Anchieta hoje: a luta agora é por moradia

Cerca de 240 pessoas ocupam o espaço há mais de 20 anos e aguardam o julgamento de um processo de usucapião do antigo hospital

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22 MAI 2017Por Rafaella Martinez11h00
O mestre de obras João de Souza mostra a pequena abertura na porta da antiga solitária onde mora há dez anosO mestre de obras João de Souza mostra a pequena abertura na porta da antiga solitária onde mora há dez anosFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Quando criança, Marita Branco tinha medo de passar pela calçada da Rua São Paulo, na altura do Hospital Beneficência Portuguesa. Os gritos dos internos da então Casa de Saúde Anchieta preenchiam a noite e entravam madrugada adentro para horror dos vizinhos, que se questionavam o que acontecia dentro dos muros altos e cercados da ‘Casa dos Horrores’. Trinta anos depois, Marita divide uma das antigas celas do hospital psiquiátrico com o marido: ela é uma das 240 pessoas que ocupam o espaço onde outrora foram depositados seres humanos ­excluídos.

Ainda de pé e com a maior parte da estrutura física preservada, o antigo prédio segue como um dos símbolos das questões sociais de Santos. Os moradores afirmam que uma empresa comprou o prédio de uma ex-funcionária do hospital, que havia ganhado o terreno em uma causa trabalhista. Antes disso, em 2010, o imóvel já havia sido leiloado, mas devido a um processo de usucapião (um modo de aquisição da propriedade que se dá pela posse prolongada da coisa, de acordo com os requisitos legais), movido pelas famílias que ocupam o terreno e que ainda não foi julgado, a aquisição não pôde ser concluída.

Notificadas no dia 10 de março deste ano por um oficial de justiça, as famílias foram informadas que deveriam desocupar o espaço. Uma liminar obtida pelo advogado Alexandre Pecoraro, no entanto, suspendeu a ordem de desocupação e o processo ainda corre na ­Justiça.

A Prefeitura de Santos alega que o imóvel é uma área particular, cuja ocupação é de responsabilidade de seus proprietários. A vereadora Telma de Souza, que acompanha de perto a situação, pensa diferente.

“Quando temos uma situação que ultrapassa o limite entre o público e o privado, a Administração deve sim intervir, principalmente pelo fato de que uma possível desocupação certamente irá gerar um grave ­problema social”, afirma.

“Passamos por muitas lutas aqui nesse espaço. Já caímos nas mãos de aproveitadores e não desistimos. Estamos buscando na Justiça o usucapião, pois temos aqui famílias que moram há mais de 20 anos no Anchieta e não têm condições de sair, principalmente porque não estão inseridas em outros programas de habitação”, afirma Patrícia Maria da Silva, moradora do local há uma década.

Sentada em um dos antigos pátios de recreação do hospital - instalado ao lado de um dos chiqueirinhos e onde funciona hoje uma espécie de ‘área de convivência’, composta inclusive por uma pequena biblioteca comunitária para crianças - Patrícia conta que para além da questão de moradia, busca também meios para o ­aperfeiçoamento dos moradores atuais do ­Anchieta.

“Estamos trabalhando em um projeto social para crianças e mulheres e também queremos fazer com que os adultos analfabetos voltem a estudar. Pensamos como uma comunidade e é como comunidade também que queremos avançar”, afirma Marcos Teixeira.

É ele quem nos acompanha, ao lado de Janilma Santos, em uma visita pelo local. Cada cela que anteriormente abrigava um grupo de internos foi transformada em quartos. Os moradores, na maior parte dos casos, compartilham das mesmas instalações sanitárias, área de serviços e refeitórios, como nos cortiços.

Em um dos muitos corredores do espaço encontramos João Alves de Souza. Na quarto mofado e repleto de goteiras, ele mantém pendurado, com muito orgulho, seus três diplomas: o de eletricista, o de técnico em edificações e o de mestre de obras. Sem emprego, ele mora há 10 anos em uma das solitárias da antiga casa dos horrores. Para encontrar trabalho, João juntou uma pequena quantia financeira e mandou fazer alguns cartões onde oferece seu trabalho braçal, mesmo beirando os 70 anos de vida. Tem pouquíssimas coisas: algumas se desfez para fazer dinheiro; outras, pela precariedade de onde vive, não faz questão de ter. Mas não se separa do seu violão e de uma pasta onde guarda como ouro dez folhas de papel nas quais escreveu, com sua letra caprichosa, algumas músicas autorais.

“Preciso ir para São Paulo para registrar antes de divulgar as coisas que escrevo. Eu falo sobre amor e sobre a dor também. Mais sobre a dor ultimamente, pois a gente coloca para fora o que pesa aqui dentro”, conta, deixando cair uma lágrima por detrás dos óculos.

A ala dos eletrochoques

Marita se junta ao grupo que visita todas as dependências do Anchieta. Ao chegar no prédio vizinho à rua Monsenhor de Paula Rodrigues, onde possivelmente aconteciam os eletrochoques, não consegue esconder o nervosismo. “Esse era o pior lugar. Não tenho medo de onde moro, mas tenho pavor desse prédio”.

Crianças corriam livremente pelo espaço, algumas delas retornando da escola. Os moradores estimam que 70 crianças vivam no Anchieta. Após denúncias do Diário do Litoral, a Prefeitura de Santos começa a pensar em políticas públicas aplicadas ao desenvolvimento dessas crianças.