Cotidiano
Estudo do Instituto de QuÃmica da USP identifica 'coquetel' de agrotóxicos em Piracicaba com maior taxa de morte celular do que na capital paulista
Os dados revelam que a assinatura quÃmica do ar muda drasticamente conforme a atividade da região / Flickr/TLMELO
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Respirar o ar de Piracicaba, no interior paulista, pode ser mais prejudicial à saúde do que estar exposto à poluição da capital. É o que indica uma pesquisa do Instituto de QuÃmica da Universidade de São Paulo (USP), que detectou pesticidas associados ao risco de câncer em concentrações alarmantes na zona agrÃcola piracicabana.
O estudo, conduzido pela quÃmica Aleinnys Yera e pela professora Pérola Vasconcellos, utilizou amostradores de grande volume para coletar material particulado fino (PM 2,5) em três pontos estratégicos: a capital paulista (urbano), o polo de Capuava (industrial) e o câmpus da Esalq em Piracicaba (rural).
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Os dados revelam que a assinatura quÃmica do ar muda drasticamente conforme a atividade da região, mas o risco é onipresente. Confira as concentrações detectadas em cada localidade (em picogramas por metro cúbico - pg/m³):
Piracicaba (Zona Rural): Registrou o nÃvel mais alto de atrazina (163 pg/m³), composto usado no controle de pragas da cana-de-açúcar. Também apresentou 79 pg/m³ de malationa e 93 pg/m³ de permetrina.
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São Paulo (Zona Urbana): O pesticida mais abundante foi a permetrina (140 pg/m³), seguido por atrazina (93 pg/m³) e malationa (88 pg/m³).
Capuava (Zona Industrial): Apresentou nÃveis elevados de permetrina (108 pg/m³) e malationa (101 pg/m³), sem registro de atrazina na amostra coletada.
Além desses compostos, a pesquisa identificou em todos os locais a presença de heptacloro, um poluente persistente e carcinogênico que, apesar de banido há décadas, ainda resiste no ambiente e apresenta altos nÃveis de exposição diária para as populações.
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Para comprovar os danos, a USP seguiu um rigoroso protocolo cientÃfico detalhado nas etapas abaixo:
Coleta Especializada: Amostradores de grande volume sugaram o ar nos três pontos para separar as partÃculas finas inaláveis.
Extração QuÃmica: Utilização de solventes especÃficos para isolar os pesticidas aderidos aos filtros das amostras.
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Cálculo de Exposição: Uso de fórmulas matemáticas e softwares para determinar a concentração dos compostos e o risco real de doenças.
Testes In-Vitro: Exposição de células epiteliais de pulmão humano ao material coletado para verificar a toxicidade direta.
Os resultados mostraram que as amostras de Piracicaba foram as mais letais, causando a maior taxa de morte celular.Â
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Já a amostra da área industrial de Capuava provocou um estresse oxidativo superior, fator que pode originar doenças cardiovasculares e degenerativas.
Um dos pontos mais preocupantes ressaltados pela pesquisadora Aleinnys Yera é o chamado efeito sinérgico.Â
Segundo ela, a mistura de diferentes agrotóxicos no ar cria uma reação que torna a toxicidade muito mais potente do que quando os compostos estão isolados, o que eleva consideravelmente o risco para as pessoas expostas.
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A professora Pérola Vasconcellos complementa que o estudo prova que todos estamos respirando pesticidas, e que o impacto à saúde ocorre mesmo em concentrações muito baixas. Ela destaca que a contaminação é ecossistêmica, afetando não apenas o ar, mas também a água, os rios e o mar.
O governo de São Paulo afirma realizar monitoramento contÃnuo e fiscalização, tendo aplicado dezenas de autuações no último ano.Â
No entanto, representantes do setor industrial e agrÃcola, como a Aenda, reconhecem que a dispersão de agrotóxicos pelo ar ainda é pouco considerada nas regulações atuais por conta da escassez de estudos sobre o tema.Â
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A descoberta mostra que a poluição rural viaja pela atmosfera, desafiando a percepção comum de que o interior oferece sempre um ar mais puro.