A frase soa como um banho de água fria nos românticos incuráveis: “Amar é dar o que não se tem a alguém que não o quer”. Dita pelo psicanalista francês Jacques Lacan, essa máxima parece, à primeira vista, a definição perfeita de um fracasso amoroso. No entanto, ela é uma das chaves mais profundas para entender a essência dos relacionamentos humanos.
Mas o que acontece quando aplicamos essa psicanálise densa à nossa realidade de Tinder, ghosting e trocas rápidas de parceiros? É aqui que a teoria de Lacan colide frontalmente com a genialidade do sociólogo Zygmunt Bauman e o seu famoso conceito de amor líquido. Juntos, eles explicam perfeitamente por que estamos cada vez mais conectados, porém mais solitários do que nunca.
O que Lacan quis dizer com “dar o que não se tem”?
Na psicanálise lacaniana, o ser humano é estruturalmente marcado pela “falta”. Nós nunca nos sentimos totalmente completos. Amar, para Lacan, é justamente ter a coragem de expor essa falta. É retirar as máscaras de autossuficiência e oferecer a sua vulnerabilidade para o outro. Você entrega a sua imperfeição (o que você não tem).
E por que entregamos a “alguém que não o quer”? Porque o parceiro idealizado geralmente não quer a nossa bagunça emocional. No fundo, buscamos no outro um deus grego ou uma deusa perfeita que venha preencher o nosso vazio. Quando a fase da paixão cega passa e o outro revela que também é falho e cheio de faltas, a ilusão quebra. O amor real só começa quando suportamos a imperfeição mútua.
A conexão com o Amor Líquido de Bauman
É exatamente neste ponto de quebra de ilusão que entra Zygmunt Bauman. O sociólogo polonês definiu a nossa era como a “modernidade líquida”, onde nada é feito para durar, e os relacionamentos se tornaram bens de consumo.
Na era do amor líquido, nós fomos treinados pelo capitalismo a tratar pessoas como tratamos smartphones: se o aparelho apresenta um defeito ou exige muito esforço para ser consertado, nós simplesmente o descartamos e compramos um modelo mais novo. Os laços humanos tornaram-se frágeis, frouxos e fáceis de desatar.
O choque: Por que fugimos da vulnerabilidade?
Quando cruzamos as duas teorias, o diagnóstico da nossa geração fica claro. O amor líquido e Lacan nos mostram que a sociedade moderna apavora-se diante da vulnerabilidade.
Na era dos aplicativos de namoro, nós queremos apenas a parte boa do relacionamento: a companhia, o status, o prazer e as fotos bonitas para o Instagram. Ou seja, queremos consumir a “completude”. Assim que o parceiro exige comprometimento real ou expõe a sua “falta” lacaniana (suas inseguranças e defeitos), a resposta moderna é o descarte imediato. O outro não quer lidar com o que não temos.
Como sobreviver aos amores descartáveis?
Para fugir dessa lógica consumista e construir um afeto real, a saída é aceitar a premissa de Lacan sem o medo diagnosticado por Bauman.
Entenda que o seu parceiro não é uma mercadoria na prateleira projetada para te fazer feliz em tempo integral. Ele é um sujeito com as próprias angústias. Um relacionamento sólido nos dias de hoje é um ato de rebeldia: é a decisão consciente de não descartar alguém na primeira frustração, acolhendo as “faltas” de forma mútua e madura.
