“Fugiu do nosso controle”. A frase da estudante Ingrid Ramos Chaves, de 16 anos, define o término da ocupação da Escola Estadual Cleóbulo Amazonas Duarte, em Santos. Ela e o colega Johni Guedes, de 17 anos, foram os últimos alunos a deixarem a unidade, na tarde de ontem (4). Em um dia, o prédio, que também abriga a Diretoria de Ensino da Região Santos, foi invadido duas vezes e virou alvo de vandalismo e furtos. O prejuízo estimado pela direção é de R$ 600 mil.
“Eles pularam o muro e entraram para furtar. Pessoas que não conhecemos e que queriam depredar. Adolescentes como nós. Assumo que perdemos o controle. O número de alunos que resistiram eram poucos no final e não conseguimos conter quem queria fazer o furto”, disse Ingrid. A última invasão ocorreu na madrugada de ontem. No domingo, um adolescente de 17 anos, ex-aluno da escola foi apreendido após ser reconhecido por uma funcionária da escola como integrante do grupo que furtava equipamentos.
Durante a ocupação, que durou 46 dias, Ingrid era uma espécie de porta-voz dos alunos. Nas vezes em que o Diário do Litoral esteve na unidade, nesse período, a jovem apresentou à Reportagem as deliberações das assembleias e as atividades que eram realizadas. “No começo da ocupação era tudo maravilhoso com atividades que nunca tivemos na escola. A gente teve uma experiência política e social que abriu o nosso conhecimento. Também reformamos parte da escola”, destacou a estudante.
Ingrid reconhece o término desastroso da ocupação. Questionada sobre possíveis responsabilidades que possam ser atribuídas à ela, uma vez que teve a imagem marcada no movimento, a jovem diz que está tranquila. “Não estou preocupada em me defender. Não fiz nada de errado. A gente queria sair antes, mas estávamos esperando as respostas das reivindicações e a posição também dos alunos do Azevedo Júnior (outra escola ocupada). Esses furtos deslegitimaram o movimento”, afirmou.
Johni, colega de Ingrid e que também atuou como uma espécie de porta-voz da ocupação na EE Cleóbulo Amazonas Duarte, também está desapontado com o desfecho da ocupação. “Aprendi muita coisa de política durante o movimento, com atividades que nunca pensei fazer. O negativo foi não ter conseguido segurar a invasão de pessoas estranhas”. O jovem destacou as intervenções que foram feitas no colégio como a pintura nas paredes e a reforma da quadra.
Sobre as responsabilidades que podem ser atribuídas a eles, o estudante disse: “Vai ficar a fama de que foi a gente que cometeu sem cometer. Podem até falar que a responsabilidade é nossa, mas a culpa não”.
Ingrid e Johni pretendem participar do Grêmio Estudantil da escola neste ano. Os dois também disseram que vão mobilizar os alunos para a realização de um mutirão. Um advogado voluntário orienta os alunos em relação à possíveis implicações jurídicas.
Ocupação
A ocupação da EE Cleóbulo Amazonas Duarte teve início no dia 19 de novembro e teve como motivação a proposta de reorganização escolar do Estado e que foi revogada no último dia 5 de dezembro pelo governador Geraldo Alckmin (PSDB), após a intensificação das manifestações. Na unidade, os estudantes também reivindicavam a saída da Diretoria Regional de Ensino, que ocupa metade do prédio, e o retorno dos 6º e 7º anos e do ensino noturno.
A EE Azevedo Júnior, na Vila Belmiro, em Santos, ainda permanece ocupada. Ontem, no final da tarde, o Diário do Litoral esteve na unidade. Os alunos disseram que estavam terminando a limpeza da escola e que deixariam o colégio hoje. A primeira escola a ser desocupada foi a EE Renê Rodrigues de Moraes, em Guarujá. O prédio foi liberado na véspera de Natal.
Prejuízos
Ontem, enquanto a Reportagem conversava com os alunos na EE Cleóbulo Amazonas Duarte, uma equipe da perícia da Polícia Civil estava no prédio. Um pouco antes, funcionários e a direção da escola inspecionaram as instalações. Segundo o diretor regional de ensino, João Bosco Arantes Braga Guimarães, o prejuízo estimado na unidade é de aproximadamente R$ 600 mil.
“Ontem (domingo) aqui era um cenário de horror. A hora que você subia a escada para chegar nas salas o cheiro de urina e de fezes era muito forte. O que eles não puderam rasgar e destruir e pisar. Muito documento foi destruído”, disse Guimarães. O furto dos equipamentos ocorreu no domingo.
A Diretoria de Ensino constatou o furto de monitores, notebooks, projetores multimídias, telefones novos e toneres de impressoras. Salas foram arrombadas, mobiliários quebrados e documentos destruídos. “A gente está calculando, e ainda não temos esse cálculo com precisão, mas por volta de 200 processos entre aposentadoria e de funcionários que iam pleitear a troca da licença prêmio por pecúnia (dinheiro) e de contagem de tempo foram destruídos. Isso tudo está perdido”.
Segundo o diretor, a Procuradoria Geral do Estado deve mover um processo contra os alunos. “A partir do momento que eles têm a posse do imóvel, eles assumem total responsabilidade”, afirmou.
Após a desocupação da última escola, a EE Azevedo Júnior, as unidades devem dar continuidade ao ano letivo de 2015. “Os diretores de escola estão organizando o calendário e devem dar continuidade, pois ano letivo de 2015 ainda não terminou. Provavelmente vai até o final de janeiro, e, em alguns casos, possivelmente invada o mês de fevereiro”.
O início do ano letivo corrente está previsto para o dia 15 de fevereiro na rede estadual de ensino.
