Caso Fabiane: Um Dia das Mães interrompido

Diário do Litoral entrevistou o marido da dona de casa, Jaílson das Neves, que foi espancada há uma semana no Guarujá. Além de todo o sofrimento, a revolta dos familiares só resulta em um sentimento: o de querer justiça

Comentar
Compartilhar
11 MAI 201401h31

O sonho da maioria das mulheres está na maternidade. Fabiane Maria de Jesus, de 33 anos, era uma destas. Mãe de duas filhas, Yasmin (10 anos) e Ester (1 ano), a dona de casa foi impedida de mais um Dia das Mães ao lado das filhas.

Há uma semana, após ir a igreja buscar uma Bíblia esquecida, a mãe foi confundida com uma possível sequestradora e espancada por populares onde morava por toda a vida, no Morrinhos, em Guarujá. A filha mais nova foi muito esperada. Antes dela, Fabiane havia perdido um bebê com nove meses de gestação. A mãe curtiu apenas o primeiro ano da filha tão desejada.

A brutalidade sofrida por Fabiane lembra uma passagem na Bíblia, companheira dela em 18 anos que ela frequentou a Igreja São João Batista, no mesmo bairro onde viveu e morreu. A passagem está no livro de João, capítulo 8 (1-7): “Jesus foi para o monte das Oliveiras. Ao amanhecer, ele voltou ao Templo, e todo o povo ia ao seu encontro. Então Jesus sentou-se e começou a ensinar. Chegaram os doutores da Lei e os fariseus trazendo uma mulher, que tinha sido pega cometendo adultério. Eles colocaram a mulher no meio e disseram a Jesus: ‘Mestre, essa mulher foi pega em flagrante cometendo adultério. A Lei de Moisés manda que mulheres desse tipo devem ser apedrejadas. E tu, o que dizes?’ Eles diziam isso para pôr Jesus à prova e ter um motivo para acusá-lo. Então Jesus inclinou-se e começou a escrever no chão com o dedo. Os doutores da Lei e os fariseus continuaram insistindo na pergunta. Então Jesus se levantou e disse: ‘Quem de vocês não tiver pecado, atire nela a primeira pedra’”.

Leia também:
Mulher espancada após boatos morre em Guarujá
Polícia inicia diligências atrás dos envolvidos em barbárie em Guarujá
"Não dependeu só de mim", diz acusado de linchamento em Guarujá
Mais cinco suspeitos por linchamento em Guarujá são identificados
Polícia Civil prende terceiro suspeito por linchamento em Guarujá
Presos mais dois acusados do caso Fabiane
Quarto suspeito de linchamento em Guarujá é preso

Fabiane recebeu todas as pedras sem ao menos saber porquê. E foram pedras, chutes, pauladas e humilhações. Tanta violência foi parar nas manchetes dos jornais mais importantes do País e também do mundo. Há tempos que o tema “justiça com as próprias mãos” se propaga pelos noticiários e pelas redes sociais. Há tempos também que se discute o poder destas redes no compartilhamento de boatos. As discussões em cima deste assunto são diversas e sem fim. Nenhuma delas minimiza a dor dos familiares da dona de casa.

Esta semana, o Diário do Litoral entrevistou o marido de Fabiane, Jaílson das Neves, que ao contar quem era a esposa, sorria tentando esconder a tristeza que sente. “A Fabiane como esposa, mulher, mãe, filha, era uma pessoa muito amável. Amava muito as filhas. Ela era espontânea, não tinha tempo ruim para ela. Sempre tentando ajudar quem ela gostava. Ela conhecia todo mundo no bairro, frequentou muito tempo a igreja, foi catequista. Toda nossa vizinhança gostava muito dela”, conta querendo explicar porque precisa ser forte. “Tenho que ficar firme por causa das minhas filhas. É dolorido, mas faz parte da vida. Tenho que levantar a cabeça. Meus amigos e meus familiares estão me ajudando a suportar esta perda irreparável. Não é uma perda só minha, mas também de todos que gostavam da Fabiane”. Eles estavam juntos há 18 anos e começaram a se conhecer melhor no aniversário de 15 anos de Fabiane. “Foi amor à primeira vista”, conta.

