Cotidiano

Busto na praça, sangue nas mãos: Como um feminicida virou herói em ruas e prédios de SP

Político influente dá nome a escola, avenida e praça em Itapetininga, mas passado revela assassinato da própria filha às vésperas do casamento

Ana Clara Durazzo

Publicado em 21/03/2026 às 09:00

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Em 20 de janeiro de 1906, o então senador, advogado e figura influente da política estadual assassinou a própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos / José Ferraz de Almeida Júnior

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Quem caminha pelo centro de Itapetininga, no interior de São Paulo, inevitavelmente se depara com o nome Peixoto Gomide. Presente na principal avenida da cidade, em uma praça com busto e em uma das escolas mais tradicionais do estado, a homenagem parece celebrar um personagem ilustre da política paulista.

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Mas por trás da memória oficial, há um episódio violento que atravessou mais de um século envolto em silêncio e reinterpretado por décadas como uma 'tragédia familiar'.

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Crime chocou a elite paulista no início do século 20

Em 20 de janeiro de 1906, o então senador, advogado e figura influente da política estadual assassinou a própria filha, Sophia Gomide, de apenas 22 anos. Em seguida, cometeu suicídio.

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O crime ocorreu na residência da família, na capital paulista, a poucos dias do casamento da jovem — um fato que, à época, causou forte repercussão nos círculos sociais e políticos.

Registros históricos indicam que o caso foi rapidamente abafado por setores da elite, que trataram o episódio como um drama íntimo, evitando uma exposição mais profunda do ocorrido.

Amor proibido e segredo familiar

A motivação do crime estaria ligada à rejeição do noivado de Sophia com o poeta e promotor público Manuel Baptista Cepelos, natural de Itapetininga.

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Segundo documentos históricos e relatos reunidos por pesquisadores, o conflito ganhou contornos ainda mais dramáticos após a revelação de um possível segredo familiar.

Trechos do chamado “Diário Secreto”, de Humberto de Campos, publicado em 1954, apontam que a jovem teria confessado ao pai que já havia se entregado ao noivo, tentando forçar a aprovação do casamento.

A reação violenta de Gomide, no entanto, pode ter sido motivada por uma revelação ainda mais grave: a suspeita de que Cepelos seria seu filho ilegítimo, o que tornaria o casal meio-irmão.

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Dias após o crime, o próprio Cepelos também tirou a própria vida, ampliando o caráter trágico da história.

Jazigo da família Peixoto Gomide fica no Cemitério da Consolação, em São Paulo

De crime a 'honra': como a história foi recontada

Apesar da gravidade do caso, o prestígio político de Peixoto Gomide prevaleceu.

Apenas seis dias após o assassinato, autoridades de Itapetininga organizaram homenagens ao político, tratando-o como um cidadão ilustre. Anos depois, em 1922, durante as celebrações do Centenário da Independência, uma escola estadual recebeu oficialmente seu nome.

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Para especialistas, essa reverência revela muito sobre os valores sociais da época.

A cientista social Thais Maria Souto Vieira aponta que o episódio pode ser reinterpretado à luz dos conceitos atuais:

'Hoje, esse caso pode ser entendido como um feminicídio. No início do século 20, porém, crimes desse tipo eram muitas vezes relativizados e enquadrados como ‘crimes de honra’, especialmente quando envolviam figuras de prestígio.'

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O conceito de 'crime de honra', comum naquele período, frequentemente era utilizado para justificar violências cometidas por homens contra mulheres da própria família, com base em códigos morais patriarcais.

Debate atual questiona homenagens

Mais de um século depois, a narrativa começa a mudar.

Em 2025, um projeto de lei apresentado na Câmara Municipal de São Paulo propôs a mudança do nome da tradicional Rua Peixoto Gomide para Rua Sophia Gomide — uma tentativa de reposicionar a memória histórica, valorizando a vítima em vez do agressor.

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A proposta acompanha um movimento mais amplo no Brasil e no mundo que revisita monumentos, nomes de ruas e homenagens públicas ligadas a personagens controversos.

Divulgação/Secretaria da Educação do Estado de São Paulo

Em Itapetininga, o tema também ganha força entre pesquisadores e moradores, que questionam a permanência de homenagens a figuras associadas a episódios violentos.

'As novas correntes da historiografia trazem outro olhar sobre esses símbolos. A sociedade passa a questionar quem merece ser lembrado nos espaços públicos', afirma Thais Vieira.

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Memória em disputa

Enquanto o debate avança, o busto de Peixoto Gomide permanece na praça central de Itapetininga — um símbolo de como a memória histórica pode ser construída, preservada e, também, contestada ao longo do tempo.

O caso expõe não apenas um crime brutal, mas também a forma como a história oficial foi moldada por interesses sociais e políticos.

Hoje, mais do que revisitar o passado, a discussão levanta uma questão contemporânea: quem deve ser homenageado — e por quê?

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