Afroempreendedores usam a arte para combater o racismo

Evento reunira cerca de 30 expositores da cultura negra, artistas, esportistas e ativistas em Santos

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25 MAR 2017Por Diário do Litoral10h30
Evento reúnirá cerca de 30 afroempreendedores da moda, artesanato e gastronomia; atividades pretendem ampliar reflexão sobre o combate ao racismoEvento reúnirá cerca de 30 afroempreendedores da moda, artesanato e gastronomia; atividades pretendem ampliar reflexão sobre o combate ao racismoFoto: Rodrigo Montaldi/DL

Potencializar o afroempreendedorismo para combater o racismo. Seguindo esse pensamento, um coletivo de produtores culturais e empreendedores organizaram a Produção Preta Ecoar e Escoar, que será realizada hoje (25), data em que é comemorado o Dia Internacional de Combate ao Racismo. Serão quase dez horas – das 10 às 21h - de atividades, que reunirão artistas, especialistas, esportistas e cerca de 30 expositores da moda, artesanato e gastronomia. A entrada é gratuita.

“Qualquer pessoa pode participar. A palavra afro remete a visão do negro. A visão a partir do raciocínio negro, a consciência. Mas a consciência negra quer afro-conectar com outras culturas. O que a gente quer é gente que trabalhe no sentido de participação, desenvolvimento e ação. É importante que a gente saliente que esse evento é a visão do negro para todos”, destacou Renato Azevedo, produtor cultural e um dos idealizadores da atividade.

A Produção Preta nasceu há dois anos da ideia de dar visibilidade a produção afro na região. O grupo reúne atualmente cerca de 70 afroempreendedores.

“A proposta é mostrar e demonstrar muita coisa que não é visível, e fazer com que isso se torne um mercado. Um mercado de preço justo e que vai respeitar quem produz. Falar isso com bastante naturalidade, porque já existem feiras. Esse encontro, na verdade, é para raciocinar sobre o que estamos fazendo nas feiras e na militância”, afirmou Azevedo.

A extensa programação, que contará com debates, cinemas, apresentações musicais e teatrais, também visa levar reflexão aos participantes. “Mostrar onde os conselhos de direito podem ajudar. O filme ‘Passageiro Negro’ (que será exibido aos participantes seguido de debate) é para nós mostrarmos como a gente reage ao racismo. Por que estamos discutindo a mesma coisa tanto tempo?”, questiona o produtor cultural.

Azevedo destacou o potencial afroempreendedor da Baixada Santista, que não é reconhecido lá fora. “A Baixada Santista produz e exporta ou é apropriada. Uma pessoa é levada daqui e é tida como de outro lugar. A gente tem tanto fluxo de cultura e fazer aqui negro e não negro e a gente esquece. Estamos apresentando o fazer negro que é para todos”, afirmou.

Ressaltando a importância da data, o produtor cultural reforça a necessidade de combater o racismo. “Esse grito que está preso na garganta vem da forma que eu reajo ao racismo. Reagindo talvez você ofenda. A pessoa tem que compreender o que você está dizendo. O evento não é para diminuir o tom da voz, mas diminuir o nível de raiva que existe em toda a sociedade brasileira”, destacou.

Bonecas Mantintah celebram a diversidade cultural

Cláudia Melo é artesã há dez anos. A paraense de Belém do Pará decidiu há três anos se tornar microempreendedora individual e se dedicar a produção das bonecas Matintah – bonecas de pano, com estética afro, inspiradas nas Abayomi – que celebram a diversidade cultural brasileira. Ela usa a arte e a educação para difundir a história africana.

“Quando comecei a produzir as bonecas, muitas pessoas desconheciam o verdadeiro sentido do que é a representatividade da boneca africana. Muitos iam para o lado religioso, achando que era uma peça da religião Vodu ou de feitiçaria. Você tem que ter jogo de cintura em falar não. Mesmo que fosse uma peça desse tipo tem que ser respeitada e conhecida. Não se pode ter pré-conceitos e julgar antes conhecer a história”, afirmou Cláudia, que é conhecida como Matintah Pereira.

Para combater o preconceito e difundir a cultura africana, Matintah usa a criatividade.

“A história da Abayomi é uma cultura que passo, principalmente para as crianças, de forma lúdica. Converso com elas antes de começar a produzir as bonecas. Levo um livro de histórias. A biblioteca da Matintah é feita só de títulos e obras voltadas para a literatura afro e afro-brasileira. Agora estou contando também a história do povo indígena, do povo cigano, dos povos europeus”, destacou.

Ela reforça a necessidade da educação e a forma como as crianças reagem na oficina de bonecas. “Eles contam a história deles e conhecem a história do povo africano não a partir da escravização desses povos, mas de como esses povos viviam nas aldeias e a rotina de cada um. Os povos iorubas são de realeza. Reis, rainhas e princesas. E isso não se fala na escola”, afirmou.