Cotidiano
A presença do crustáceo representa riscos ecológicos significativos, segundo estudo científico publicado na revista Estuaries and Coasts, conduzido por pesquisadores brasileiros entre 2015 e 2025
O camarão invasor já foi registrado em 68 localidades, distribuídas em diferentes áreas protegidas, com maior concentração nas regiões Sudeste e Nordeste / Divulgação SEAG/ES
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Grande parte do litoral brasileiro enfrenta a invasão do camarão-gigante-da-malásia (Macrobrachium rosenbergii), espécie exótica que já foi registrada em ao menos 11 áreas protegidas do país. A presença do crustáceo representa riscos ecológicos significativos, segundo estudo científico publicado na revista Estuaries and Coasts, conduzido por pesquisadores brasileiros entre 2015 e 2025.
De acordo com a pesquisa, a distribuição da espécie está associada principalmente às regiões com maior atividade de criação de camarões, o que reforça a hipótese de que escapes de cultivos aquícolas sejam a principal via de introdução e dispersão do animal em ambientes naturais.
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O camarão invasor já foi registrado em 68 localidades, distribuídas em diferentes áreas protegidas, com maior concentração nas regiões Sudeste e Nordeste. No complexo estuarino de Cananéia, no litoral sul de São Paulo, o monitoramento participativo realizado com pescadores artesanais identificou a presença contínua da espécie desde 2015. A captura de fêmeas ovadas, tanto em Cananéia quanto em Iguape, forneceu a primeira evidência direta de reprodução local, indicando que o camarão não apenas sobrevive, mas também consegue se estabelecer no ambiente.
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Entre os principais riscos ecológicos e sanitários, o estudo aponta que o camarão-gigante-da-malásia pode competir agressivamente com espécies nativas por alimento e abrigo. Além disso, atua como potencial vetor de patógenos de alto impacto, capazes de afetar crustáceos como caranguejos, siris, camarões e lagostas, com impactos também sobre a atividade pesqueira.
Outro fator de preocupação é a elevada capacidade de adaptação da espécie, que apresenta grande tolerância a variações de salinidade e temperatura. Essa característica favorece sua dispersão e integração nas redes ecológicas nativas. A persistência no Complexo Lagunar de Cananeia-Iguape-Ilha Comprida chama ainda mais atenção por se tratar de uma das áreas estuarinas mais preservadas e biodiversas do Brasil.
O autor principal do estudo, o professor Edson Barbieri, destaca que a região de Cananéia integra a Reserva da Biosfera da Mata Atlântica, reconhecida pela UNESCO, além do Sítio Ramsar Lagamar, funcionando como um berçário essencial da biodiversidade costeira. Segundo ele, a invasão biológica em um ambiente de tamanha relevância ecológica ameaça a integridade dos ecossistemas, a estrutura das comunidades aquáticas e os objetivos de conservação de longo prazo.
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'As mudanças climáticas, com o aumento previsto da temperatura da água, podem ampliar ainda mais o habitat adequado para essa espécie invasora, exacerbando seus impactos', afirma Barbieri.
'A presença em áreas protegidas mostra que fronteiras legais não são barreiras para invasões biológicas, o que reforça a necessidade de vigilância permanente e políticas públicas efetivas', finaliza o pesquisador.
O artigo, intitulado “Occurrence of the Non-Native Species Macrobrachium rosenbergii (De Man, 1879) in Brazilian Protected Areas: Ecological Risks and the Urgency of Monitoring”, está disponível online na revista Estuaries and Coasts. A pesquisa contou com o apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).
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