Cancelamento de mostra levanta debate sobre liberdade artística

Especialistas comentam recente polêmica envolvendo o cancelamento da mostra do Santander Cultural com temática LGBT

Nesta semana o cancelamento da exposição ‘Queermuseu: Cartografia das Diferenças na Arte Brasileira’ levantou o debate sobre a liberdade de expressão na arte. A mostra, que ficou em cartaz por um mês no Santander Cultural de Porto Alegre, reunia 270 obras que abordavam questões de gênero e de diversidade cultural.

Uma das imagens destacadas pelos grupos manifestantes como obscenas apresentava práticas sexuais como a zoofilia. Em outras obras, representações de menores de idade com a inscrição ‘criança viada’ foram acusadas de promover a pedofilia. Afinal, é possível distinguir até que ponto a arte está ‘certa’ ou ‘errada’? O que os recentes acontecimentos envolvendo a Queermuseu podem nos dizer sobre representatividade e os limites da arte?

Para Beatriz Rota-Rossi, professora de História da Arte, o simples fato de questionar se uma obra é ou não é arte já revela um preconceito. “A pessoa conhece um determinado tipo de arte e qualquer manifestação artística no cinema, nas artes plásticas, na música e no teatro que venha a inovar é um soco na cara, pois faz ela refletir. O que temos que analisar ao longo da história é que essa mesma pergunta foi feita para os Românticos, os Expressionistas, Goya, Velázquez, Picasso, Da Vinci e Michelangelo, pois suas obras não correspondiam com a visão contemporânea de seus respectivos tempos”, conta.

Para a especialista, a arte é vida e a vida é surpreendente, logo, a arte também é. “A frase ‘isso não é arte’ já demonstra preguiça mental e obsoletismo na visão de mundo. O que mais me chamou atenção foi o representante do Movimento Brasil Livre (MBL) que postou em um site falando horrores da exposição. Ele tem o direito de falar horrores, claro. Mas ele repetiu uma palavra que começa com ‘p’ mais de nove vezes para se referir à mostra e fez isso com tanto prazer que isso sim me pareceu obsceno”, afirma.

O Movimento Brasil Livre (MBL) divulgou uma nota nas redes sociais afirmando que o grupo pressionou para que a exposição não acontecesse e que era contra o uso do dinheiro da Lei Rouanet para financiar uma ‘mostra para crianças que conta com pedofilia e zoofilia’.

Artes

Beatriz nos conduz a uma viagem pelas obras expostas na ‘Queermuseu’.  Um dos quadros alvos da polêmica, ‘Cruzando Jesus Cristo com Deus Shiva’, de Fernando Barril, é datado de 1996 e, de acordo com a professora, propõe uma reflexão sobre o capitalismo. “As mãos de Cristo frutificam. Os outros braços são braços de bonecos, que não nascem do corpo de Cristo e sim são impostos por nossa civilização. Esses braços oferecem hot dogs, facas e luvas de boxe, pois em nome de Cristo se pratica a violência, o roubo e a imposição que é típica do capitalismo que se sustenta no consumismo. Os pés com tênis trazem um Cristo contemporâneo bem ao estilo pop”, conta.

As peças criadas pela artista Bia Leite destacam os carimbos que são  colocados quando uma criança se comporta diferente do esperado. “As obras foram inspiradas no site ‘Criança Viada’ e apresenta crianças muito bem vestidas. Em nenhum momento instiga a pedofilia. Muito pelo contrário: são quadros contra o bullying e a visão de que homem não chora, menina não joga bola e por ai vai”.

A professora afirma ainda que obras como os grandes painéis sobre os estupros são necessárias, pois retratam de forma fidedigna a realidade que vivemos. “O gozado é que as pessoas vão para capela sistina, se encantam e enchem a boca dizendo ‘eu estive lá’, mas na realidade não viram nada. A parede do fundo tem diversas cenas de sodomia e assassinatos naquele mundaréu de almas que se salvam e que se perdem. É uma pena que tenha se criado um Brasil divido em dois. Uma parte odeia a outra parte e isso só pode levar a um desastre. A polêmica com a exposição é só um pedaço disso”, finaliza.

