Com R$ 1.500 e dois laudos, é possível ter arma em casa

Basicamente, você apresenta uma série de documentos e realiza dois laudos: o psicológico e o de tiro. É possível fazer todo o périplo sozinho, mas é muito mais fácil usar um clube de tiro.

“Egocentrismo?”, me perguntou, um tanto surpresa, a psicóloga. “É esse defeito que você escreveu aqui?”. “É…”, balbuciei, meio envergonhado. “A maioria deixa essa parte em branco”, ela disse. “Mas eu tenho uma estratégia: pergunto se a pessoa é casada ou se tem namorada. E do que a companheira vive reclamando de você? Pronto. Assim, todo mundo descobre um defeito.”

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Em dezembro de 2018, eu estava tendo essa conversa com uma psicóloga credenciada pela Polícia Federal para tirar o documento de posse de arma. Jair Bolsonaro havia sido eleito com a promessa de facilitar a posse, o que ele efetivamente fez em janeiro.

Descobri que a intervenção do presidente não era necessária: já era fácil.

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Basicamente, você apresenta uma série de documentos e realiza dois laudos: o psicológico e o de tiro. É possível fazer todo o périplo sozinho, mas é muito mais fácil usar um clube de tiro, que vai acertar os encontros e providenciar a documentação necessária. O processo custa cerca de R$ 1.500 em São Paulo.

O laudo psicológico é dividido em duas partes. Na primeira parte, tive que fazer uma série de exercícios no papel, como desenhar várias linhas de tracinhos verticais (“você é organizado”, decretou a doutora ao ver os traços pendendo para a direita). Outro teste simples é riscar em ordem quadradinhos numerados de 1 a 50 em menos de quatro minutos (só cheguei até o 43).

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Em seguida, respondi um questionário, em parte sozinho e em parte com a psicóloga. Algumas perguntas eram sobre armas (“porta arma em seu trabalho?” ou “já se envolveu em alguma ocorrência portando arma?”), mas a maioria eram obviedades como “com quem você mora?” ou “bebe? Quanto por semana?”.

Mas havia uma parte mais encasquetada, sobre nossos demônios internos: “Quando você pensa em sua infância, do que se lembra?”. “Como eram as punições na sua casa?”. “Tem crises de choro?”. “Medo de altura?”. “O que precisava de meus pais e não tive foi…”. “Costuma ouvir vozes de pessoas que não estão ali?”. Deus me livre!

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O laudo psicológico termina com um exercício lúdico. Você escolhe entre dezenas de quadradinhos coloridos na mesa e monta pequenas pirâmides. Fiz uma imitando uma fogueira (vermelho, laranja e amarelo), outra verde e branca (Palmeiras!) e a última megacolorida, sem ordem nenhuma (em homenagem ao mestre do caos).

Não entendi para que serviam, e a psicóloga não deu dicas. Uma busca no Google, entretanto, me levou a um trabalho acadêmico chamado “O Teste das Pirâmides Coloridas de Pfister e o transtorno obsessivo compulsivo”. Não precisa dizer mais nada, né?

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Parece que eu não sofro de tal transtorno, pois quatro ou cinco dias depois recebi uma ligação do clube de tiro dizendo que eu havia passado na avaliação psicológica e estava pronto para fazer o laudo de tiro.

Esse laudo também tem duas partes, e a primeira é responder à “Prova Teórica de Armamento e Tiro” (lei federal 10.826/03), com dez questões que leigos não vão saber. Por exemplo: “A munição é composta por: a) espoleta, estojo, pólvora e projetil; b) espoleta, alça mira, chumbo e pólvora; c) cápsula, estojo, pólvora, propelente e iniciador.”

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Eu nunca havia tocado em uma arma na minha vida e aquilo para mim era grego. Por isso, segui o bom conselho da proprietária do clube e aceitei fazer um curso de quatro horas numa manhã de domingo de janeiro. O curso custaria mais R$ 650, paciência.

O curso básico de tiro ensina regras de segurança (jamais aponte a arma a alguém, mesmo descarregada), definições e objetivos de uma arma de fogo, os fundamentos de tiro (postura, respiração etc.), as diferenças entre revólver (tem um tambor que gira e aparece nos faroestes) e pistola (tem um carregador com balas que encaixa dentro da empunhadura; aparece em filmes de espião), os defeitos que as armas podem apresentar e, finalmente, a legislação brasileira sobre o assunto.

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Essa é a parte mais surpreendente. Ali descobri que só pudemos usar até o calibre 38 (munição de 0,38 polegadas, quase 1 centímetro). O 45 é proibido para uso civil.

Também aprendo que andar armado pelas ruas pode me dar de 2 a 4 anos de cadeia, uma vez que a permissão é para possuir a arma para defesa pessoal em casa, no caso do documento da Polícia Federal -ou indo e voltando de um clube de tiro, no caso do processo de atirador desportivo, controlado pelo Exército.

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Mas o que mais me surpreendeu foi a pena de 2 a 4 anos para quem der um tiro a esmo. Seja para cima, para baixo ou numa árvore, tudo isso é proibido. São apenas duas as possibilidades legais de você dar um tiro no Brasil: dentro de um clube especializado ou em alguém. E no caso esse alguém tem que estar ameaçando você ou sua família.

O professor explica que ninguém deve se meter a besta de atirar para o alto para espantar um ladrão: você pode ficar até quatro anos convivendo com o PCC.

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E menos ainda intervir em um roubo em andamento: você só pode atirar quando a sua vida (ou a de sua família) está em risco. Ponto final.

Terminada a aula, descemos para o porão do clube, onde ficam os estandes de tiro. O clube oferece alguns alvos de zumbis, juro, mas o professor escolheu aquelas silhuetas sem alma, com número 5 na região do coração e outros menores em áreas menos letais.

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O curso dava direito a 50 tiros, sendo dois de espingarda calibre 12 e o restante dividido entre pistola e revólver. O cheiro de pólvora toma o nariz por ali e você precisa usar protetor de ouvido e óculos. Os alvos ficam a 5 ou a 7 metros do atirador.

Começo com a pistola. A arma é mais pesada do que imaginava e o gatilho é duro de puxar. É preciso segurar com as duas mãos, mas apertar com um dedo só. Vou “esmagando” o gatilho, como os entendidos dizem, e de repente POW. Depois do primeiro, o resto vem fácil. O revólver é mais simples de usar e dá menos problemas de travamento. A espingarda assusta pelo barulho e pelo tranco mais forte.

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Não senti nenhuma, absolutamente nenhuma sensação ao atirar. Nem de poder, nem de medo, nem muito menos de alívio de estresse, como muitos afirmam sentir. Em suma, não achei a mínima graça.

Mas após o curso, estou apto a fazer o laudo de tiro, que marcamos para a mesma semana. Dias depois, realizei a prova teórica e acertei 8 de 10 questões. Descemos novamente para o porão, desta vez com 20 balas de pistola. Acertei 17 no alvo e três na região 4: foram 97 pontos em 100 possíveis.

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O instrutor credenciado se empolga pelo fato de eu ser novato. “Nasceu pra isso”, garante. Aquiesço, mas não revelo porque sou tão bom: anos de videogame matando alienígenas e nazistas me deram o sangue frio suficiente para tirar a realidade de letra.