‘Como a dor vai passar?’; histórias de Brumadinho, 1 mês após tragédia

A tragédia de Brumadinho completa um mês nesta segunda com saldo de 177 mortos já identificados e 133 desaparecidos.

*Por Giovana Girardi –  ESTADÃO

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Luiz de Oliveira Silva faria 44 anos em 2 de fevereiro. Foi sepultado um dia antes, vítima do desastre em Brumadinho. Funcionário da Vale, era conhecido na cidade como Luiz Sorriso, por estar sempre disposto a ajudar quem precisasse. Membro de um grupo de voluntários da empresa, cruzava a cidade em um Brasília, reformando casas ou ajudando a arrecadar cestas básicas.

Há 14 anos trabalhando na Vale, voltava do almoço, em um ônibus, quando foi arrebatado pela onda de rejeitos. A empresa era a principal fonte de emprego da família – ali também trabalhavam seus dois irmãos, que escaparam.

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“Além do meu irmão de sangue, perdi aquelas pessoas todas com quem trabalhei por quase 27 anos. A maioria está lá embaixo da lama ainda. Como essa dor vai passar?”, indaga o irmão Geraldo, que estava no hospital em Belo Horizonte, recém-operado da coluna, quando soube do acidente.

‘Não é vontade de Deus, mas da ganância’

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Em dez anos vivendo em Brumadinho, o professor Jorge Rasuck, de 48 anos, tinha se acostumado com a vida tranquila da cidade do interior. Como gerente de banco e professor universitário, dedicava parte do seu tempo também a ser diácono da Igreja Católica, responsável pelas exéquias – cerimônias fúnebres – e fazia no máximo um enterro por mês. Desde que a barragem da Vale se rompeu, porém, já participou de 25. 

“Não dá nem para fazer velório, só recomendo a Deus a alma das pessoas e já temos de enterrar”, relata. Rasuck e muitos religiosos também têm feito visitas frequentes às famílias das vítimas para dar consolo. Só ele já visitou mais de cem casas, mas a demanda por um ouvido, um abraço, uma palavra amiga está em toda a cidade. 

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“Na faculdade, perdemos alunos, ex-alunos. Só em uma turma se foi um aluno, o pai de outro e os tios de outros dois. Batizei há três meses um bebê cuja mãe está desaparecida. Fui a casas que perderam três, quatro familiares. Uma senhora que perdeu três netos, um de cada filho. Uma mãe que perdeu dois filhos e um genro. Cada casa de Brumadinho perdeu ao menos um conhecido”, conta. 

“Às vezes rezamos, lemos trecho da Bíblia, às vezes conversamos, outras só ouvimos, vemos fotos. Tem gente que chora o tempo todo e a gente chora junto. Não tem muito o que fazer. É abraçar e dizer que essa nunca foi a vontade de Deus. É a vontade humana, da ganância, de sempre ter mais, de falta de amor ao próximo”, afirma Rasuck, ele mesmo também precisando de apoio. 

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“Até me afastei dessa tarefa por alguns dias. Estou com dores no corpo todo. Sonho com helicópteros, com as pessoas que ainda não foram encontradas, é um desespero. Penso se é um aviso de que vão ser achadas…”

‘A vida toda mudou’

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A filha mais velha conseguiu se salvar, mas seu neto, sua caçula e seu genro, não. Entre dar apoio para Paloma ou chorar pelo netinho Heitor, de 1 ano e 6 meses, por Pâmela, de 13, e por Robson, de 26, o trabalhador rural Lucimar Ferreira da Cunha só tem se esforçado para não desabar. 

“A vida toda mudou, está tudo de pernas para o ar. É só tristeza… Tem hora que a gente acha que nem vale a pena continuar. Só não acabou tudo porque temos a Paloma”, conta, quase sem força na voz. 

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Paloma Prates da Cunha, de 22 anos, estava em casa com o marido, Robson Máximo Gonçalves, funcionário da pousada Nova Estância, o bebê e a irmã, quando ouviu um estrondo. Teve tempo apenas de se levantar. A irmã e o filho estavam na sala, assistindo TV. Ela estava sentada ao lado do marido, na cama. De repente, tudo ficou escuro. 

A jovem dona de casa foi arrastada por mais de 200 metros e acabou conseguindo emergir ao lado da pilastra do pontilhão da estrada de ferro, que também foi arrastado pela força da onda de rejeitos. Dois funcionários da Vale estavam por perto, a viram e conseguiram resgatá-la com uma corda – uma imagem dramática que acabou se tornando uma das mais marcantes da tragédia.

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O corpo de Robson foi encontrado no dia seguinte e o de Pâmela, alguns dias depois. O bebê, porém, ainda não foi localizado, o que só aumenta a tristeza da família. Paloma está abatida e não quer conversar com ninguém. Ela, o pai e a mãe estão morando juntos, em uma casa que a Vale alugou, já que a de Lucimar também foi interditada após o desastre. “A gente era tudo muito unido, não sei o que vai acontecer.”

‘Ainda não caiu a ficha’

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O casal de paulistanos Noeli Mendes e Leandro Oya se preparou para sair logo cedo da Pousada Nova Estância. O plano era completar na manhã daquela sexta, 25 de janeiro, a visita ao Inhotim, iniciada no dia anterior, voltar na hora do almoço e deixar a filha Laura, de 7 anos, aproveitar a piscina no restante do dia. 

A pequena só falava disso e atazanou os pais para voltarem logo para a pousada. Quando estavam prontos para isso, porém, Oya sugeriu que almoçassem no Inhotim mesmo. Tinha ouvido falar bem do restaurante local e queria testá-lo. Foi o que os salvou. Na pousada localizada no Córrego do Feijão, palco da tragédia da Vale, pelo menos 12 pessoas morreram.

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“Mal colocamos a comida no prato, a chef veio a nossa mesa e nos disse que uma barragem havia rompido no Córrego do Feijão. Eu não tinha consciência do que aquilo significava, não sabia que a pousada ficava bem abaixo da Vale. Só que o córrego passava quase dentro da pousada, meu marido tinha tentado pescar lá no dia anterior, a piscina ficava quase ao lado do córrego”, conta Noeli, ainda desnorteada com o que aconteceu.

Enquanto o museu era evacuado, a família foi tentar descobrir se poderia voltar à pousada para pegar as coisas, ainda sem saber que o local havia sido atingido. “A gente ainda não tinha noção da gravidade. Um tenente dos bombeiros só nos disse que não poderíamos voltar. Foi quando comecei a ler as notícias e tremi.” 

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Um mês depois do desastre, Noeli diz que “ainda não caiu a ficha” sobre o que aconteceu. “É tudo muito surreal. Vendo as fotos, a gente nem consegue identificar onde ficava a pousada”, diz. 

Naquela manhã, ela havia tomado café com Maria de Lurdes de Costa Bueno, a Malu, ainda desaparecida, que estava hospedada na Nova Estância com o marido, Adriano Ribeiro da Silva, e os filhos dele – Luiz e Camila. Luiz saíra cedo para Belo Horizonte para buscar a namorada, Fernanda Damian de Almeida, grávida de cinco meses, que estava chegando da Austrália, onde os dois viviam. “O voo dela tinha pousado às 10 horas. Eles tinham acabado de chegar à pousada quando tudo aconteceu.”