As filhas ainda estão assimilando o que aconteceu. A mais nova, que Fabiane ainda amamentava, chama por ela sem saber o que aconteceu. A mais velha, com acesso aos vídeos e às fotos do espancamento, está sendo acompanhada por psicólogos e assistentes sociais. “A de um ano não entende muito. Mas, a mais velha sim. Ela pediu até para comprar um porta-retratos para colocar a foto dela no dia das mães. Elas não foram ao velório e nem no enterro. Ela quer lembrar a mãe viva, não quer ter a imagem da mãe no caixão”, explica o pai.

'A Fabiane como esposa, mulher, mãe, filha, era uma pessoa muito amável', afirma Jailson (Foto: Fernanda Haddad/DL)

O boato

A notícia de que havia uma mulher sequestrando crianças para rituais de magia negra foi postada nas redes sociais pela página Guarujá Alerta. A postagem tinha o retrato falado. A família de Fabiane pouco sabia sobre o assunto. “A gente sabia do boato por alto. Mas não dei bola para isso. Eu nem sabia de onde tinha saído este boato. A Fabiane também não deu bola, mas a cidade toda estava em polvorosa com o assunto. Ela disse que isso devia ser mentira”.

Os boatos também perseguem os acontecimentos que levaram a morte de Fabiane. Várias versões são contadas à família e até mesmo à Polícia, que está investigando em loco e através de fotos, vídeo e denúncias que chegam até eles. “A gente sempre escuta boatos. Não temos fatos concretos. As informações sempre são diferentes. Ora ela estava na bicicleta, ora ela estava tomando água, outros dizem que ela ofereceu uma banana para uma criança. São histórias sem uma consistência. De qualquer forma, foi uma covardia. Não há justificativa. Falaram que ela deu a banana, a mãe se assustou, disse que ela era a sequestradora e o povo já chegou batendo nela. Disseram que se basearam pelo cabelo”, explica o cunhado de Fabiane, José Nildo das Neves, que conta que Fabiane, que sempre teve o cabelo comprido, tinha cortado o cabelo há menos de uma semana.

A notícia da morte

Quando Jaílson ficou sabendo, Fabiane já tinha sido espancada e já estava no hospital. Parentes mostraram a foto da esposa machucada que já estava sendo divulgada na internet. “Eu fiquei sabendo através do Facebook. A minha prima me ligou, perguntou pela Fabiane e pediu para eu ir até a casa dela. Dei uma volta no bairro de bicicleta pelo trajeto que a Fabiane sempre faz para ver se eu a encontrava, mas não sabia de nada. Quando eu cheguei na casa da minha prima, ela pediu para eu não ficar nervoso e me mostrou a foto da Fabiane ajoelhada e sangrando o nariz. Eu reconheci logo. Minha prima não tinha certeza porque ela tinha mudado o cabelo, mas eu reconheci por causa da roupa que ela estava e a unha dourada. Logo depois, minha mãe ligou para eu no hospital fazer o reconhecimento da vítima. Peguei os documentos da Fabiane e fui. Ela estava internada, fiz boletim de ocorrência. Ela estava muito inchada, mas a reconheci por causa das cicatrizes que ela tinha. Mesmo assim, pelo rosto já sabia que era minha esposa. Depois de esperar muito, o médico veio me dizer que o estado dela era gravíssimo e ela corria risco de morte. Ela estava no CTI e aguardava vaga para UTI. Ela chegou a ficar estável, mas teve complicações no pulmão e depois no coração. Na manhã de segunda, nós recebemos a notícia que ela havia morrido”, conta.

Justiça

A família de Fabiane não pensa em indenização e nem pagar com mesma moeda. A única coisa que a família deseja é justiça, que todos paguem pelo que fizeram. “Eu espero que peguem todos os culpados que fizeram aquilo com a minha esposa. Nem um animal merece uma atrocidade daquela. Ela não teve tempo de se defender e nem falar. Ela foi vítima de uma brutalidade sem fim e acusada de bruxa”, conta o marido.

Para buscar esta justiça, Jaílson conta com o apoio do advogado Airton Sinto, que logo após a morte da dona de casa encaminhou o caso para a Polícia Civil. “O inquérito começou quando nós levamos a comunicação da morte da Fabiane. Antes havia uma BO da agressão sem indicação de autoria. Tomamos todas as providências e contamos com a ajuda da equipe de auditoria do Hospital Santo Amaro. Fomos à delegacia e a família já se colocou à disposição para depoimentos”, explica o representante legal da família.