Discussão

A arte sempre foi vista como a contemplação do belo. No entanto, o termo ‘belo’ vai mudando de acordo com o tempo e cabe também a arte discutir e debater diversos assuntos, opiniões e temas. “Não apenas o que é bonito esteticamente, mas o que conceitualmente pode passar algum valor”, aponta a professora Drika Lucena.

De acordo com ela, o significa de uma obra sempre será subjetivo e cada espectador entenderá e assimilará de uma maneira a mensagem que o artista tentou passar. “O certo e o errado na arte não existe, o que existe é a comunicação que vem através dela e aquilo que ela pode gerar. A arte não foi feita para ser rotulada e sim para aquela informação ser desconstruída. Tudo aquilo foi feito como uma crítica ao sistema atrasado em relação ao comportamento de gêneros e a criação é para gerar discussão”, afirma.

A visão é semelhante a da também professora e jornalista Vanessa Ratton. De acordo com ela, o caso da exposição ‘Queermuseu’ traz à tona a questão do moralismo que sempre rondou a arte. “Claro que uma exposição como esta deve ter classificação etária para o público. E tudo poderia ficar resolvido com isso e uma explicação óbvia de que o objetivo da exposição é discutir a aceitação da diversidade, e mais óbvio ainda que aqueles que não a aceitam iriam se sentir mal e criticar, um direito deles”, argumenta.

Para Drika, a discussão proporcionada é valida. “A polêmica é positiva, pois as pessoas puderam levar esses temas para dentro da sala de aula e para discussão entre os amigos, por exemplo. Toda situação sempre tem dois lados. A polêmica foi válida, mas o cancelamento é radical, pois vemos que a censura pode estar pairando e isso assusta,”, destaca.

Vanessa Ratton acredita que o cancelamento aconteceu, principalmente, em razão do fato de uma empresa privada ter visto em poucos dias seus clientes deixando o banco em função de não concordarem com a marca patrocinando uma obra tão polêmica. “Vem daí a atitude de cancelar a exposição, que talvez não traga os clientes de volta e talvez faça com que outros deixem o banco. Na verdade o Santander está numa crise de imagem e marketing, maior do que uma crise de polêmica artística”, afirma.

A visão é a mesma de Beatriz Rota-Rossi. “O banco tem que salvaguardar o lucro. A exposição era de tema adulto e não um playground. Os pais devem levar as crianças onde eles acham que elas estão preparadas para ir”, finaliza.

Em nota o Santander destacou que reconhece que, além de despertar a polêmica saudável e o debate sobre grandes questões do mundo atual, infelizmente a mostra foi considerada ofensiva por algumas pessoas e grupos. “Nós, do Santander, pedimos sinceras desculpas a todos aqueles que enxergaram o desrespeito a símbolos e crenças na exposição Queermuseu. Isso não faz parte de nossa visão de mundo, nem dos valores que pregamos” destacou, cancelando a mostra.

História da Arte

Desde a arte rupestre, inscrições nas cavernas mostram atos sexuais, inclusive entre pessoas do mesmo sexo. Inúmeras obras dos mais diversos segmentos retratam praticas sexuais também com animais. Na Roma antiga muitas pinturas mostram a relação da sexualidade com as pessoas. Goya, Picasso e Dalí colocaram em suas obras símbolos fálicos e inúmeras esculturas italianas têm no rosto traços de um momento do orgasmo. “No século XIX ‘L’Origine du monde’, de Courbet, por exemplo, retratou uma vagina. O quadro foi pintado em 1866 e hoje, no século XIX, estamos julgando se a arte é certa ou errada”, questiona Drika.

Veja abaixo alguns exemplos de representações artísticas que envolvem sexo e nudez ao longo da história.