Balsas estão antigas e com motores precários; Doria quer conceder travessia

Elas recebem, respectivamente, média de 25 mil e 4.000 veículos diariamente

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17 JUN 2019Por Folhapress09h35
No final do último ano, só 17 de 68 motores foram avaliados como em bom estadoFoto: Divulgação/Dersa

Trinta e dois motores avaliados em situação crítica, dos quais 18 considerados condenados por "desgaste excessivo". Balsas fabricadas nas décadas de 1950 e de 1960 com marcas aparentes de ferrugem, corrosão e pintura descascada. Cinco balsas com atividades interrompidas por inspeção da Marinha.

O cenário resume as condições das embarcações que realizam as duas principais travessias de balsas no litoral de São Paulo, entre Santos e Guarujá, na parte sul, e São Sebastião e Ilhabela, ao norte. Elas recebem, respectivamente, média de 25 mil e 4.000 veículos diariamente.

"A situação das balsas está um caos. Nosso estaleiro virou uma UTI. Estamos correndo contra o tempo para salvar o que podemos", diz o secretário estadual de Logística e de Transportes de São Paulo, João Octaviano Machado Neto.

No final do último ano, só 17 de 68 motores foram avaliados como em bom estado. Alguns, de 1988, têm mais de 30 anos de fabricação.

"Podemos dizer que todo o trecho opera em sistema de emergência. Não temos embarcações reservas. A vida útil de um motor é por hora. Até 8.000 horas de uso, talvez 10 mil, podemos trabalhar. Haviam alguns com mais de 15 mil", afirma o diretor de operações da Dersa João Luiz Lopes.

A nova gestão da empresa pública controlada pelo governo estadual concluiu neste ano a compra de 30 novos motores e de peças sobressalentes. Foram pouco mais de R$ 10 milhões em investimentos e embarcações levadas prontamente ao estaleiro para reformas.

"Esperamos entre julho e agosto, com a liberação de três balsas em manutenção, melhorar o fluxo consideravelmente", diz Lopes.

Ao todo, a empresa conta com 34 embarcações e é responsável por oito travessias no estado, a principal delas entre Santos e Guarujá.

A empresa também realiza travessias entre Guarujá e Bertioga, Ilhabela e São Sebastião, Iguape e Juréia, Cananéia e continente, Cananéia e Ilha Comprida e Cananéia e Ariri, além da travessia por lanchas de passageiros entre Santos e Vicente de Carvalho.

A corrida contra o tempo é para conseguir funcionar com o limite máximo de balsas por travessia e evitar o cenário de filas quilométricas, motoristas nervosos aguardando e muito buzinaço.

Todas as balsas com problemas estão em circulação e tem sido retiradas gradativamente para substituição das peças. Só neste ano, o Procon de Guarujá multou a Dersa em R$ 810 mil pelo tempo excessivo de espera e a falta de informação a usuários do serviço.

Entre janeiro e junho, a Marinha inspecionou 44 balsas da Dersa; 15 delas foram notificadas por algum reparo ou pela ausência de materiais suficientes de salvatagem.

Atualmente, entre Santos e Guarujá, há cinco balsas em operação e duas em manutenção. Algumas já receberam motores novos e outras, motores recondicionados. Há embarcações que funcionam com dois motores; outras, maiores, com quatro.

Em janeiro, no estaleiro da empresa, até mesmo a carreira, trilhos utilizados para colocar as balsas em terra para manutenção, estava desativada.

A nova diretoria da Dersa, empossada em janeiro, diz que a empresa conta hoje com uma equipe de manutenção noturna para reparos no período de menor demanda. Há, também, mergulhadores contratados para visualizar situações emergenciais.

O governo João Doria (PSDB) já disse publicamente que a Dersa, empresa criada em 1969, seria extinta até o fim do ano e que a concessão das travessias seria transferida à iniciativa privada já no próximo ano.

"Não vamos investir além dos motores e peças, não há previsão para compra de novas balsas.

Trabalhamos para consolidar o modelo de privatização que, seguramente, trará novos rumos para a travessia", diz Machado Neto.

Em março, à Rádio Bandeirantes, Doria disse que, após a concessão, a travessia de balsas contará com um equipamento moderno e sistema eficiente, sem que isso se reflita em aumento da tarifa.

Procurada, a Dersa diz que ainda não há informações sobre o que mudará, na prática, para o bolso dos usuários com a privatização. Até o momento, a empresa não tem plano de aumento de tarifas. O último reajuste ocorreu em 1º de julho de 2018, em 2,85%.

O valor da travessia Santos-Guarujá é de R$ 12,30 para automóveis e caminhonetes; R$ 6,20 para motocicletas, motonetas, ciclomotores, carrinhos de sorvete e similares; R$ 24,70 para automóveis com reboque; R$ 43,30 para ônibus e caminhões com dois eixos; R$ 98,60 para ônibus e caminhões com três eixos; e R$ 123,40 para caminhões com reboque ou semi-reboque.

A frota mais recente de balsas já tem mais de seis anos, é de 2013. Em Ilhabela, a prefeitura afirmou que tem cobrado constantemente a Dersa por manutenção das embarcações e melhorias no sistema de embarque e desembarque. A cidade diz que formalizou ao Estado em 2018 a necessidade de melhorias na travessia, com a aquisição de novas balsas e a recuperação de atracadouros.

Em Santos e Guarujá, a aposta para aliviar o sistema estava em lei municipal, sancionada em abril em Guarujá, que limita em 20 minutos o tempo máximo de espera na fila da travessia. A medida, no entanto, tem sua constitucionalidade questionada.

Em Santos, lei similar foi vetada pelo prefeito após aprovação pela Câmara.

Balsas

Volume diário das principais travessias

Santos/Guarujá
16.500 Automóveis/caminhões
8.700 Motos
7.500 Bicicletas
110 Pedestres

São Sebastião-Ilhabela
3.500 Automóveis/caminhões
510 Motos
580 Bicicletas
5.000 Pedestres

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