Adolescentes trocam férias por solidariedade e voluntariado

Alunos passaram uma semana com famílias com poucos recursos e muitas dificuldades.

O grupo de 50 jovens começa a se reunir para o horário do almoço. As primeiras horas da manhã foram dedicadas a muita conversa e ‘bateção de pernas’ pelas ruas do Centro de Santos, mas se engana quem acha que os adolescentes estão apenas curtindo as férias de julho e a parada do ano letivo. Eles estão se reunindo para debater todo o trabalho de solidariedade que realizaram durante a manhã e seguirão fazendo por todo o resto do dia.

Continua após a publicidade

Todos os integrantes do grupo fazem parte da Missão Solidária Marista, uma iniciativa que visa promover uma educação por intermédio de solidariedade e trabalho voluntário. Os 50 jovens que atuaram durante a semana passada na região que cerca o Monte Serrat optaram por ingressar no programa com o objetivo de aprender com a realidade de famílias que convivem com poucos recursos e muitas dificuldades.

“É uma experiência formativa que os jovens da rede de colégios Marista vivenciam uma vez por ano. Eles fazem parte de pastorais e temos um processo formativo que é educa-los para a solidariedade, fazendo um olhar crítico para o território em que eles estão e também fazendo com que essa solidariedade não seja assistencialista e que gere transformação social”, explica a pastoralista Ana Clara Borgi, de 33 anos, que acompanha os jovens diariamente.

Continua após a publicidade

O objetivo da missão é transmitir para os jovens, que muitas vezes vêm de famílias com recursos e lares de alto nível financeiro, as dificuldades enfrentadas diariamente por quem não teve a mesma oportunidade de nascer e crescer em um ambiente privilegiado.

Durante uma semana, os adolescentes, que vieram de várias cidades de dentro e de fora do Estado de São Paulo foram divididos em seis grupos. Cada um dos times foi enviado para uma área com a responsabilidade de executar uma tarefa diferente, como oficinas com crianças no bairro Vila Nova e auxiliar nos trabalhos de reciclagem da cidade ou reformar a Associação de Capoeira Monte Serrat, fundada originalmente por Antônio Clemente, o Mestre Bahia, na Rua Tiro Naval.

Continua após a publicidade

“São alunos e ex-alunos Marista e mais uma equipe de analistas de pastorais. Nossa ideia é trabalhar com eles vivências na comunidade de forma que possam conhecer novas realidades. Não necessariamente em áreas de pobreza, não é isso que queremos mostrar, mas sim a potencialidade que cada local tem e como podemos ajudar essas áreas a se desenvolver”, diz a diretora Lucia Tavares, de 51 anos.

A 14ª edição da missão solidária beneficiou as cidades de Santos, Fazenda Rio Grande, Caçador e Guaraqueçaba. Os grupos intercalam as experiências de forma que todos possam participar de todas as atividades propostas durante a missão.

Continua após a publicidade

“A receptividade é muito boa, muitos moradores elogiam nossa iniciativa de trazer um grupo de jovens para Santos em pleno período de férias e eles se sentem movidos pelo valor humano que eles têm. Até mesmo o grupo que fez escutas com a população em condição de rua se diz muito emocionado com a recepção.”

As atividades de cada dia foram encerradas com uma grande roda de conversa entre os 50 jovens e mais de dez pastoralistas que compartilham suas experiências do dia e relatam tudo o que viram e sentiram durante o dia.

Continua após a publicidade

EXPERIÊNCIA

Em seu segundo ano de missão, Fernando Domingues, de 18 anos, que veio de família bem estabelecida na Capital paulista, participou com os colegas das mesmas atividades durante uma semana na região do Monte Serrat.

Continua após a publicidade

“Aqui a gente fala muito que se você não sai da missão ao menos levemente tocado, isso quer dizer que você não fez a missão direito. É uma realidade muito forte aqui, por estar no meio da cidade, em contato com uma história que foi esquecida. Parece que as pessoas também estão esquecidas. É tudo muito impactante.”

As visitas a famílias que vivem em cortiços deixaram Fernando impressionado com as condições precárias de moradias e ele afirma que retornou da missão questionando o que poderia ser feito e como as pessoas conseguem conviver com o pouco que têm.

Continua após a publicidade

“Desculpa a palavra, mas eles vivem como ratos, é um lugar sujo, escuro e, mesmo assim, a família que vive lá nos recebeu de braços abertos e com sorrisos. Até mesmo os moradores de rua eram surpreendentes. Eles não queriam dinheiro ou algo material, tudo que queriam era conversar, contar suas histórias, compartilhar suas existências.”

O estado de abandono faz com que o jovem compare as pessoas como os prédios abandonados do centro histórico de Santos e o rapaz afirma que não tem certeza se seu trabalho durante a missão mudou algo na vida das pessoas que ele encontrou, mas ele tem uma certeza. “Não sei se eu fiz algo, mas que eles fizeram algo comigo por mim, isso é uma certeza”.

Continua após a publicidade

A Missão Solidária Marista acontece todos os anos em formato de rodízio. Apesar de saber que Santos não deverá ser contemplada pela iniciativa novamente em 2020, Lucia e Ana Clara explicam que a cidade deverá receber os voluntários em outra oportunidade.