Até 2025, Brasil pode ter quase 120 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço

Até o final do último século, os tumores de cabeça e pescoço eram mais comuns em homens, com mais de 50 anos, e tinham como causa principal o tabagismo e o consumo em excesso de álcool. Agora, têm aumentado a incidência em mulheres e jovens

Até 2025, o Brasil deve registrar quase 120 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço

Até 2025, o Brasil deve registrar quase 120 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço | Agência Brasil

Até 2025, o Brasil deve registrar quase 120 mil novos casos de câncer de cabeça e pescoço, conjunto de tumores que atingem a região da boca, faringe, laringe, cavidade nasal e outras mucosas da cabeça. Casos em jovens têm crescido e preocupado médicos.

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Até o final do último século, os tumores de cabeça e pescoço eram mais comuns em homens, com mais de 50 anos, e tinham como causa principal o tabagismo e o consumo em excesso de álcool. Agora, têm aumentado a incidência em mulheres e jovens, principalmente na faixa de 20 a 40 anos.

Se há 30 anos a proporção de diagnósticos de tumores de cabeça e pescoço era de oito homens para cada caso diagnosticado em mulheres, hoje esta proporção está em dois casos em homens para cada caso em mulher. 

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“E temos observado também muitos casos em jovens, com 20, 30 anos”, afirma Luiz Paulo Kowalski, professor titular de oncologia da FMUSP (Faculdade de Medicina da USP) e líder do Centro de Referência em Tumores de Cabeça e Pescoço do A.C. Camargo.

Para ele, isso se deve ao aumento do consumo de cigarro entre mulheres e, no caso dos mais jovens, já existem estudos associando a infecção por HPV (vírus do papiloma humano) com novos casos.

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O médico diz que o sexo oral desprotegido, além de baixa cobertura vacinal, são possíveis fatores que contribuem para esses casos, sobretudo de laringe e faringe. “Vários estudos recentes levaram à descoberta de muitos desses casos relacionados com a infecção por HPV, principalmente quando os tumores estão localizados na região da boca e base da língua.”

É o caso do policial militar Alexandre Viana, 39. Ele descobriu um carocinho em dezembro último e recebeu o diagnóstico em fevereiro deste ano. Sem ser fumante ou beber, o PM afirma que, depois de uma série de exames de sangue, os médicos suspeitam que seu tumor surgiu devido a uma infecção por HPV. “Sempre ouvi do HPV associado ao câncer de colo de útero em mulheres, mas agora está dando também em homens e pode causar esses tumores de cabeça e pescoço, foi o que os médicos me explicaram”, disse.

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Viana seguiu vários caminhos até chegar ao diagnóstico definitivo, muito porque existe também uma falta de médicos especializados em tumores de cabeça e pescoço. Após um primeiro contato médico que indicou a possibilidade de ser um tumor, ele procurou um hospital de referência em câncer de cabeça e pescoço em Brasília. O exame da biópsia e imuno-histoquímica (que determina qual o tipo de tumor) confirmou carcinoma (tumor) de orofaringe.

“Quando falávamos de prevenção de câncer de cabeça e pescoço há 30 anos, era evitar cigarro e beber, alimentar-se bem. Agora, são todos esses hábitos e a vacinação contra HPV, que, infelizmente, sabemos que não está indo tão bem, apesar de estar disponível na rede pública”, afirma o médico.

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No SUS, a vacina contra o HPV é ofertada para meninas de 9 a 14 anos e meninos de 11 a 14, mas as coberturas vacinais nos últimos anos seguem em queda. Em 2022, segundo dados divulgados pelo Ministério da Saúde, a cobertura de primeira dose em meninas estava em 75% e a de segunda, em 57%. Já em meninos é mais preocupante: 52% e 36%, respectivamente.

De acordo com estimativas do Inca (Instituto Nacional do Câncer), no triênio 2023 a 2025 são esperados 15,1 mil novos casos de câncer de boca, 16.660 casos de tireoide e 7.790 de laringe para cada ano. Tirando os melanomas (câncer de pele) e tumores cerebrais, o câncer de cabeça e pescoço é o principal tipo de tumor na região.

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Os cânceres de laringe e faringe representam cerca de 6% a 7% dos novos diagnósticos no país, e o de tireoide responde por mais 2% a 3%. “Isso faz com que a incidência de tumores de cabeça e pescoço na população seja em torno de 9%. Os outros tipos, de glândulas salivares, seios nasais e base do crânio, são mais raros”, diz Kowalski.

DIAGNÓSTICO PRECOCE

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Apesar de terem um bom prognóstico de cura, com tratamento já bem conhecido, a detecção no início é fundamental para conseguir eliminar totalmente o tumor, sem que sejam necessárias cirurgias de remoção completa da faringe e laringe. A terapia convencional combina a quimioterapia com cirurgia, se for um nódulo de fácil remoção e ainda em fase inicial, ou quimio e radioterapia, para casos mais avançados.

Um problema, lembra o médico, é que cerca de 70% a 80% dos casos só são diagnosticados já em estágio avançado. “Seja por falta de conhecimento dos médicos que fazem o primeiro atendimento, que não são especializados para reconhecer a lesão, seja pelos próprios pacientes que, sem saber, acreditam ser apenas uma afta ou alguma outra coisa de menor importância”, explica.

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Kowalski lembra que a pandemia da Covid causou ainda um atraso nos novos diagnósticos. “Muitas pessoas retardaram a procura por atendimento, e o que estamos vendo hoje é um grande número de pacientes com a doença já avançada e, em alguns casos, intratáveis.”

Isso porque a maioria dos tumores de boca e garganta não tem sintomas inicialmente. Em geral, as lesões que surgem no começo podem ser brancas ou vermelhas, não causam dor e não desaparecem após mais de duas semanas, no caso da boca, ou então os pacientes têm a sensação de algo preso na garganta, com um incômodo de algo arranhando ou presença de carocinhos.

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No caso do policial militar, o tratamento contou com oito sessões de quimioterapia três sozinhas e cinco em conjunto com a radioterapia— e 30 de radioterapia, completadas no último dia 20 de julho no A.C. Camargo. Ele voltou para casa, em Porto Velho, Rondônia, onde mora com a esposa e as duas filhas.

“Ainda preciso retornar para um último exame daqui a alguns meses, mas o PET-Scan [tipo de ressonância magnética] que fiz durante o tratamento mostrou uma remissão de praticamente 100%”, afirma.

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Apesar dos efeitos colaterais da quimioterapia, ele comemora não ter realizado cirurgia, cuja recuperação é mais demorada. “Tenho um pouco de dificuldade ainda de comer e durante o tratamento não sentia gosto, mas pelo menos não tive problemas com as cordas vocais.”

SINTOMAS DE CÂNCER
Laringe
– Roquidão
– Dificuldade para engolir alimentos ou sensação de algo preso na garganta
– Dor de garganta ou ouvido persistentes
– “Carocinho” no pescoço
– Tosse constante
– Dificuldade respiratória
– Perda de peso sem motivo
– Cavidade oral
– Lesão esbranquiçada na boca, parecida com uma afta, que não melhora
– Mancha vermelha persistente na boca, que pode sangrar
– Ferida na boca que não cicatriza após 15 dias
– Perda ou amolecimento de dentes
– Nódulo no pescoço
– Massa ou nódulo na língua, nas gengivas ou no rosto
– Dificuldade para mexer a língua, mastigar ou engolir alimentos
– Mau hálito constante
– Perda de peso inesperada