As imagens que não retratam os cartões postais de Santos

Documentário mostra a realidade de comunidades do município, entre elas o Dique da Vila Gilda

“Nunca vi cartão postal que se destaque uma favela”. A frase é da canção ‘Rap da Felicidade’, dos MCs Cidinho e Doca, mas resume o documentário elaborado pelo jornalista Junior Castro, de 24 anos, e o produtor audiovisual Gabriel Gomes, de 21 anos, de São Vicente. No filme, a dupla mostra a realidade de quatro comunidades de Santos, entre elas o Dique da Vila Gilda, maior favela em palafitas do Brasil. Na cidade de Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) considerado alto, quase 40 mil pessoas moram em aglomerados subnormais – áreas não regularizadas que contam com pouca ou quase nenhuma estrutura – segundo dados do Censo realizado pelo IBGE, em 2010. 

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“É uma produção independente, sem fins lucrativos. Conversamos com lideranças da Alemoa, Vila Gilda, Vila Sapo (Ponta da Praia) e Vila Progresso (Morro). Já imaginávamos que nessas comunidades o acesso a saúde, educação e transporte, por exemplo, seria precário. A gente se reuniu e sentiu a necessidade de mostrar a realidade de Santos sem maquiagem”, disse ­Junior Castro. 

Para produzir o documentário ‘Por Trás do Cartão Postal’, o jornalista disse que foi necessário reunir informações socioeconômicas de ­Santos. O filme mostra cenas das comunidades e relatos de suas ­lideranças. 

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“Falta tudo nesses locais. Na Alemoa, por exemplo, há um problema sério. No período de alta na exportação acaba a mobilidade urbana com o trânsito de caminhões. Os moradores ficam ­ilhados. Tem ­também a enchente. Uma cidade que tem o IDH alto, próximo ao da Noruega, mas que possui uma ­desigualdade ­enorme. Enquanto a ­média de renda dos moradores da orla da praia do ­Boqueirão é de R$ 4 mil, os da Vila ­Gilda é de R$ 400”, destacou Júnior. O IDH de ­Santos ocupa a 6º posição no ranking dos municípios ­brasileiros.

O jornalista também ressaltou os problemas sofridos pelos moradores da Vila Sapo, comunidade que fica entre os terminais do Porto de Santos e os grandes ­condomínios de luxo, na Ponta da Praia. “Há um processo de exclusão das pessoas que moram lá. A comunidade já existia antes da construção das torres”, afirmou. O documentário também aborda a situação dos moradores dos cortiços localizados na região central. 

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Cenas

Gabriel Gomes, produtor audiovisual, disse que a trilha sonora do documentário retrata o contexto social que existe nos grandes centros urbanos. “No início há um rap que fala de uma cidade ideal e depois outro que fala da ­realidade nua e crua. O olhar do documentário será o dos moradores da comunidade. A música fala da Santos bonita como é vista e a ­sequência vai ­mudando. Como disse um dos entrevistados, do túnel para lá as condições são melhores do que do túnel para lá”, ­destacou. 

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A ­dupla também já ­inscreveu ‘Por Trás do Cartão Postal’ no Curta Santos, o Festival de Cinema de Santos. 

Eleições

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O lançamento do documentário deve ocorrer em setembro. Questionados sobre a estreia do filme no período de eleições municipais, eles disseram que não foi proposital, mas pode ajudar em algumas ­reflexões. “Não somos ­ligados a partido nenhum e nem votamos em Santos. Pensamos em lançar antes, mas aconteceu de ficar pronto agora. E, neste período, as pessoas estão mais preocupadas em discutir os problemas e buscar informações para poder votar. Acho que o documentário acaba efervescendo as questões políticas e sociais”, destacou Júnior. 

O jornalista também ressaltou a necessidade de reforço nas políticas públicas. “Santos tem a maior favela em palafitas do País, milhares de famílias morando em condições precárias, mas não conta com uma Secretaria de Habitação para discutir e pensar esse problema. As pessoas acabam não enxergando a realidade de Santos não porque não querem, mas para proteger o seu núcleo, a sua família”, disse Júnior. 

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De acordo com o Censo Demográfico realizado pelo IBGE, em 2010, 38.159 pessoas  moram em assentamentos precários em Santos.