Aldeia Tabaçu Reko Ypy preserva tradição e resistência no Litoral Sul

Integrantes do Clube da Caminhada do Sesc conheceram os costumes e cultura dos primeiros habitantes do Brasil.

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19 ABR 2019Por Da Reportagem07h11
No espaço da Ocaruçu os visitantes participaram de piquenique coletivo, onde cada um contribuiu com um prato e uma bebida.No espaço da Ocaruçu os visitantes participaram de piquenique coletivo, onde cada um contribuiu com um prato e uma bebida.Foto: Nayara Martins/DL

*Por Nayara Martins

Caminhar, estar em contato com a natureza e ainda conhecer os costumes do povo indígena. Esta foi a experiência que o grupo do Clube da Caminhada do Sesc de Santos vivenciou no sábado, 13 de abril, ao visitar a aldeia Tabaçu Reko Ypy, na Terra Indígena Piaçaguera, localizada na divisa entre Itanhaém e Peruíbe, no litoral sul de São Paulo.

O grupo levou um susto ao chegar próximo à aldeia, já que foi recebido por indígenas furiosos e, segundo o líder Morubixaba Werá, não seria permitido a entrada. Tudo não passava de uma encenação dos indígenas para mostrar como eles enfrentam as dificuldades e o preconceito.

"O medo que vocês sentem é o mesmo que sentimos quando os indígenas são ameaçados pelo homem branco. Nós queremos apenas viver em harmonia com a natureza e manter a nossa terra e a nossa tradição", afirmou Itamirim, líder da aldeia.

Após quase 15 quilômetros de caminhada, o grupo do Sesc chegou à aldeia por volta das 13 horas. No espaço da Ocaruçu (oca grande em tupi-guarani) os visitantes participaram de piquenique coletivo, onde cada um contribuiu com um prato e uma bebida. Eles fizeram uma mensagem em tupi-guarani para agradecer o alimento.

Os visitantes também assistiram a palestra com a líder da aldeia Itamirim. Ela contou um pouco de sua história e como foi formada a aldeia Tabaçu. "Enfrentamos muitas dificuldades para manter a nossa cultura e tradição. Nossa maior riqueza é a fauna, a flora e queremos viver em equilíbrio com a natureza". Segundo ela, os próprios indígenas estão perdendo a sua essência ao se deixarem influenciar pelos costumes do homem branco.

"Daqui algum tempo ninguém vai mais se comunicar, pois vão apenas se falar por mensagens no celular. É muito triste tudo isso", salientou a líder.

Itamirim conta ainda que a aldeia Tabaçu possui dois espaços - a Ocaruçu (oca grande em tupi-guarani) um espaço para o fortalecimento da aldeia e o Nhanderakoá (modo de vida em tupi-guarani). Neste segundo espaço os indígenas vivem na mata e também expressam a sua dança, o seu canto e os esportes tradicionais.

TRILHA INTERPRETATIVA

Após a palestra, os visitantes caminharam por uma trilha interpretativa, conhecida como Trilha do Tatu, para chegar até o Nhanderakoá, em 30 minutos. Durante a trilha, eles puderam conhecer várias espécies de plantas nativas como bromélias, caraguatá, jenipapo, musgo, cipós, xaxins, palmeiras, entre outras. E ainda conheceram a lagoa, formada por água doce e que se originou da época em que uma mineradora estava em atividade no local.

Os indígenas se apresentaram com as danças e os cantos indígenas. O grupo do Sesc formou uma roda e também dançou ao som do canto. Eles assistiram ainda ao Tucumbó - um dos costumes indígenas em que um deles se apresenta com uma corda e produz um som ao bater no chão. Segundo a tradição é para levar energias positivas.

Para encerrar, Itamirim chama a todos para participar da Roda do Auê, onde eles cantam "Hei Auê", um canto para purificar a alma. "Nosso canto é uma expressão de sentimento da alma, cantamos quando sentimos tristeza ou alegria", esclareceu a líder. Ela agradeceu a presença de todo o grupo e afirmou que eles já podem se sentir parte da família Tabaçu.

ALDEIA

A aldeia Tabaçu Reko Ypy é formada, hoje, por sete famílias indígenas e 16 crianças. A reserva existe desde 2012 e faz parte da Terra Indígena Piaçaguera, localizada na divisa entre Itanhaém e Peruíbe. Uma das celebrações mais importantes é a cerimônia do Fogo Sagrado, realizada no mês de agosto, durante três dias na aldeia.

A aldeia possui uma escola de Educação Infantil e Ensino Fundamental (até o 9º ano), onde lecionam quatro professores bilíngues - com aulas em português e em tupi-guarani. As famílias sobrevivem com a venda do artesanato e o projeto de Turismo de Base Comunitária. Tal projeto recebe visitas monitoradas de estudantes e turistas interessados em conhecer a vida, o artesanato e os costumes da tradição indígena.

A Terra Indígena Piaçaguera, no litoral sul de São Paulo, é morada para cerca de 284 indígenas tupi-guarani. Segundo a Funai, são atualmente 11 aldeias e que ocupam uma área de 2.790 hectares, localizada na divisa entre os municípios de Peruíbe e Itanhaém.