A data 19 de agosto é reconhecida no País como o Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua. Para atrair os holofotes para a causa, um coletivo em Santos organizou um ato em apoio às pessoas que vivem em condições precárias nas vias públicas da Cidade.
A iniciativa nasceu com o objetivo de unir esforços na luta contra as violações de direitos de homens e mulheres em situação de rua. “Não queremos que essa mobilização acabe aqui. Queremos dar visibilidade à situação, pois a sociedade se acostumou a ignorar os indivíduos que se encontram em condições subumanas. Isso é inaceitável”, disse a professora Sonia Regina Nozabielli, do corpo docente da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que sediou o evento.
O ato teve início às 14h com uma passeata que saiu do Albergue Municipal. Com apitos, faixas e cartazes, integrantes de grupos voltados às causas sociais na região, além de estudantes e moradores em situação de rua, ocuparam as ruas do bairro Vila Mathias em direção à instituição de ensino que abrigou o restante da programação.
“O trajeto passou por pontos onde há grande concentração de pessoas em situação de rua em Santos. Queríamos que eles soubessem que estávamos nos manifestando por eles e que eram convidados a participar do ato, do qual são os protagonistas”, afirmou Joice Valcarcel, psicóloga que atua no Albergue da Cidade.
Intervenções e debate
Já no campus da universidade, o ato continuou com um sarau, apresentações de música e também depoimentos de pessoas que conseguiram superar as dificuldades encontradas na rua.
Para a representante da Secretaria de Assistência Social, Rejane Oliveira, o encontro abordou temas além da reinserção social dos indivíduos em situação de rua. “Temos que cuidar da saúde mental e física desta população. E a sociedade deve ser parte desta luta”, avaliou.
O encerramento do ato aconteceu em uma roda de conversa com pessoas em situação de rua e representantes dos coletivos, além da defensora pública Lisa Mortensen e do promotor de justiça João Carlos Meirelles Ortiz, do 6º PJ-Santos (Criminal).
Massacre da Sé
A data, marcada como Dia Nacional de Luta da População em Situação de Rua, faz referência ao episódio que ficou conhecido como o Massacre da Sé. Entre 19 e 22 de agosto de 2004, sete pessoas em situação de rua foram assassinadas com golpes na cabeça enquanto dormiam na região da Praça da Sé, no centro de São Paulo. Os ataques também deixaram oito pessoas feridas.
Morador conta sua vivência nas ruas
“Moro na rua mas tenho o meu valor!”. Uma das vozes que entoava essa frase durante o percurso da passeata foi a de Sandro Aparecido, de 39 anos. Atualmente em situação de rua, ele dorme nos arredores do Mercado Municipal.
Quando viu a passeata se aproximando, foi saber o que acontecia. Assim que se aproximou do coletivo que se manifestava, se enturmou e fez questão de carregar um cartaz em todo o trajeto – e que guardou para se lembrar da ocasião .
“Esse é o espaço que eu durmo, como e vivo. Quando vi o pessoal chegando com os cartazes e apitos, pensei que eu poderia ajudar a fazer barulho também.”, disse.
Sandro nasceu em Natal, no Rio Grande do Norte. Quando jovem, passou pela perda de um familiar e entrou em depressão. Começou a se envolver com diversos tipos de drogas, uma delas o crack.
Mergulhado na sensação de vergonha e sem forças para sair do vício e retomar a vida, Sandro decidiu largar tudo e sair da cidade natal.
Há sete anos vivendo nas ruas, ele morou por alguns meses em São Paulo e, na companhia de alguns amigos, veio para Santos. Atualmente, Sandro ganha o dinheiro para se alimentar por meio de um trabalho de reciclagem.
Quando tem a oportunidade, liga para a mãe, de quem sente saudades. Mas disse que ainda não se considera digno de voltar para a terra em que nasceu. “Quero me recuperar, mas parece que todo dia acontece algo que só me desanima mais. Vou falar com o pessoal daqui da passeata para ver no que eles podem me ajudar. O dia de hoje foi muito especial,me sinto incluído”, conta emocionado.
