Botânica santista dribla a crise com arranjos florais

Flores contra a monotoniados dias: essa foi a forma que Ana Paula encontrou de aliar profissão e veia artística

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23 ABR 2018Por Rafaella Martinez12h19
Rodrigo Montaldi/Diário do LitoralRodrigo Montaldi/Diário do LitoralFoto: A florista sobe todas as segundas a noite para a Ceagesp em uma verdadeira ‘gincana’ em busca das flores

No conto ‘Maneira de Amar’, Carlos Drummond de Andrade narra a história de um jardineiro que conversava com suas flores: contava coisas a uma cravina ou escutava o que lhe confiava um gerânio. Em um ateliê delicadamente decorado – que contrasta com o moderno prédio onde está inserido, na esquina das ruas Carvalho de Mendonça e Senador Feijó, em Santos – uma florista confidencia os sonhos para seus muitos vasos de urucum, dálias e repolhos ornamentais.

Ana Paula Savassi Coutinho é feita de flor: isso é inquestionável. É possível perceber seu florescer no esvoaçar das roupas que usa, como se fossem delicadas pétalas. Ou na forma sutil e ao mesmo tempo vigorosa com que monta seus arranjos – que lembram a resiliência das plantas que crescem enfrentando obstáculos – e na firmeza com que decidiu, em um período de crise econômica, acreditar na ternura da venda de arranjos florais.

Nascida em uma família de acadêmicos, mas apaixonada pela arte, a menina de São Carlos colocou a paixão pela dança de lado para se dedicar aos estudos: se formou bióloga e fez mestrado e doutorado sanduíche no exterior em Botânica.

Foi apenas depois do casamento, do nascimento do filho e da mudança para Santos que Ana Paula decidiu retornar para a arte. “Eu queria redescobrir quem eu era e resgatar quem eu tinha sido quando dançava. Voltei para dança aqui em Santos e pensei que meu caminho seria no paisagismo, mas o saco de terra ainda era muito pesado... faltava a leveza das flores na minha vida”, conta.

E foi durante as muitas idas à Companhia de Entrepostos e Armazéns Gerais de São Paulo (Ceagesp) para comprar os materiais de paisagismo que Ana passou a demorar um pouco na ala das flores. “Eu sentia uma energia tão linda. Um êxtase difícil de explicar. E então eu fui florindo. Pensei que esse era o carinho a seguir. Unindo a paixão pelo belo e também minha profissão como botânica que surgiu, após muita dedicação e preparação, a Feita de Flor”, conta.

Como ela mesma define, a empreitada é para quem gosta de flor, de folha, de fruto e de “matinhos”. Para quem está aberto a novas sensações e consegue ver beleza nas assimetrias e para aqueles que se perdem nos detalhes, que se deixam encantar... “Meus arranjos são a minha verdade, a minha sensibilidade, a transparência do sentir. Toda a energia vai para o arranjo, por isso é preciso estar bem para confeccionar um”, diz.

A rotina do trabalho funciona assim: a florista sobe todas as segundas a noite para a Ceagesp em uma verdadeira ‘gincana’ em busca das flores. Aqui, elabora os arranjos, cestas e demais obras para entregar de terça a sexta em lojas, consultórios e principalmente para pessoas comuns, que buscam no encanto e no perfume das flores um descanso para os dias atuais. “Acho bacana, pois vendo muito para pessoas que compram para si mesmas. Imagino que sem a crise talvez eu vivesse um momento mais tranquilo de vendas, mas o mercado permanece e as pessoas continuam comprando e acreditando nesse encantamento”.

Mas se engana quem pensa que trabalhar com as flores só tem aspectos positivos. “É um processo grande de estudo de formas e texturas, busca por referências, madrugadas acordadas comprando e depois a entrega, que ao meu ver é a parte mais bonita do meu trabalho. A entrega traz um brilho. No entanto, mais importante que o retorno monetário, eu preciso saber que espalho leveza pelo caminho...”, finaliza.


Propriedade das flores

“Cada flor é única e a natureza toda é energizada”, destaca Ana Paula. Entre as espécies diferentes que compõem seus buquês, se destacam a cúrcuma laranja, os antúrio safario e o zingiber.

Esqueça também os vasos caros: as flores são entregues em potes simples de vidro, sendo alguns deles decorados com poesias escritas pela tatuadora Nane Anders ou embalados no crochê colorido. Há também a possibilidade de fazer planos semanais ou quinzenais e receber buquês em casa, juntamente com instruções de como cuidar dos brotos para que a vida dê flor.