Javalis reviram o solo em busca de alimento e podem alterar o equilíbrio de florestas protegidas / Divulgação
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Um estudo científico recente trouxe um novo alerta para a conservação ambiental: javalis estão modificando de forma significativa o solo de florestas protegidas na Europa. A pesquisa comprova que o impacto desses animais vai muito além de danos pontuais e já afeta diretamente a estrutura, a fertilidade e o equilíbrio de áreas consideradas de alto valor ecológico.
O levantamento foi realizado em florestas integrantes da rede Natura 2000, conjunto de áreas protegidas criado para preservar a biodiversidade europeia. O foco da análise foi um bosque de carvalhos sobre solo arenoso, localizado na República Tcheca, onde pesquisadores mapearam quase 4 mil áreas escavadas pelos javalis ao longo de cerca de 976 hectares.
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Os resultados chamaram a atenção da comunidade científica. Em determinados períodos, os animais chegaram a alterar até 10,9% da superfície florestal em apenas um ano. Na temporada seguinte, o índice caiu para 7,9%, variação atribuída principalmente à disponibilidade natural de alimento, como bolotas. Em anos de escassez, os javalis intensificam o enraizamento em busca de raízes, bulbos e invertebrados.
Segundo os especialistas, esse comportamento não é inofensivo. A escavação constante remove a camada superficial do solo, atingindo vários centímetros de profundidade. Isso interfere diretamente em processos essenciais para a saúde da floresta, como retenção de água, ciclagem de nutrientes e interação entre microrganismos e vegetação.
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Estudos complementares indicam que a atividade dos javalis altera propriedades químicas e físicas do solo, incluindo a composição da matéria orgânica, a distribuição de carbono e nitrogênio e a capacidade de troca de nutrientes. Além disso, o solo revolvido se torna mais vulnerável à erosão e facilita a entrada de espécies vegetais invasoras, dificultando a regeneração natural da floresta.
Para os cientistas, o fenômeno é impulsionado por uma combinação de fatores. Nas últimas décadas, a população de javalis cresceu em grande parte da Europa, favorecida pela redução de predadores naturais, mudanças no uso do solo, menor pressão de caça e alta capacidade de adaptação da espécie. Esse crescimento aumenta a pressão sobre os recursos naturais, inclusive dentro de áreas protegidas.
Embora o javali faça parte dos ecossistemas europeus, os pesquisadores alertam que o impacto em larga escala pode se assemelhar ao de uma espécie invasora. A repetição das escavações ao longo dos anos pode desencadear processos de degradação difíceis de reverter, especialmente em florestas com solos rasos ou localizadas em encostas.
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Diante desse cenário, os especialistas defendem a adoção de políticas de gestão ambiental mais precisas. Entre as propostas estão o controle sustentável da densidade populacional da espécie, a revisão de práticas que concentram artificialmente os animais em determinadas áreas e a instalação temporária de barreiras em zonas mais sensíveis, permitindo a recuperação do solo e da vegetação.
O estudo reforça que a preservação de florestas protegidas exige monitoramento constante e decisões baseadas em evidências científicas, especialmente diante de mudanças ambientais cada vez mais rápidas e complexas.