Acidentes de trânsito matam mais do que violência pública na Baixada Santista

Foram 570 mortes no trânsito ante 339 mortes por violência nos anos de 2017 e 2016

Comentar
Compartilhar
18 MAR 2018Por Gilmar Alves Jr.09h00
O maior número de vítimas fatais nos acidentes estava em motocicletasFoto: Nair Bueno/Arquivo/Diário do Litoral

Os acidentes de trânsito mataram nos anos de 2017 e 2016 mais do que a violência pública na Baixada Santista. Foram 570 mortes no trânsito ante 339 mortes por violência (homicídios, lesões corporais seguidas de morte e roubos seguidos de morte), conforme dados do Infosiga, do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito (programa do Governo de SP), e da Secretaria da Segurança Pública (SSP).

Apesar da superioridade numérica em relação às mortes violentas, as mortes no trânsito estão em queda na região. Foram 263 casos em 2017 ante 307 em 2016, o que representou uma redução de 14,3%.

Os dados se referem a acidentes em vias municipais e também nas rodovias que cortam a Baixada Santista.

Em janeiro de 2018, a queda continuou: foram 15 casos ante 25 no mesmo mês de 2017, o que representa queda de 40%. 

A cidade com maior número de mortes no trânsito em 2017 na Baixada Santista foi Praia Grande, com 56 casos. O número foi 27,27% maior do que a quantidade registrada no município no ano anterior: 44.

Peruíbe e Cubatão também tiveram alta de acidentes fatais. Na primeira foram 14 casos em 2017 ante 8 em 2016, o que representou aumento de 75%, enquanto na segunda cidade foram 26 casos contra 24 (+8,33%).

Itanhaém teve o mesmo número de mortes no trânsito nos dois anos: 22.

As demais cidades da Baixada Santista tiveram redução de mortes no trânsito em 2017 na comparação com o ano anterior.

Guarujá foi a que teve a maior queda: de 54 para 30 mortes (-44,44%). A cidade foi seguida por São Vicente, com queda de 50 para 30 (-40%), Mongaguá, com queda de 10 para 6 (-40%), Bertioga, com diminuição de 37 para 25 (-32,43%) e Santos, onde a queda foi de  58 para 54 (-6,90%).

Motocicletas

O maior número de vítimas fatais nos acidentes estava em motocicletas, segundo dados do Infosiga. Foram 104 vítimas em 2017 e 103 em 2016. Na sequência vieram os pedestres, com 78 mortes em 2017 e 67 em 2016.

As vítimas em bicicletas foram 45 em 2017 e 50 em 2016. Em carros, foram 21 casos fatais em 2017 e 35 em 2016.

Em 2016, houve 19 óbitos por acidentes de ônibus, sendo que 18 dos casos foram na batida na Rodovia Mogi-Bertioga, no ônibus que transportava universitários. Além de 17 estudantes, morreu o motorista do coletivo.

Os acidentes envolvendo caminhões mataram seis pessoas em 2017 e sete no ano anterior. Casos em que o Infosiga não obteve o tipo de veículo envolvido no acidente foram 33, sendo oito em 2017 e 25 em 2016.

Ainda houve duas mortes envolvendo modais que não são tipificados na estatística, uma em 2017 e outra em 2016.

Parcerias

De acordo com o Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, a maior parte das fatalidades no estado está concentrada nas áreas urbanas.

"Por isso entendemos como fundamental a parceria com a administração municipal. Firmamos convênios com 103 cidades, incluindo municípios da Baixada Santista, para viabilizar projetos com foco em melhorias nas vias e também ações de educação e fiscalização. Por meio de recursos provenientes de multas aplicadas pelo Detran.SP, R$ 110,5 milhões são destinados para estes projetos que seguem em andamento", afirmou a coordenadora do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, Silvia Lisboa.

Silvia ressalta que a redução de fatalidades no estado é fruto da união de esforços. "Desde o início do programa, o número de óbitos no trânsito nos 645 municípios do Estado é de 6,9%. Ainda há um longo caminho a percorrer, mas os índices mostram que estamos no caminho correto. Por isso contamos com o engajamento das Prefeituras para conscientizar a população", declarou.

A pedido de PG, DER analisa redução de velocidade na Via Expressa Sul

A partir de um pedido da Prefeitura de Praia Grande, por intermédio do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, o Departamento de Estradas e Rodagens (DER) analisa redução de velocidade na Via Expressa Sul para mais segurança. Atualmente, a velocidade de toda a extensão da via, inclusive nos quatro radares, é de 80 km/h.

"O projeto passa por análise técnica", informou o DER, por meio de sua assessoria de imprensa.

O secretário de Trânsito de Praia Grande, Marcelo Prado, afirmou que também foi solicitada a colocação de radares que tenham indicadores de LED com a velocidade de cada motorista. "A gente entende que educativamente ele é melhor", diz Prado.

"Ele obrigatoriamente faz você reduzir a velocidade", complementa.

Prado também afirma que foi solicitada iluminação no trecho da Rodovia Padre Manoel da Nóbrega entre o Ribeirópolis e Solemar, na divisa com Mongaguá.

 "Ainda que tenhamos investido em melhorias estruturais e de sinalização (nas vias do município), estatisticamente no mundo todo 75% dos acidentes são causados por falha humana. Ou seja, podemos dizer que na grande maioria dos casos a imprudência do condutor é determinante para que estes acidentes ocorram. Por isso, investimos constantemente também em campanhas e ações de educação e orientação de trânsito", afirma o secretário.

Das 100 mortes no trânsito em dois anos, em Praia Grande, 72 foram por acidentes nas vias municipais, segundo os dados do Infosiga.

