Aluna com deficiência visual estuda com maquetes criadas por colegas

Zaine Lafaiete não consegue enxergar as células no microscópio, mas aprendeu sobre elas utilizando o tato

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20 AGO 2019Por Thaís Moraes07h30
Quando criança, as escolas recusavam Zaine como alunaFoto: Nair Bueno/DL

"Minha vida escolar foi bem difícil. Eu comecei a estudar só com sete anos, porque fui rejeitada em várias escolas. Eles não aceitavam que eu estudasse, pois não sabiam lidar com um deficiente visual".

A fala é da estudante Zaine Lafaiete, nascida em 1995, sete anos após a Constituição Federal de 1988 garantir, no artigo 205, que a educação é direito de todos e dever do Estado e da família. A lei suprema brasileira, no artigo 208, também diz que a pessoa com deficiência deve ter atendimento educacional especializado, preferencialmente na rede regular de ensino.

A jovem, de 24 anos, nasceu com retinose pigmentar, doença ocular rara, hereditária e degenerativa que causa perda de visão. No ano 2000, Zaine, seus pais e irmão vieram de Penedo, no estado de Alagoas, para Santos a fim de descobrir o que causava a deficiência. Durante muito tempo, ela passou por especialistas que não souberam explicar o que ela tinha e o diagnóstico foi dado há apenas três anos.

Mas, se as primeiras experiências com a escola não foram boas, no semestre inaugural do curso de Fisioterapia da Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) Zaine encontrou uma professora que mudou a forma de ensinar para que ela aprendesse ao máximo. "A Zaine foi minha primeira aluna com deficiência visual. Meu receio era dar atenção demais para ela e de menos para os outros alunos", conta a dentista e professora há 30 anos, Vania Loureiro.

O grande desafio de Vania foi a disciplina que ela ensina: histologia, que é o estudo das células que formam os tecidos do corpo humano. Além das aulas teóricas, há também as práticas, nas quais os alunos precisam ver as células nos microscópios.

"Após estudar bastante, decidi utilizar a metodologia ativa. A turma foi dividida em grupos que receberam temas diferentes. Durante o semestre, cada grupo teve que preparar uma aula, mesmo não conhecendo o assunto, e fazer maquetes. Depois, enquanto eu explicava a matéria, os alunos manipulavam os trabalhos", diz a professora.

A metodologia ativa tem como característica colocar o aluno como principal responsável pela sua aprendizagem. Para construírem a maquete sensorial ou 3D, os estudantes tiveram que estudar bastante e usar a criatividade.

Neurônios, células adiposas, mastócitos, fibrócitos, hemácias, leucócitos, macrófagos, osteoblastos, células epiteliais e tantas outras puderam ser representadas por materiais do cotidiano como isopor, tinta, massinha, palito de churrasco, elástico, pratos de plástico e até slime.

"As maquetes deram trabalho, mas foi muito gratificante pelo fato da Zaine conseguir tocar e sentir tudo o que estávamos vendo. Creio que ajudou todo mundo. Particularmente, acho bem difícil ver as lâminas no microscópio", conta Victória Thomaz, aluna do 1º semestre do curso de Enfermagem, que frequenta as aulas juntamente com os estudantes de Fisioterapia e Nutrição.

A professora reconhece que a disciplina é difícil. "É uma área que exige muita dedicação e com o 3D fica muito mais fácil para os alunos associarem com a teoria. Acho que o mais bacana é mostrar que nós, da área da saúde, temos que cuidar do outro, independentemente da condição."

Zaine, que tem apenas 10% da visão, diz que na vida escolar basicamente aprendeu tudo pela audição, apesar de saber ler e escrever também em braile, que aprendeu no Lar das Moças Cegas. Com a tecnologia, a rotina de estudos hoje é mais fácil. Os professores enviam o conteúdo das aulas e as provas por e-mail, o celular lê os textos por meio de um programa e Zaine digita as respostas no celular.

A futura fisioterapeuta, que trabalha como telefonista na Unimes e é também atleta de goalball pelo Lar das Moças Cegas, não esperava tanta dedicação dos colegas. "Quando entrei na faculdade, fiquei receosa se eu seria aceita pela turma. Foi muito bom ter encontrado pessoas que me ajudam e uma professora que se preocupa com minha deficiência. Posso dizer que não é fácil, mas viver isso é melhor do que eu esperava".

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