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Após acidente com 60 crianças, Base Aérea suspende treinamento com gás lacrimogênio

Alunos da Escola Estadual Marechal do Ar Eduardo Gomes passaram mal ao respirar gás lacrimogênio ontem, obrigando a unidade a interromper as aulas

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23 MAI 2019Por Carlos Ratton18h14
Escola teve que ser evacuada, 60 crianças atingidas e a Diretoria de Ensino suspendeu as aulasFoto: Reprodução/Google Maps

O Comando da Aeronáutica informou hoje (23) que, a partir da agora, estão suspensos todos os treinamentos envolvendo dispositivos de efeito moral, nas dependências da Base Aérea de Santos, localizada no Distrito de Vicente de Carvalho, em Guarujá. A decisão é em função do acidente envolvendo 60 crianças da Escola Estadual de Primeiro e Segundo Grau Marechal do Ar Eduardo Gomes, localizada na Avenida Castelo Branco, 42, ao lado da entrada da Base que, na tarde da última quarta-feira, passaram mal ao respirar gás lacrimogênio ontem, por volta das 15h30, obrigando a unidade a interromper as aulas.

A Secretaria de Saúde de Guarujá informou que sete alunos da unidade estadual deram entrada no Pronto Socorro de Vicente de Carvalho com quadro clínico estável, fizeram inalação e, por precaução, ficaram em observação na Unidade até a manhã de hoje, quando receberam alta médica.

Tudo ocorreu por conta de uma treinamento realizado pela Polícia Militar do Estado de São Paulo (PM-SP), dentro daquela unidade militar. O gás se expandiu por quatro salas com alunos da 6ª série do Ensino Fundamental - crianças com média de 11 anos. Os menores sentiram dor nos olhos, ardência em locais úmidos do corpo e náuseas. A Direção da escola comunicou a Diretoria de Ensino Região Santos que chegou a acionar o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (SAMU). As aulas do período noturno foram suspensas na quarta-feira. Todo o conteúdo pedagógico será reposto.

A Polícia Militar confirmou que realizou instrução de Controle de Distúrbios Civis - CDC para ações em que haja a necessidade de restaurar a ordem pública em tumulto de pessoas, com a utilização de gás lacrimogêneo, supervisionado por instrutores capacitados. No entanto, devido alteração de fatores climáticos, o gás ultrapassou a área da base militar e, imediatamente, a instrução foi interrompida. A PM também resolveu suspender treinamentos iguais no local, mas não revelou se pretende abrir investigação e apurar responsabilidades sobre o ocorrido.

Gás lacrimogêneo causa, de imediato, lacrimação, dor e até mesmo cegueira temporária. Além disso, pode causar quadros graves de alergia respiratória podendo levar à morte. Seu uso tem sido contestado por especialistas e grupos defensores de direitos humanos, que também apontam a relação próxima entre algumas indústrias coligadas com as forças armadas e de segurança dos governos, que permitem a generalização do uso do gás como arma preferencial na repressão aos movimentos de rua desde os anos 60.

Classificado como arma química, o seu uso foi banido pela Convenção de Armas Químicas de 1993, considerando-se a letalidade do gás quando em alta concentração. Mesmo assim, o uso é costumeiro para a manutenção da ordem interna pelas polícias de muitos países, sobretudo para conter ou reprimir manifestações de massa.

Os primeiros estudos clínicos concluíram que o gás lacrimogênio causava irritação e mal-estar mas, em concentração controlada, seria incapaz de deixar marcas ou causar óbitos. Por essa razão, foi classificado como arma não letal. Porém, é consideravelmente perigoso para crianças, mulheres grávidas e indivíduos epilépticos ou portadores de problemas respiratórios.

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