Cotidiano
Por se tratar de uma ocorrência recente, o registro é considerado mais um caso preocupante de espécie exótica invadindo o Atlântico Sul
A donzela-real é um pequeno peixe recifal que pode atingir até 10 centímetros de comprimento / missjosiela / iNaturalist
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Uma espécie de peixe invasor originária da Ásia foi registrada no litoral brasileiro e tem gerado preocupação entre especialistas. A donzela-real (Neopomacentrus cyanomos) já foi confirmada no litoral paulista, em ilhas costeiras como a Ilha da Queimada Grande, o Parque Estadual Marinho da Laje de Santos e a Estação Ecológica Tupinambás, localizadas no Arquipélago de Alcatrazes.
No Brasil, a espécie foi documentada pela primeira vez em 2023. Por se tratar de uma ocorrência recente, o registro é considerado mais um caso preocupante de espécie exótica invadindo o Atlântico Sul, com potenciais impactos ambientais ainda em fase de avaliação.
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Ainda não há confirmação sobre como a espécie chegou ao país. Uma das principais hipóteses é o descarte de água de lastro por navios. Esse tipo de água é armazenado em tanques internos das embarcações para garantir estabilidade, equilíbrio e segurança operacional, especialmente quando estão com pouca carga. O descarte costuma ocorrer nos portos de destino, o que pode resultar na transferência de microrganismos e espécies exóticas para o ambiente local, provocando desequilíbrios biológicos e riscos sanitários.
Outra possibilidade considerada pelos cientistas é a associação da chegada da donzela-real ao transporte de plataformas de petróleo, fenômeno já documentado no Golfo do México e no Caribe. Essas estruturas podem transportar organismos bentônicos, massas de ovos e até indivíduos adultos durante seu deslocamento entre diferentes regiões marinhas.
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A bióloga marinha e mestre em Ecologia, Amanda Aparecida Carminatto, que desenvolve pesquisas sobre a ecologia de peixes recifais em ilhas costeiras, explica que a espécie não apresenta risco direto à população. No entanto, destaca que o comportamento territorial pode gerar impactos sobre outras espécies de peixes que ocupam os mesmos ambientes.
Ainda de acordo com a pesquisadora, por se tratar de um peixe de pequeno porte, que atinge no máximo cerca de 10 centímetros, a donzela-real não é considerada comestível, não é alvo da pesca comercial ou artesanal e não possui tradição de consumo, o que reduz seu interesse econômico ou pesqueiro.
Sobre possíveis desequilíbrios ambientais, Amanda Carminatto afirma que os impactos ecológicos potenciais ainda são incertos.
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“Espécies nativas planctívoras, como Azurina multilineata e Chromis jubauna (pertencentes à mesma família da Neopomacentrus cyanomos), que ocorrem nas ilhas do litoral paulista, podem enfrentar competição por alimento e espaço. No entanto, diferenças no uso do habitat e no comportamento ecológico entre essas espécies sugerem que os efeitos decorrentes da presença da espécie exótica ainda são difíceis de prever”, ponderou.
Para minimizar possíveis problemas ambientais, a pesquisadora destaca a importância do monitoramento contínuo da espécie, com a realização de levantamentos periódicos nos recifes onde ela já foi registrada e a ampliação dos estudos para outras ilhas.
“O controle de vetores é uma medida fundamental para reduzir a disseminação da espécie exótica, incluindo a inspeção das plataformas antes do deslocamento, a adoção de protocolos mais rigorosos para o manejo de estruturas artificiais e o controle da bioincrustação, a fim de evitar o transporte de organismos entre diferentes regiões marinhas. A identificação de indivíduos juvenis é especialmente importante, pois indicaria reprodução local e possível estabelecimento da espécie na região.”
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O artigo científico que relata o registro da donzela-real nas três ilhas costeiras paulistas foi publicado em outubro de 2025 na revista Check List (https://checklist.pensoft.net/article/165541/)
A donzela-real é um pequeno peixe recifal que pode atingir até 10 centímetros de comprimento. A espécie foi originalmente descrita na Indonésia e apresenta ampla distribuição no Indo-Pacífico, incluindo o Oceano Índico, o Mar Vermelho, o Golfo Arábico e o Pacífico Ocidental, do Japão ao norte da Austrália. Trata-se de um peixe planctívoro, territorial e associado a locais específicos, vivendo em pequenos agregados, geralmente entre 5 e 30 metros de profundidade.
Embora estudos realizados no Golfo do México tenham indicado, inicialmente, impacto limitado sobre peixes nativos planctívoros, o alto potencial de invasão e a rápida colonização de novas áreas fazem com que a espécie seja considerada uma ameaça em potencial aos recifes brasileiros.
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