Cotidiano

Ar do interior mais perigoso que o de SP? Pesquisa da USP revela risco invisível no campo

Estudo do Instituto de Química da USP identifica 'coquetel' de agrotóxicos em Piracicaba com maior taxa de morte celular do que na capital paulista

Luna Almeida

Publicado em 26/03/2026 às 22:28

Atualizado em 26/03/2026 às 23:07

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Os dados revelam que a assinatura química do ar muda drasticamente conforme a atividade da região / Flickr/TLMELO

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Respirar o ar de Piracicaba, no interior paulista, pode ser mais prejudicial à saúde do que estar exposto à poluição da capital. É o que indica uma pesquisa do Instituto de Química da Universidade de São Paulo (USP), que detectou pesticidas associados ao risco de câncer em concentrações alarmantes na zona agrícola piracicabana.

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O estudo, conduzido pela química Aleinnys Yera e pela professora Pérola Vasconcellos, utilizou amostradores de grande volume para coletar material particulado fino (PM 2,5) em três pontos estratégicos: a capital paulista (urbano), o polo de Capuava (industrial) e o câmpus da Esalq em Piracicaba (rural).

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O mapa da contaminação

Os dados revelam que a assinatura química do ar muda drasticamente conforme a atividade da região, mas o risco é onipresente. Confira as concentrações detectadas em cada localidade (em picogramas por metro cúbico - pg/m³):

Piracicaba (Zona Rural): Registrou o nível mais alto de atrazina (163 pg/m³), composto usado no controle de pragas da cana-de-açúcar. Também apresentou 79 pg/m³ de malationa e 93 pg/m³ de permetrina.

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São Paulo (Zona Urbana): O pesticida mais abundante foi a permetrina (140 pg/m³), seguido por atrazina (93 pg/m³) e malationa (88 pg/m³).

Capuava (Zona Industrial): Apresentou níveis elevados de permetrina (108 pg/m³) e malationa (101 pg/m³), sem registro de atrazina na amostra coletada.

Além desses compostos, a pesquisa identificou em todos os locais a presença de heptacloro, um poluente persistente e carcinogênico que, apesar de banido há décadas, ainda resiste no ambiente e apresenta altos níveis de exposição diária para as populações.

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Do ar para o pulmão: o caminho da pesquisa

Para comprovar os danos, a USP seguiu um rigoroso protocolo científico detalhado nas etapas abaixo:

Coleta Especializada: Amostradores de grande volume sugaram o ar nos três pontos para separar as partículas finas inaláveis.

Extração Química: Utilização de solventes específicos para isolar os pesticidas aderidos aos filtros das amostras.

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Cálculo de Exposição: Uso de fórmulas matemáticas e softwares para determinar a concentração dos compostos e o risco real de doenças.

Testes In-Vitro: Exposição de células epiteliais de pulmão humano ao material coletado para verificar a toxicidade direta.

Os resultados mostraram que as amostras de Piracicaba foram as mais letais, causando a maior taxa de morte celular. 

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Já a amostra da área industrial de Capuava provocou um estresse oxidativo superior, fator que pode originar doenças cardiovasculares e degenerativas.

Sinergia tóxica

Um dos pontos mais preocupantes ressaltados pela pesquisadora Aleinnys Yera é o chamado efeito sinérgico. 

Segundo ela, a mistura de diferentes agrotóxicos no ar cria uma reação que torna a toxicidade muito mais potente do que quando os compostos estão isolados, o que eleva consideravelmente o risco para as pessoas expostas.

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A professora Pérola Vasconcellos complementa que o estudo prova que todos estamos respirando pesticidas, e que o impacto à saúde ocorre mesmo em concentrações muito baixas. Ela destaca que a contaminação é ecossistêmica, afetando não apenas o ar, mas também a água, os rios e o mar.

O governo de São Paulo afirma realizar monitoramento contínuo e fiscalização, tendo aplicado dezenas de autuações no último ano. 

No entanto, representantes do setor industrial e agrícola, como a Aenda, reconhecem que a dispersão de agrotóxicos pelo ar ainda é pouco considerada nas regulações atuais por conta da escassez de estudos sobre o tema. 

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A descoberta mostra que a poluição rural viaja pela atmosfera, desafiando a percepção comum de que o interior oferece sempre um ar mais puro.

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