Busto na praça, sangue nas mãos: Como um feminicida virou herói em ruas e prédios de SP

Político influente dá nome a escola, avenida e praça em Itapetininga, mas passado revela assassinato da própria filha às vésperas do casamento

Em 20 de janeiro de 1906, o então senador, advogado e figura influente da política estadual assassinou a própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos

Em 20 de janeiro de 1906, o então senador, advogado e figura influente da política estadual assassinou a própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos | José Ferraz de Almeida Júnior

Quem caminha pelo centro de Itapetininga, no interior de São Paulo, inevitavelmente se depara com o nome Peixoto Gomide. Presente na principal avenida da cidade, em uma praça com busto e em uma das escolas mais tradicionais do estado, a homenagem parece celebrar um personagem ilustre da política paulista.

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Mas por trás da memória oficial, há um episódio violento que atravessou mais de um século envolto em silêncio e reinterpretado por décadas como uma ‘tragédia familiar’.

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Crime chocou a elite paulista no início do século 20

Em 20 de janeiro de 1906, o então senador, advogado e figura influente da política estadual assassinou a própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos. Em seguida, cometeu suicídio.

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O crime ocorreu na residência da família, na capital paulista, a poucos dias do casamento da jovem — um fato que, à época, causou forte repercussão nos círculos sociais e políticos.

Registros históricos indicam que o caso foi rapidamente abafado por setores da elite, que trataram o episódio como um drama íntimo, evitando uma exposição mais profunda do ocorrido.

Amor proibido e segredo familiar

A motivação do crime estaria ligada à rejeição do noivado de Sophia com o poeta e promotor público Manuel Baptista Cepelos, natural de Itapetininga.

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Segundo documentos históricos e relatos reunidos por pesquisadores, o conflito ganhou contornos ainda mais dramáticos após a revelação de um possível segredo familiar.

Trechos do chamado “Diário Secreto”, de Humberto de Campos, publicado em 1954, apontam que a jovem teria confessado ao pai que já havia se entregado ao noivo, tentando forçar a aprovação do casamento.

A reação violenta de Gomide, no entanto, pode ter sido motivada por uma revelação ainda mais grave: a suspeita de que Cepelos seria seu filho ilegítimo, o que tornaria o casal meio-irmão.

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Dias após o crime, o próprio Cepelos também tirou a própria vida, ampliando o caráter trágico da história.

Jazigo da família Peixoto Gomide fica no Cemitério da Consolação, em São Paulo

De crime a ‘honra’: como a história foi recontada

Apesar da gravidade do caso, o prestígio político de Peixoto Gomide prevaleceu.

Apenas seis dias após o assassinato, autoridades de Itapetininga organizaram homenagens ao político, tratando-o como um cidadão ilustre. Anos depois, em 1922, durante as celebrações do Centenário da Independência, uma escola estadual recebeu oficialmente seu nome.

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Para especialistas, essa reverência revela muito sobre os valores sociais da época.

A cientista social Thais Maria Souto Vieira aponta que o episódio pode ser reinterpretado à luz dos conceitos atuais:

‘Hoje, esse caso pode ser entendido como um feminicídio. No início do século 20, porém, crimes desse tipo eram muitas vezes relativizados e enquadrados como ‘crimes de honra’, especialmente quando envolviam figuras de prestígio.’

O conceito de ‘crime de honra’, comum naquele período, frequentemente era utilizado para justificar violências cometidas por homens contra mulheres da própria família, com base em códigos morais patriarcais.

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Debate atual questiona homenagens

Mais de um século depois, a narrativa começa a mudar.

Em 2025, um projeto de lei apresentado na Câmara Municipal de São Paulo propôs a mudança do nome da tradicional Rua Peixoto Gomide para Rua Sophia Gomide — uma tentativa de reposicionar a memória histórica, valorizando a vítima em vez do agressor.

A proposta acompanha um movimento mais amplo no Brasil e no mundo que revisita monumentos, nomes de ruas e homenagens públicas ligadas a personagens controversos.

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Divulgação/Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Em Itapetininga, o tema também ganha força entre pesquisadores e moradores, que questionam a permanência de homenagens a figuras associadas a episódios violentos.

‘As novas correntes da historiografia trazem outro olhar sobre esses símbolos. A sociedade passa a questionar quem merece ser lembrado nos espaços públicos’, afirma Thais Vieira.

Memória em disputa

Enquanto o debate avança, o busto de Peixoto Gomide permanece na praça central de Itapetininga — um símbolo de como a memória histórica pode ser construída, preservada e, também, contestada ao longo do tempo.

O caso expõe não apenas um crime brutal, mas também a forma como a história oficial foi moldada por interesses sociais e políticos.

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Hoje, mais do que revisitar o passado, a discussão levanta uma questão contemporânea: quem deve ser homenageado — e por quê?