Circo tenta sobreviver sem animais

Na semana em que se comemorou o Dia do Circo, Diário do Litoral acompanhou a rotina dos artistas

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28 MAR 201523h37

O dia está claro e a lona é iluminada apenas pela luz solar. Vazias, as 400 cadeiras ajeitadas em frente ao globo da morte aguardam o público que deve comparecer ao espetáculo de logo mais a noite.

No palco de madeira, dois garotos treinam com monociclo e malabares. Livre dos trajes coloridos e da peruca, o palhaço conserta uma motocicleta.

A dançarina dá lugar à dona de casa. Enquanto lava a roupa em um tanquinho, conduz a Reportagem até o trailer de sua família. Lá, o esposo, ex-domador de tigres e proprietário do circo, almoça com os dois filhos.

A rotina dos 30 artistas circenses do grupo segue a mesma até que chegue o momento de partir rumo a outro destino. Longe do glamour de outras épocas, hoje eles sobrevivem.

“O circo é uma cultura milenar, mas com o passar do tempo vem se deteriorando. A retirada dos animais, a falta de incentivo e a internet fizeram com que o circo tivesse que se readaptar. Veja que grandes circos como o Garcia, Orlando e Orfei faliram. Conseguimos dar a volta por cima e hoje sobrevivemos”, disse Luiz Carlos Müller. O ex-domador de tigres, 40 anos, nasceu no circo. Em 1990, sua família fundou o circo Bremer, no Rio Grande do Sul. Referência na utilização de animais, eles participaram de programas televisivos e levaram multidões aos seus espetáculos.

“Sentimos muito a retirada dos animais. Não apenas pela queda de público, mas pelo sentimento que criamos. Nossos animais eram bem tratados. Hoje o mágico não pode usar nem pombo e nem cachorro em seus truques. Como em todo segmento há os bons e os maus profissionais e, infelizmente, pagamos o preço dos maus. Foi um baque, mas superamos. No Brasil tudo se proíbe, ao invés de fiscalizar e ter rigor. Enfim, já passou”, desabafou o artista.

Devido à queda de público, a trupe do circo da família, que já chegou a ter mais de 100 artistas, precisou ser dividida. Atualmente eles se revezam em dois circos: o Müller, que é administrado por ele, e o Bremer pela irmã.

Com os avanços da tecnologia e o boom da internet, Müller destaca que o acesso ao entretenimento ficou mais rápido e fácil, o que também contribuiu para a redução do público.

“Hoje você não vê mais criança brincando de bolinha de gude ou peão. Muitas nem sabem o que é circo. Conhece palhaço. É certo que muita coisa mudou, mas ainda continuamos nômades e tradicionais. Se antes vivíamos em barracas, hoje é bem melhor. Dormimos em trailers com geladeira, ar-condicionado e algumas outras facilidades que antes não tínhamos”, explicou.

As crianças que crescem no circo, amparadas pela lei, frequentam as escolas das cidades por onde passam. No entanto, as diferenças regionais atrapalham a continuidade dos estudos. “A maioria estuda até a oitava série. Quando ele decide cursar uma faculdade ou se dedicar ao estudo, muitas vezes acaba deixando o circo, como já aconteceu”, destacou Müller.

Outra dificuldade encontrada por quem mora em circo é relacionada ao atendimento médico. Como não possuem endereço fixo, muitas vezes tiveram acesso negado às unidades de saúde. “Agora o SUS obriga que o atendimento seja feito. Mas já houve tempo de entrarmos em um hospital e não sermos atendidos”, afirmou.

Ainda sobre a redução da bilheteria e do público, Müller destacou a burocracia e a falta de espaços públicos para a instalação do circo. “A burocracia é enorme e olha que temos toda a documentação em dia. Tem municípios que dificultam o acesso. Autorizam, mas sem que haja cobrança de bilheteria. É óbvio que a gente ama o que faz, mas como vamos viver assim? Também faltam mais espaços destinados para esse tipo de entretenimento”, disse.

O empresário disse que para tentar reverter a situação e colocar novamente o circo em evidência, uma rede formada por pelo menos 500 circos discutem avanços, em especial, na legislação. “Precisamos de mais incentivos para a categoria. Hoje um artista circense não pode se aposentar, a não ser que contribua como autônomo. Eu, como empresário, não tenho condições de pagar os encargos trabalhistas. Vivemos numa espécie de cooperativa. Isso é ruim”, afirmou.

E se antes o público maior era de crianças e idosos, atualmente os jovens têm sido a maioria nas cadeiras do circo. “O circo tem que se adaptar. Buscamos na internet o que possa atrair o público. Adaptamos atrações que fazem sucesso como Frozen e Peppa Pig, por exemplo, para chamar a atenção das crianças. Estamos felizes por estarmos resgatando o gosto dos jovens e das famílias em geral, que passaram a nos procurar mais”, conclui Müller.

A lona do Circo Miller foi levantada na Área Continental de São Vicente e tem shows (Foto: Luiz Torres/DL)

História de amor

O ambiente no circo é de união. Cada família vive em seu treler ou microonibus adaptado. Para quem cresceu nesse ambiente é normal, mas o amor também levou pessoas a desistirem da vida ‘comum’ para se dedicar ao casamento de rotina nômade. É o caso da argentina Alejandra Arias, 34 anos, esposa de Müller, que deixou sua cidade natal para viver percorrendo o Brasil.

Casados há cinco anos, eles se conheceram há 10, na cidade de Uruguaina, divisa do Brasil com a Argentina. “Ele estava em um circo e eu em outro. Os dois circos estavam montados próximos. Era acrobata, porque na escola aprendemos a modalidade de ginástica, mas nunca fui de circo. Ele tem três filhos de outro relacionamento. Eu também tenho um de outro relacionamento. E juntos tivemos mais um filho”, disse apontando para o caçula.

Três gerações de palhaços e muitas gargalhadas

Ele é a sexta geração de uma família de artistas de circo. Ao lado do pai, o palhaço Condorito, foi atração do programa Eliana & Companhia, no SBT, e dos circos Stankowich e Beto Carrero.

Atualmente, o chileno Fernando Martin Pontigo Beltran, 38 anos, o palhaço Cone, continua trabalhando com o genitor, mas conta também com a companhia de seus filhos, nos espetáculos do Circo Müller.

“São três gerações de palhaços. Amo o que faço. Minha missão é fazer os outros rirem. A criança ri naturalmente, mas fazer o adulto rir é mais difícil. Eles chegam no circo estressados e com a cabeça cheia de preocupação. Entram bravos, mas saem felizes, pois consigo fazê-los rir. Cada sorriso que consigo arrancar é muito gratificante”, disse Cone à Reportagem, enquanto consertava a motocicleta utilizada no Globo da Morte.  

O filho do palhaço Cone, o jovem Maximus, de apenas 13 anos, é craque no monociclo e nas palhaçadas. Cresceu entre artistas e disse que nunca largará a sua paixão. “Treino todos os dias. Aqui estamos livres das drogas e das coisas ruins. Gosto de contar novidades para as crianças que conheço e fazê-los rir toda vez que me pedem”, destacou.

Circo Müller

Onde está?

Até hoje, em frente à Lagoa do Quarentenário, no Jardim Irmã Dolores, em São Vicente

Quando acontecem os espetáculos?
As 16 horas / 18h30 / 20h30

Quanto custa?
R$ 15,00 adultos