Baleia-jubarte faz travessia histórica entre continentes e quebra recorde mundial

Segundo os pesquisadores, uma baleia fotografada no Banco de Abrolhos, no litoral da Bahia, em agosto de 2003, foi registrada novamente mais de duas décadas depois em Hervey Bay, na costa leste australiana

O estudo documenta, pela primeira vez, um intercâmbio bidirecional entre populações reprodutivas de baleias-jubarte do Atlântico Sul e do Pacífico Sul.

O estudo documenta, pela primeira vez, um intercâmbio bidirecional entre populações reprodutivas de baleias-jubarte do Atlântico Sul e do Pacífico Sul

Uma descoberta inédita deixou cientistas impressionados e revelou até onde uma baleia-jubarte é capaz de chegar. Um estudo publicado pela revista científica Royal Society Open Science documentou uma migração extrema entre o Brasil e a Austrália, considerada a maior já registrada para a espécie na história.

Segundo os pesquisadores, uma baleia fotografada no Banco de Abrolhos, no litoral da Bahia, em agosto de 2003, foi registrada novamente mais de duas décadas depois em Hervey Bay, na costa leste australiana.

A distância mínima percorrida em linha reta entre os dois pontos é de aproximadamente 15.100 quilômetros, uma marca impressionante que supera em cerca de 15% o recorde mundial anterior conhecido.

O estudo documenta, pela primeira vez, um intercâmbio bidirecional entre populações reprodutivas de baleias-jubarte do Atlântico Sul e do Pacífico Sul.

Até então, a comunidade científica acreditava que esses grupos permaneciam relativamente separados, retornando sempre às mesmas áreas de reprodução e alimentação ao longo da vida.

Para chegar a essa conclusão surpreendente, os cientistas analisaram mais de 19 mil imagens coletadas entre 1984 e 2025 no Brasil e na Austrália.

A identificação desse animal específico só foi possível graças à técnica de fotoidentificação, considerada uma das ferramentas mais importantes no monitoramento global de cetáceos.

A “impressão digital” dos gigantes dos mares

Cada baleia-jubarte possui padrões completamente únicos na parte inferior de sua cauda, conhecidos como pigmentações ventrais. Essas marcas funcionam como uma espécie de impressão digital natural, permitindo que os biólogos reconheçam indivíduos específicos mesmo após várias décadas.

Para otimizar esse trabalho, os pesquisadores cruzaram os registros utilizando a plataforma colaborativa Happywhale, um moderno sistema internacional que usa algoritmos de reconhecimento de imagem para comparar fotos de baleias ao redor do mundo.

O amplo levantamento encontrou apenas dois casos de travessias entre populações dos dois oceanos, o que representa cerca de meros 0,01% dos indivíduos analisados.

Segundo os cientistas, justamente por serem eventos extremamente raros, esses deslocamentos massivos ajudam a entender muito melhor como as baleias estão reagindo às rápidas mudanças ambientais globais.

O Impacto do clima nas rotas migratórias

Os pesquisadores apontam que uma série de fatores interligados pode estar favorecendo encontros inéditos entre grupos diferentes na Antártida, incluindo as mudanças climáticas atuais, as profundas alterações na distribuição do krill, que é o principal alimento das baleias, e o expressivo crescimento populacional da espécie após o fim da caça comercial.

Diante desse novo cenário, alguns indivíduos acabam explorando novas rotas migratórias, um comportamento considerado bastante incomum para animais historicamente conhecidos pela fidelidade aos mesmos caminhos ao longo de toda a vida.

Em condições normais, as baleias-jubarte realizam anualmente uma migração regular entre as áreas frias de alimentação próximas à Antártida e as regiões tropicais de reprodução, como o litoral brasileiro.

Durante essas longas viagens sazonais, elas podem percorrer milhares de quilômetros pelas costas continentais, mas raramente cruzam completamente a linha de separação de um oceano para o outro.

Litoral brasileiro como santuário de vida

O Banco de Abrolhos, localizado no sul da Bahia, destaca-se como uma das áreas mais importantes para a reprodução das baleias-jubarte em todo o Atlântico Sul.

Todos os anos, entre os meses de junho e novembro, milhares de animais chegam ao litoral brasileiro focados no acasalamento e no nascimento de seus filhotes.

Após quase serem completamente exterminadas pela caça predatória durante o século XX, as jubartes apresentaram uma forte e emocionante recuperação populacional nas últimas décadas, impulsionada diretamente pela proibição global da caça comercial.

Apesar dessa vitória da conservação, os especialistas alertam que a espécie ainda enfrenta sérias ameaças modernas cotidianas, destacando-se o preocupante aquecimento dos oceanos, os riscos reais de colisões com grandes embarcações, a poluição sonora subaquática e o perigo das redes de pesca à deriva.

Novo capítulo para a biologia marinha

Os pesquisadores afirmam de forma categórica que o registro dessa baleia destemida que atravessou oceanos prova que as conexões entre diferentes populações marinhas podem ser infinitamente maiores do que a ciência imaginava.

A descoberta joga luz sobre como os cetáceos estão respondendo fisicamente às transformações ambientais em escala global.

Para a comunidade científica, monitorar esses movimentos extremos será uma tarefa cada vez mais vital nos próximos anos, especialmente diante das inevitáveis alterações climáticas que já afetam a base dos ecossistemas marinhos.

O caso histórico da baleia que partiu da Bahia e reapareceu na Austrália entra, definitivamente, para os registros da ciência como uma das viagens mais impressionantes já documentadas no mundo animal.