisa nova de ‘identidade de gênero’, sabe? Eu tento explicar para ela que aqui dentro de casa têm três gerações diferentes e se para mim já é difícil entender, para minha mãe (vó da Rafaela) é mais ainda. Um dia a gente estava vendo um programa na TV onde apareceram mais de seis tipos de manifestações sexuais. Eu nem sabia que existiam tantas possibilidades, então, ela precisa ter paciência porque nós, que somos mais velhos, estamos tentando digerir tanta informação nova”, justifica a mãe.

Questionadas pela Reportagem sobre qual é a solução usada para evitar que os conflitos não se tornem rotina, a avó diz que é “manter a mente aberta”. Por isso, Aglair procura se aproximar da geração da neta assistindo canais da TV fechada que propõem debates mais profundos sobre as questões faladas na atualidade. A mãe usa a mesma tática. “Se a gente não tentar entender, vai sempre bater de frente”.

Para completar as gerações, há cinco anos, a caçula Fabiana Souza chegou e assim como sua irmã, também está sob os cuidados da mãe e da avó.

“Para mim, poder cuidar dos netos é um privilégio porque quando a gente fica mais velha perde o interesse por outras coisas, então os netos se tornam o centro de tudo”, explica Aglair.

Porém, a psicopedagoga faz um lembrete. “Avós também não devem parar sua vida social para cuidar somente dos netos. Manter amizades e passeios com outros familiares e amigos evita que a relação com os netos seja sufocante para ambos”.

Aumento da expectativa de vida altera comportamento dos avós

O último levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostrou que até 2055, o número de pessoas com mais de 60 anos deve superar o de brasileiros com até 29 anos.    

Com isso, a expectativa de vida atual do brasileiro é de 74,9 anos. Segundo o IBGE, a esperança de vida continua aumentando devido ao constante avanço da medicina, aumento de renda, escolaridade e proporção de domicílios com saneamento adequado.

Porém, a projeção da Organização das Nações Unidas (ONU) ainda leva a expectativa de vida para mais longe e indica que a esperança de vida ao nascer no Brasil subirá para 81,2 anos até 2050.

Com a aposentadoria unida à saúde, os futuros idosos tendem a aproveitar o tempo livre para resgatar antigos sonhos. É o caso da bancária Sira Santos.

Com a aposentadoria batendo na porta, Sira já faz planos de como irá aproveitar o tempo livre e adianta: “não vai ser cuidando dos netos”, brinca.

“O problema não é cuidar. Como eu fui mãe muito cedo, muitos sonhos ficaram para trás. Acho que agora é o momento de resgatar as coisas que gosto e não fazer mais somente aquilo que tenho que fazer”, explica Sira.

Ela diz que a relação com os netos precisa ser baseada no prazer e não na obrigação. “Os filhos precisam ter consciência que os pais, mesmo que mais velhos, também têm sonhos e não terceirizar a educação para os avós. Vejo filhos fazendo isto com os pais que se aposentam ainda jovem e não acho certo”, analisa.

Sira ainda não é avó, mas diz que quando for, ficará com a parte boa do convívio com os netos: “Os mimos”.