Catorze anos após adoção, mãe e filho só se veem através de grades

Relação começou em 2005, no primeiro dia de vida do bebê

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30 MAI 2019Por Thaís Moraes18h32
Até 2015 Nanji permaneceu sozinho, até que foi aproximado da madrasta KiaraFoto: Divulgação/PMSV

Menor do que a média, o bebê loiro chegou ao mundo num trabalho de parto natural muito difícil. A mãe já havia tido outras três gestações, mas todos os bebês não resistiram. A vida da progenitora não foi fácil, tirada do convívio da família ainda criança, não teve a chance de aprender comportamentos sociais esperados e nem a demonstrar seus sentimentos, por isso, não foi julgada.

A mulher que, então, adotou o bebê, não esperava se tornar mãe pela segunda vez — já tinha gêmeos com quatro anos —, mas entendeu que acolhê-lo era a única forma de mantê-lo vivo. No mesmo dia de seu nascimento, 2 de maio de 2005, levou-o para sua casa. 

Para proteger o recém-nascido e mantê-lo aquecido, deixava junto a ele uma bolsa de água quente e um abajur. A rotina resumia-se em preparar e dar mamadeira a cada uma hora, lavar fraldas de pano apenas com sabão de coco e fervê-las para evitar qualquer contaminação. 

O leite de vaca era como água, não fazia efeito algum. A mamadeira teve que ser reforçada para que sua eficácia pudesse ser medida no ponteiro da balança. A fórmula consistia em: leite de cabra, óleo de milho, creme de leite, complexo vitamínico e um rato de laboratório morto.

“Ele não conseguiu beber o colostro (leite rico em anticorpos), não tinha imunidade e desenvolveu um problema de pele logo que nasceu, então precisei reforçar o leite para que parecesse ao máximo com o materno, riquíssimo em gordura e proteína”, recorda a mãe adotiva, Sandra Peres.

Como toda mãe, Sandra colocava o bebê, que recebeu o nome de Nanji, para arrotar, brincava, ninava e o colocava no quintal para tomar banhos de sol. Com apenas dois meses, o pequeno foi inserido numa dieta pastosa e não mais demandava tantas refeições durante o dia.

Da casa de sua mãe adotiva, Nanji mudou-se para o Parque Ecológico Engenheiro Tércio Garcia, em São Vicente. Sandra, que é veterinária do local há 19 anos, cuida até hoje do seu “bebê” leão, que já passou dos 200 quilos e emite rugidos que já foram ouvidos na Av. Presidente Wilson. 

O som, que na savana pode ser ouvido a uma distância de até oito quilômetros, nada tem a ver com um sinal de fome, mas como uma forma de delimitar território, até porque Nanji come todos os dias de cinco a seis quilos de carne, que incluem frango resfriado, acém (corte de carne bovina), fígado, rim e coração de boi e fígado e moela de frango.

Todo o carinho que o primeiro leão nascido na Baixada Santista recebeu da equipe do Parque Ecológico serviu para que ele sobrevivesse, mas a ausência da mãe Noala, falecida em 2005 após complicações em outro parto, e do pai Nagan, com quem teve pouquíssimo contato e hoje vive no Zoológico de Americana, interior de São Paulo, fez com que Nanji não aceitasse contato com outros leões.

“Por termos cuidado dele desde filhote, brincado e alimentado, ele nos associava à mesma espécie dele e isso não é bom. Se a gente pensar que é um leão que tem que se relacionar com outros da mesma espécie, dava uma confusão na cabeça dele”, elucida a veterinária.

Até 2015 Nanji permaneceu sozinho, até que foi aproximado da madrasta Kiara, levada para o Parque em 2006. Foi um longo processo para que ele estabelecesse uma relação com a leoa. Os dois não reproduziram porque em 2010 o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) proibiu a reprodução de felinos exóticos no Brasil, como leão, tigre, leopardo, puma, pantera e lince. Segundo o Ibama, a decisão ocorreu devido ao grande número de casos de abandono e maus-tratos desses animais. 

Após a decisão, no período do cio os machos eram afastados das fêmeas. Depois, foram vasectomizados. Nanji passou pelo procedimento em 2016. “Ao contrário do que pensam, não retiramos os testículos. Se isso ocorrer o leão perde sua juba e fica com traços da fêmea”, explica Sandra.

Nanji é vizinho do irmão, mas sem contato

Um ano após a morte da mãe, o pai Nagan reproduziu com Kiara, recém-chegada de um circo. Em dezembro de 2006, a madrasta teve um casal de gêmeos, Naja e Naweh. Após 11 dias de amamentação, o leite de Kiara secou devido ao estresse.

“Também levei os filhotes para a minha casa, mas com eles passei apenas 15 dias, pois eram mais arteiros e agressivos. Não demandaram tanta atenção porque receberam os anticorpos da mãe”, recorda Sandra.

Embora meio irmãos, Nanji e Naweh não possuem contato. Vivem em recintos vizinhos, por um simples motivo: leão não aceita dividir o reinado. A única coisa que conhecem um do outro é o rugido, que costuma aparecer pela madrugada, mas se repete ao longo do dia.

Possuem a mesma dieta, mas não a mesma disposição. Naweh é mais pacato, prefere comandar seu reinado de um só leão dentro da toca ou observando os humanos que o vão visitar. Nanji, não. Adora brincar com galões de água, caixas de papelão cheias de feno e procurar carne dentro de sacos de batata. Apesar das grades, mãe e filho vivem uma vida feliz. Há 14 anos.

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