A trajetória de 50 anos da União Imperial, uma das mais tradicionais escolas de samba de Santos, ganhou um registro histórico definitivo pelas mãos do jornalista e historiador Sergio Willians.
Autor de diversas obras dedicadas à preservação da memória na Baixada Santista, Willians mergulhou intensamente nos arquivos e nas vivências da comunidade para escrever o livro “União Imperial Nos Braços do Povo”.
Em entrevista, o escritor detalhou os bastidores desse minucioso trabalho de pesquisa, que consumiu quase dois anos de dedicação, e ressaltou como a paixão popular guiou a produção de cada uma das 312 páginas de seu 22º livro publicado.
A agremiação, que começou em 1976 como o bloco Dengosas do Marapé, consolidou-se como uma força cultural ao longo das décadas, arrebatando 11 títulos e incluindo cinco conquistas consecutivas nos anos 1980. A mais recente foi neste ano de 2026, marcando o seu 50º aniversário.
O grande desafio de resgatar as memórias visuais
Para reconstruir as cinco décadas da atual campeã da folia santista, o autor recorreu à digitalização de antigos acervos e a dezenas de entrevistas com baluartes e integrantes da escola.
No entanto, Willians aponta que o obstáculo mais complexo do projeto não foi o texto, mas sim a iconografia histórica. “Qualquer livro de histórias, o maior desafio é realmente a parte de imagem”, confessa o pesquisador.
Ele explica que, embora as atas e os relatos textuais sejam essenciais para a apuração, uma simples fotografia carrega uma emoção insubstituível para o público. “As pessoas não dão muito valor no dia a dia, então não guardam, não registram”, pontua o historiador.
Para superar a escassez de arquivos com alta resolução, especialmente no período anterior aos anos 2000, o autor precisou de muita paciência investigativa e tecnologia.
Willians vasculhou coleções da Prefeitura Municipal e exemplares de jornais da região.
“Tive uma dificuldade muito grande de encontrar fotos com qualidade para a gente poder colocar num livro. Fomos traduzindo fotografias ruins, ajeitando e até dei uma tratada com Inteligência Artificial”, detalha.
Em alguns casos específicos, a opção adotada foi não realizar edições nas fotos, mantendo as imperfeições visuais para preservar a autenticidade. “Tem fotos que não consegui tratar, então eu deixei com todas as imperfeições das originais, por causa de sua representatividade”, avalia.
O protagonismo humano
Diferente de outros trabalhos institucionais já realizados pelo escritor, o projeto literário sobre a verde e rosa se destaca pelo profundo viés humano e emocional.
A obra adota uma estrutura cronológica rigorosa de 1977 até os dias atuais, mas reserva espaços sagrados e de destaque para as trajetórias de figuras marcantes.
“Em cada capítulo, eu edito um espaço para contar a história de um personagem que tenha vínculo com aquele ano”, explica. Para o jornalista, o título da publicação reflete exatamente essa essência popular.
A instituição foi forjada por “pessoas comuns, a pessoa humilde que tem na escola a sua maior alegria”.
Entre os homenageados estão ícones como Tia Isa, a madrinha da escola. “É basicamente uma coletânea de relatos, de histórias, de vivências, de experiências. Você vê que é uma grande família”, assegura o autor.
Ao analisar a evolução do Carnaval, o historiador ressalta que a agremiação inovou e ajudou a quebrar estereótipos presentes na sociedade. “A escola de samba é o lugar da família e da comunidade”, declara Willians.
Ele argumenta que a verde e rosa democratizou a festa ao atrair e unir diferentes classes sociais. “A União trouxe a classe média alta para a escola. Ela abriu, democratizou, rompeu essa barreira que tinha dessas camadas sociais”, relembra.
Um dos maiores exemplos citados na entrevista é a Ala do Paulinho, comandada pelo jornalista Paulo Schiff, que na virada da década de 1990 reuniu mais de 1.300 figurantes de clubes de elite na passarela.
A memória como inspiração para o futuro
Viabilizada com recursos da Lei Rouanet e o patrocínio da Transbrasa, a preservação dessa rica memória oral carrega um firme propósito filosófico.
Um dos personagens fundamentais para garantir esse resgate foi Ricardo Peres, ex-diretor de Harmonia que atuou como músico e compositor da verde e rosa.
Único integrante a desfilar em todos os anos pela agremiação, Peres é descrito pelo autor como um verdadeiro apaixonado. “Ele viveu esse tempo todo, teve 50 anos nessa história. É um cara entusiasta e foi uma peça fundamental nesse processo”, elogia o escritor.
Para o presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Santos, o repertório de lutas documentado funciona como a construção da própria identidade de um indivíduo.
“Uma cidade que não resgata a sua memória não é nada. A gente acaba cometendo os erros do passado e não sabe para onde vai”, reflete Willians.
Por fim, ele vislumbra que a leitura sirva como uma bússola cultural duradoura. “A história é sempre para inspirar. Imagina uma menina pegar o livro, ver uma grande porta-bandeira e dizer: ‘eu quero ser que nem ela’. É o retrato de uma paixão, uma história de muitas mãos, que está aqui perpetuada”, conclui.
Onde encontrar
Lançado na última sexta-feira (29), na quadra da escola, no bairro Marapé, o livro conta com uma tiragem limitada de 500 exemplares e pode ser encontrado na na Livraria Martins Fontes, no Gonzaga, e no Instituto Histórico e Geográfico de Santos, localizado na Avenida Conselheiro Nébias, nº 689. Custando R$ 200, o livro possui 312 páginas e capa dura.







