Infarto renal e dias na UTI: ‘Chip da Beleza’ vira bomba relógio para mulher na menopausa

Entenda o que gerou tão doença rara e grave em uma decoradora de 53 anos após o uso de implante hormonal; caso foi parar na Justiça de São Paulo

O "Chip da Beleza" é um implante hormonal que promete emagrecimento, ganho de massa muscular e aumento da libido (Divulgação)

A história de Ana Karina Porto Oliveira, entrevistada pelo programa Encontro com Patrícia Poeta nesta quinta-feira (7), dá luz a uma doença pouco falada: o infarto renal.

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Mas como esta decoradora paulistana, de 53 anos, sofreu com um mal tão incomum é a parte mais assustadora da história. A doença foi causada pelo uso de um implante hormonal, o famoso “Chip da Beleza”.

Ana Karina foi ao médico ao ter infecções urinárias recorrentes. Ela já tinha entrado na menopausa precocemente, mas sem apresentar os sintomas comuns: fogacho, oscilação de humor e grandes alterações no peso. Mesmo assim, após exames feitos na clínica do próprio médico, a implantação do “chip” foi necessária por conta de uma baixa hormonal.

Depois disso, o pesadelo começou. Ana passou 10 dias internada e – após muito sofrimento – precisou provar na justiça que o implante gerou o infarto renal e quase a fez perder o único rim que tem. 

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A sentença veio da 2ª Vara Cível do Tribunal de Justiça de São Paulo. O juiz Tom Alexandre Brandão reconheceu culpa médica por imperícia e negligência. Além disso, condenou o médico responsável – e a clínica em que atuava – ao pagamento de indenização. 

Um alerta aos implantes hormonais

A história de Ana Karina é só mais uma no mercado dos implantes hormonais. A fórmula inserida em seu corpo — detalhada posteriormente pela perita judicial — continha duas cápsulas de gestrinona de 25 mg, uma de 35 mg, testosterona, estradiol, estriol e metformina. Em 45 dias, a decoradora ganhou 12 quilos e desenvolveu acne intensa.

A dor no rim a levou ao hospital, onde ficou por 10 dias. Na emergência, o médico logo identificou o problema ao perguntar se ela usava anabolizantes. Quando Ana Karina mostrou a composição do implante, o emergencista explicou que a gestrinona potencializa o efeito da testosterona e que ela estava com uma bomba relógio dentro do corpo.

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Mesmo com a alta, os problemas não cessaram. Meses depois, o excesso de hormônios espessou o endométrio e ela passou a ter hemorragias —intensificadas pelo anticoagulante que precisava tomar em razão da trombose.

Foi necessária uma histeroscopia. No meio do procedimento, Ana Karina teve edema pulmonar agudo e parou de respirar. Ficou dois dias na UTI.

A sentença condenou o médico por danos morais e estéticos — a perícia confirmou ganho de peso, virilização, engrossamento do pescoço e alteração da voz. Três anos depois do implante, Ana Karina ainda faz ressonância do rim pelo menos duas vezes por ano.

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Infarto renal é raro e grave

O infarto renal ocorre quando o fluxo de sangue para o rim é interrompido subitamente. Isso se deve, geralmente, ao entupimento de uma artéria por um coágulo ou por danos na estrutura do vaso. 

Sem o sangue, o tecido do órgão deixa de receber oxigênio e começa a morrer (processo chamado de necrose), podendo afetar apenas uma pequena parte ou o rim inteiro. Foi o que aconteceu com Ana Karina, que foi diagnosticada com trombose já na emergência.

O grande perigo do infarto renal está na dificuldade do diagnóstico, já que os sintomas são vagos e podem ser confundidos com outros problemas, como pedras nos rins. Se a circulação não for restaurada rapidamente, as lesões tornam-se permanentes, o que pode levar à perda definitiva das funções do rim afetado.

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O infarto renal é uma condição extremamente rara, ocorrendo em menos de 0,01% dos atendimentos de emergência. Ele afeta principalmente pessoas entre 60 e 70 anos, atingindo homens e mulheres na mesma proporção.

Pessoas que já possuem problemas nos rins ou que passaram por cirurgias nos grandes vasos sanguíneos do corpo também estão no grupo de maior risco, pois suas artérias já possuem uma vulnerabilidade natural a novos bloqueios.

Confira a seguir um vídeo que explica os riscos e os benefícios dos implantes hormonais no canal da TV Senado:

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O que é o “Chip da Beleza”?

O chamado “chip da beleza” é, na verdade, um implante hormonal que promete benefícios como emagrecimento, ganho de massa muscular e aumento da libido. Apesar do apelo comercial, sociedades médicas e órgãos reguladores alertam que esses produtos possuem ação anabolizante e carecem de comprovação científica para os fins estéticos anunciados.

O mercado em torno desses implantes movimenta milhões de reais no Brasil, sustentado por uma rede que envolve médicos, treinamentos e farmácias de manipulação. Embora o Conselho Federal de Medicina aponte possíveis conflitos de interesse nessa cadeia, e a Anvisa tenha tentado restringir o setor, brechas na legislação atual permitem que a comercialização e o uso continuem em expansão.

Nas redes sociais, a estratégia de venda foca principalmente no público feminino, utilizando influenciadores para associar o produto à autoestima e ao desempenho físico. Dessa forma, o implante acaba funcionando como uma porta de entrada para um ecossistema mais amplo de suplementos e tratamentos estéticos, muitas vezes explorando as inseguranças corporais das consumidoras.