Aquele odor forte que surge quando o cabelo entra em contato com a chapinha não é apenas uma impressão desagradáve. Uma pesquisa realizada no Instituto de Física (IF) da USP revelou que o “cheiro de queimado” é o resultado da liberação de gases provocada pela destruição das proteínas do cabelo sob altas temperaturas.
O estudo, conduzido pela engenheira química Cibele de Castro Lima, utilizou microscopia eletrônica e espalhamento de raios X para observar o comportamento dos cabelos. Os resultados mostraram que o odor surge quando a fibra capilar ultrapassa a barreira crítica dos 200°C.
Neste estágio, o calor quebra os aminoácidos que contêm enxofre, como a cistina, responsável pela força e resistência do fio, liberando os gases voláteis que causam o mau cheiro.
Interior do fio sofre primeiro
Ao contrário do que o senso comum dita, o calor não destrói o cabelo de fora para dentro. As análises comprovam que o córtex (a camada interna do fio) é muito mais sensível ao calor do que a cutícula (a camada externa).
Enquanto a superfície externa aguenta temperaturas acima de 250°C, o interior do fio começa a se degradar por volta dos 230°C. A pesquisa da química também indicou que o processo de destruição invisível segue uma linha de temperatura severa:
- A partir de 70°C: Cabelos com química (como escova progressiva) perdem os lipídios naturais, que são as gorduras responsáveis por manter o cabelo hidratado.
- A partir de 220°C: Inicia-se a desnaturação e a quebra das cadeias de queratina, deixando os fios porosos e quebradiços.
- Acima de 250°C: O córtex desaparece por completo. O fio mantém a aparência externa sustentada pela cutícula, mas fica completamente oco por dentro.
O perigo do “combo” químico
Embora o estudo tenha provado que mesmo cabelos virgens sofrem danos severos com o calor, o cenário é alarmante para quem combina procedimentos. Os fios que passaram por descoloração e alisamento ácido simultâneos perderam a estabilidade térmica mais rápido, tornando-se alvos fáceis para a quebra imediata.
Segundo o professor Cristiano Oliveira, orientador do estudo, os dados devem conduzir a indústria cosmética na criação de protetores térmicos mais eficientes. A recomendação é que o uso de ferramentas de calor deve ser moderado e as temperaturas nunca devem atingir as faixas extremas. A medida evita o risco de causar danos estruturais irreversíveis.






