Cotidiano
A localidade hoje atrai historiadores, turistas, fotógrafos e curiosos interessados nos vestígios de uma utopia industrial que entrou em colapso diante da força da natureza
Fordlândia não é apenas uma cidade abandonada: é o que restou de um projeto megalomaníaco de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company / Amitevron / Wikimedia Commons
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Às margens do Rio Tapajós, no coração do Pará, está um dos cenários mais impressionantes e simbólicos da história industrial do século XX. Fordlândia não é apenas uma cidade abandonada: é o que restou de um projeto megalomaníaco de Henry Ford, fundador da Ford Motor Company, que tentou transplantar o estilo de vida americano para o meio da floresta amazônica a partir de 1928.
Conhecida como a 'Detroit da Amazônia', a localidade hoje atrai historiadores, turistas, fotógrafos e curiosos interessados nos vestígios de uma utopia industrial que entrou em colapso diante da força da natureza e dos limites culturais.
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O objetivo de Ford era estratégico. Ao criar uma colônia industrial no Brasil, ele buscava garantir o fornecimento de látex para a produção de pneus, fugindo do monopólio britânico na Ásia. Para isso, construiu uma cidade completa em plena selva: hospital moderno, campo de golfe, galpões industriais, sistema de hidrantes típico dos Estados Unidos e casas padronizadas inspiradas no estado de Michigan.
No entanto, o choque entre o modelo americano e a realidade amazônica revelou-se fatal. As seringueiras plantadas em monocultura foram devastadas por pragas, enquanto os trabalhadores brasileiros se revoltaram contra a imposição de hábitos estrangeiros, como a dieta rígida e a proibição do consumo de álcool. O projeto entrou em declínio e foi definitivamente abandonado em 1945.
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O maior símbolo de Fordlândia é a caixa d’água metálica, que ainda domina o horizonte da antiga cidade. Quem se arrisca a subir tem uma vista privilegiada do Tapajós e das ruínas que resistem ao tempo. Próximo dali, o Galpão da Serraria, um dos principais complexos industriais do projeto, permanece de pé, com maquinários originais da Ford Motor Company enferrujando lentamente — testemunhas silenciosas de um sonho interrompido.
Na parte residencial, a chamada Vila Americana, construída em uma colina para aproveitar a ventilação natural, reúne casas de madeira típicas do meio-oeste dos Estados Unidos. Algumas foram restauradas e seguem habitadas por moradores locais; outras estão em avançado estado de deterioração, engolidas pela vegetação. Caminhar pelo local é imaginar bailes de square dance e jantares proibicionistas tentados em pleno trópico.
Fordlândia transformou-se em um museu a céu aberto, onde cada construção revela um capítulo do fracasso industrial. Entre os principais pontos de visitação estão:
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Hospital de Fordlândia: projetado pelo arquiteto Albert Kahn, já foi considerado o melhor da Amazônia; hoje, impressiona pelo aspecto fantasmagórico.
Caixa d’água e galpões industriais: centro do antigo complexo produtivo, ainda com marcas da era Ford.
Vila Americana: ruas e casas que contrastam com a paisagem amazônica.
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Rio Tapajós: além da carga histórica, oferece praias de água doce durante a estação seca.
Cemitério Americano: escondido na mata, abriga expatriados e reforça a aura de mistério do local.
O acesso ao distrito de Aveiro é feito exclusivamente por barco, a partir de Santarém ou Itaituba. O clima amazônico influencia diretamente a experiência: na estação seca, surgem praias no Tapajós e a circulação entre as ruínas fica mais fácil; no período chuvoso, a paisagem se torna ainda mais dramática, embora o deslocamento seja mais difícil.
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Mais do que um destino turístico alternativo, Fordlândia é um monumento ao fracasso de uma visão industrial que ignorou a complexidade ambiental e cultural da Amazônia. O local sintetiza a arrogância de tentar dominar a floresta com métodos importados e a resistência de um território que não se deixou moldar.
Entre o pôr do sol visto do alto da caixa d’água e as conversas com descendentes dos trabalhadores que ainda vivem na região, Fordlândia oferece uma experiência intensa, reflexiva e visualmente poderosa — o lugar onde Henry Ford perdeu para a selva amazônica.