Segundo ele, todas as informações sobre a morte da Fabiane são levadas à equipe de investigação para ajudar no esclarecimento do caso. “Recebemos muitas informações e levamos para a equipe de investigação da Polícia Civil. As investigações começaram com as informações que nós passávamos e também com a ajuda do Disque-Denúncia (181). Em 24 horas, a equipe fez a primeira prisão. Houve também o depoimento do administrador da página Guarujá Alerta. Ele assume que postou o boato, mas alega que não queria incitar a população porque avisou que eram boatos. Mas se ele sabia que eram boatos, ele postou a notícia com a intenção de chamar a atenção, o que agrava ainda mais a situação, na minha opinião”, acredita.

Para Sinto, o administrador da página da rede social tem a sua parcela de culpa na morte de Fabiane. “Eu tenho absoluta certeza que, moralmente, ele já é responsável pela morte da Fabiane. Perante Deus, ele já é responsável. Mas, agora, nós estamos enfrentando uma grande dificuldade jurídica. Que ele é responsável, sobre o ponto de vista fático, não há dúvidas. Se ele tivesse feito o que fez com a vaidade de aumentar seus seguidores, a morte não teria acontecido. Fabiane estaria amamentando a filha mais nova neste momento. Nós acabamos de passar por uma discussão enorme para a votação e aprovação para o Marco Civil da Internet, que foi aprovado de uma forma rápida e sem maiores discussões. Mas esqueceram de fazer a previsão para aquele que se finge de jornalista, entra numa página da rede social, sem identificação, escreve o que quer, se auto intitula informador da população e cria uma notícia falsa. Não há penalização no nosso ordenamento jurídico. O Marco Civil perdeu essa chance”, explica. “Veja a ironia. Quando o administrador da página foi depor, ele foi coberto, entrou e saiu da delegacia com a jaqueta escondendo o resto, tentando preservar a sua imagem. É um direito dele. Mas é uma ironia muito grande. Ele preservando a imagem dele, mas ele não pensou em preservar a identidade da mulher do retrato falado, que culminou com a morte de Fabiane”.

E a luta é muito maior do que a busca por justiça. Representando a família, Sinto acredita que é necessário maior conscientização da população para que este tipo de violência não volte a se repetir. “São duas frentes hoje. A luta pela proteção desta família e objetivo de sensibilizar a sociedade brasileira, criar o debate para que se cria uma legislação. Um exemplo: a atriz Carolina Dieckmann teve partes do seu corpo expostas na internet, causou uma comoção nacional e em quase dois meses ganhou uma lei com o seu nome. Será que a Fabiane de Jesus e sua família não teriam este direito de ter uma lei específica com o nome dela?”, alega.

Além disso, o advogado garante que a família de Fabiane só pensa em justiça para Fabiane, para assim limpar toda a humilhação que a dona de casa sofreu há uma semana, não só para os que deram as pauladas e os chutes, mas também para quem começou toda a história. “Não acho que o administrador da página seja um assassino frio como os que mataram a Fabiane. Mas dentro da medida da sua culpabilidade ele tem que responder. Existe um artigo no código penal que diz que aquele que contribuir de alguma forma para o delito vai responder na medida da sua culpabilidade. Estamos tratando de um homicídio triplamente qualificado praticado por várias pessoas. Então, já que não temos legislação, que este artigo seja aplicado neste caso. O que a família quer neste momento é justiça, nem um milímetro a mais, nem um milímetro a menos”.

O caso

Na sexta-feira, dia 9, mais um dos agressores que aparecem em vídeo atacando a dona de casa se apresentou à polícia. O suspeito prestou depoimento no 1º Distrito Policial, acompanhado por um advogado.

Com ele, sobe para quatro o total de presos acusados de envolvimento no caso e que deverão ficar detidos por pelo menos 30 dias em caráter temporário. Os demais envolvidos presos são Valmir Barbosa, de 48 anos, localizado pela polícia na última terça-feira, dia 6, Alex Oliveira de Jesus, de 23 anos e Lucas Rogério Fabrício Lopes, de 19 anos, ambos detidos na quinta-feira, dia 8.

Hoje, a partir das 13h30, os amigos e parentes farão uma marcha que deve sair da Praça Mário Covas, percorrendo as ruas do bairro onde ela morava, Morrinhos. A intenção é pedir que o caso não fique impune e que haja mais paz no País.