Parece que a mesma truculência aplicada aos artistas da Trupe Olho da Rua pela Polícia Militar (PM) também está atingindo outras categorias. O advogado Felipe Viccari Camara vai ingressar com uma ação civil contra um policial que, às 1h40, de 15 de outubro último, o teria agredido verbal e fisicamente na esquina da Rua Enguaguaçú com a Jurubatuba. O caso está sendo acompanhado pela Subseção Santos da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB).
Segundo Viccari, o policial teria cometido abuso de autoridade e também calúnia por lhe imputar uma embriaguez na direção que não foi confirmada por laudo pericial do Instituto Médico Legal (IML), a qual o advogado foi submetido às 5h45.
Mesmo se identificando como advogado após a abordagem violenta, Felipe Viccari passou horas na Delegacia de Polícia, local onde foi registrado o boletim de ocorrência que, segundo a vítima, foi mentiroso e sem ouvir uma testemunha importante, o primo da esposa de Viccari, que estava com ele na ocasião dos fatos.
Após jantar
Conforme relata, após jantar com a família, Vaccari resolveu comprar cigarros acompanhado do familiar. A dupla saiu de motocicleta em direção a um posto de combustíveis e foi abordada por uma viatura da PM com dois policiais que pararam o veículo e ordenaram que Viccari e o acompanhante colocassem as mãos na cabeça.
Assustado com a atitude, o advogado resolveu tirar o capacete quando ouviu do policial a seguinte: “você é surdo seu c…zão? Eu não mandei colocar a mão na cabeça? Por que você tirou o capacete? Coloca as mãos na parede”.
Viccari obedeceu a ordem e o policial abriu suas pernas com chutes nos calcanhares.
“Ele começou a me agredir com o antebraço na virilha e partes íntimas, além de continuar me xingando de lixo e outros palavrões. Ele mandou eu me virar e começou a puxar o zíper de meu casaco com força. Quando eu falei que ele estava passando dos limites e que eu conhecia o que era abuso de autoridade até por ser advogado, ele partiu para cima de mim e apertou meu pescoço. Eu tirei a mão dele, que acabou sendo seguro pelo outro policial, que evitou mais agressões”, lembra o advogado, alertando que outros policiais chegaram.
Felipe Viccari disse que, além das agressões, foi acusado injustamente pelo policial que disse que o advogado estava com bafo de cerveja.
“Eu bebi, mas era a sem álcool. Quando ele me ameaçou de levar à Delegacia, exigi o teste do bafômetro o que não ocorreu. Ele chegou a me dizer que seria a minha palavra contra a dele e que, no caso, ele estava do lado da lei. Fui levado ao Distrito e, no IML, foi constatado o que eu não ingeri álcool. Fiz até exame psicotécnico que apontou que eu estava em minhas condições físicas e psicológicas perfeitas”, finaliza, alertando que não denunciou antes por medo de represálias.
Comparação
A advogado de Viccari, Hemilton Carlos Costa, acredita que a atitude da polícia foi arbitrária, sem respaldo jurídico e semelhante ao que ocorreu no dia 30 de outubro com os artistas, na Praça dos Andradas, quando o diretor e ator Caio Martinez foi algemado e conduzido à delegacia, após a peça Blitz – O império que nunca dorme ser interrompida bruscamente por 10 policiais armados.
Costa salienta que seu cliente ligou várias vezes para a OAB, que possui serviço de assistência ao advogado, mas não obteve retorno. O órgão teria tomado ciência do ocorrido por intermédio das redes sociais.
“Mas a principal questão não é a falta de assistência, mas sim, que um artista foi preso em praça pública sem autorização judicial e, agora, tomo conhecimento de um colega (advogado) sendo agredido. O laudo apontou ferimento no pescoço dele. Amanhã, serão jornalistas, médicos e outros trabalhadores. A Polícia deve servir e não agredir. A sociedade não sabe se fica com medo da polícia ou dos bandidos”, afirma Costa.
Para Hemilton Costa, a população não deve ter medo de denunciar os maus policiais. “Houve abuso de autoridade, agressão e calúnia. Esse policial deve ser afastado e passar por exames psicológicos para ver se tem condições de atender os cidadãos. Não justifica o que houve com os artistas e nem o que ocorreu com o Felipe Viccari. Espero que o Governo do Estado e a OAB Santos façam suas partes e não deixem isso impune”, finaliza.
OAB
O presidente da OAB Santos, Luiz Fernando Afonso Rodrigues, disse em nota que está preocupado com os direitos e garantias fundamentais dos cidadãos no seu livre direito de ir e vir e na presunção de inocência, sendo inadmissível a postura truculenta da PM, “que deve se pautar pelo respeito ao cidadão”.
Luiz Fernando Rodrigues confirmou que a OAB tomou ciência do caso pelas redes sociais e que determinou o acompanhamento do caso para que sejam tomadas as medidas administrativas e judiciais.
O Comando da PM do Litoral (CPI-6) informa que está à disposição do advogado para formalização de queixa, possibilitando a correta apuração dos fatos.
