O contraste entre o enterro simbólico que atraiu multidões e o funeral real quase silencioso ajuda a explicar o paradoxo de sua trajetória / ImageFx
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A história de Mick Meany é uma das mais inusitadas já registradas no século 20. Em 1968, o irlandês chamou a atenção da imprensa internacional ao passar 61 dias enterrado vivo, em uma façanha planejada para quebrar o recorde mundial de resistência sob a terra. Décadas depois, quando morreu de fato, o contraste foi marcante: apenas um jornalista acompanhou seu funeral real
'Esta é a primeira vez que enterro alguém que já havia sido enterrado antes', disse o sacerdote responsável pela cerimônia, segundo relato de Mary Meany, filha de Mick, em seu livro You can’t eat roses, Mary!.
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Diferentemente de erros médicos que marcaram séculos anteriores, o primeiro 'enterro' de Meany foi um espetáculo anunciado, cuidadosamente organizado para atrair público e cobertura da mídia. O episódio foi noticiado não apenas no Reino Unido, mas também em países como Estados Unidos e Austrália.
Filho de um fazendeiro do condado de Tipperary, na Irlanda, Meany havia migrado para a Inglaterra no pós-guerra em busca de trabalho. Sonhava em ser boxeador profissional, mas uma lesão em um acidente na construção civil encerrou sua carreira esportiva. Anos depois, ao sobreviver a um soterramento em um túnel, teve a ideia que mudaria sua vida: bater o recorde de tempo enterrado vivo.
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Naquele período, desafios de resistência incomuns estavam em evidência, especialmente nos Estados Unidos. O recorde a ser superado era do americano Digger O’Dell, que havia passado 45 dias sob a terra. Meany decidiu ir além.
Sem formação acadêmica ou perspectivas de ascensão social, ele enxergava na façanha uma chance de entrar para o Guinness Book, ganhar dinheiro e retornar à Irlanda com recursos para construir uma casa. 'Eu não tinha futuro na vida real', declarou mais tarde. 'Por isso, quis ficar embaixo da terra e demonstrar o meu valor'
Em 21 de fevereiro de 1968, em Kilburn, bairro do norte de Londres conhecido por abrigar imigrantes irlandeses, Meany realizou uma 'última ceia' em um pub local diante da imprensa. Vestindo pijama azul, entrou em um caixão feito sob medida, levando um crucifixo e um rosário.
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'Faço isso por minha esposa e minha filha, e pela honra e glória da Irlanda', disse antes de a tampa ser fechada.
O caixão foi enterrado a 2,5 metros de profundidade, com dois tubos de ferro garantindo a respiração. Por eles, Meany recebia comida, jornais e livros. Um telefone o conectava ao exterior, e curiosos pagavam para falar com ele. Celebridades chegaram a visitar o local durante o período do sepultamento.
Após 61 dias, em 22 de abril de 1968, o caixão foi desenterrado em meio a uma multidão. Barba crescida e óculos escuros, Meany saiu sorrindo e declarou-se campeão mundial. Exames médicos indicaram que ele estava em boas condições de saúde.
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Apesar do feito, a fama foi passageira. O Guinness Book não reconheceu oficialmente o recorde por falta de fiscais no local. Meses depois, uma ex-monja britânica, Emma Smith, superou a marca ao ficar 101 dias enterrada viva. A prometida fortuna nunca veio, e Meany retornou à Irlanda sem dinheiro
Mick Meany morreu em 2003, longe dos holofotes que um dia buscou. Sua história voltou ao debate público apenas recentemente, com o documentário Buried Alive / Beo Faoin bhFód, exibido em festivais de cinema.
O contraste entre o enterro simbólico que atraiu multidões e o funeral real quase silencioso ajuda a explicar o paradoxo de sua trajetória: um homem que desafiou a morte em busca de reconhecimento, mas que só voltou a ser lembrado décadas depois.
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