Com aumento de 8 para 14 casos fatais, de 2016 para 2017, Peruíbe informou que desde o ano passado, no início da gestão do prefeito Luiz Maurício (PSDB), trabalha para recuperar a sinalização nas vias públicas, principalmente de solo.

"As vias estavam mal sinalizadas", afirma o secretário de Defesa Social, José Romeu Dutra.

"Faixas de pedestres estavam muito apagadas e não houve a manutenção delas", declarou.

Além da manutenção, Dutra afirma que foram feitas constatações de pontos cegos devido a vagas de estacionamento em vias públicas, o que motivou modificações.  Das 22 mortes na cidade em 2017 e 2016, 15 foram em vias municipais e sete na Rodovia Padre Manoel da Nóbrega.

Em Cubatão, onde também houve aumento de mortes, foram 26 óbitos em vias municipais e 23 em trechos de rodovias nos últimos dois anos ­– um dos casos não tem a localização indicada.

A Prefeitura de Cubatão disse que o Governo do Estado garantiu verba de R$ 700 mil para ser destinada em 2018 para a segurança no trânsito cubatense por meio do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito. "Também está em andamento um estudo para implantação de lombofaixas na cidade", afirmou.

Itanhaém teve o mesmo número de mortes em 2016 e 2017: 22. A Prefeitura não enviou posicionamento até o fechamento da reportagem.

Cidades com redução de mortes

Entre o grupo de cidades que reduziu o número mortes, São Vicente frisa a importância das campanhas de conscientização.  

"A maioria dos acidentes são causados por imprudência, daí a importância das campanhas de conscientização, que em sua maioria buscam educar crianças e adultos para que tenhamos vias mais seguras para motoristas e pedestres", afirma o secretário de Trânsito e Transportes (Setrans) de São Vicente, Alexandre de Almeida.

Por meio de nota, a Prefeitura de Guarujá destacou o convênio assinado no ano passado pelo prefeito Válter Suman (PSB)  junto ao governo estadual, que prevê a destinação de pouco mais de R$ 1,29 milhão para investir na segurança do trânsito.

"A iniciativa busca reduzir o número de fatalidades no trânsito até o ano 2020. Em Guarujá, os recursos serão utilizados para a instalação de 40 lombofaixas, semáforos e sinalização em 21 pontos críticos da Cidade – entre o Centro, Enseada, Santa Rosa, Santo Antônio e Vicente de Carvalho, identificados com base em estudo realizado pelo Sistema de Informações Gerenciais de Acidentes de Trânsito do Estado de São Paulo (Infosiga/SP), disse a gestão Suman.

A Prefeitura de Santos informou, também em nota, que no ano passado foi realizado trabalho de conscientização aos idosos, em razão da constatação de que esta faixa etária estava se envolvendo em acidentes, em percentuais maiores que os demais grupos.

"Para que os registros (gerais) se mantenham em declínio, a CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) ampliará as campanhas educativas, especialmente aquelas voltadas aos motociclistas e ciclistas, além de uso de telefone celular. Um convênio celebrado entre o município e o Governo do Estado, por meio do programa Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, assegurará verbas para execução de intervenções no sistema viário santista, a fim de torná-lo ainda mais seguro para pedestres, motoristas, ciclistas e motociclistas", diz a gestão Paulo Alexandre Barbosa (PSDB).

As ações programadas, segundo a Prefeitura, são revitalização da sinalização horizontal (faixas de pedestres, retenção, pictogramas de advertência Faixa Viva, legendas de solo 'Devagar', 'Pedestre', 'Pare' e faixas de rolamento); implantação de minirrotatórias e de semáforos, além da substituição de controladores semafóricos para inclusão de estágios para ciclistas e pedestres.

A Prefeitura de Mongaguá disse que regula o trânsito no perímetro urbano em 40 km/h, velocidade que considera "bastante razoável para se trafegar em um município de 13km de extensão".

"Aqueles que desobedecem acabam sendo penalizados pelos radares e lombadas eletrônicas existentes", diz a gestão Artur Parada Prócida (PSDB).

"Outra ação é manter devidamente revitalizadas as rotatórias e um planejamento viário atualizado, contemplando a evolução da frota de veículos, considerando todas as épocas do ano, em especial, a temporada de verão e o período de férias de meio de ano", afirma a prefeitura.

"É válido mencionar que a Administração Municipal, por meio do Departamento de Serviços de Trânsito (Semutran), tem investido no aprimoramento da mobilidade urbana, abrangendo melhorias constantes nas ciclovias, criação de mecanismos de acessibilidade e, sobretudo, as iniciativas de educação comportamental no trânsito, como forma de contribuir com a convivência harmônica nas vias", complementa.

A Prefeitura de Bertioga, por meio da Secretaria de Segurança e Cidadania, disse que medidas importantes tomadas pela Diretoria de Trânsito impactaram na redução do número de acidentes fatais na Cidade.

A Administração municipal destacou a melhora na sinalização viária, reforço na equipe de fiscalização no trânsito, trabalhos de orientação e educação no trânsito e instalação de mais pontos de fiscalização eletrônica de velocidade.

Mulheres são exemplo de comportamento seguro
 

Da Reportagem

As mulheres se envolvem menos em acidentes fatais de trânsito. Segundo o Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, programa do Governo de São Paulo responsável pela gestão do Infosiga, apenas uma em cada cinco vítimas fatais no estado foram mulheres em 2017. E a explicação, diz o movimento, está no comportamento mais prudente e na tendência de menor agressividade e competição nas ruas e estradas.

"Certamente, a relação de homens e mulheres com os veículos é muito diferente. Na maioria dos casos, vítimas do sexo feminino são pedestres ou passageiras, em pouquíssimos casos conduzem veículos em acidentes fatais", afirma a coordenadora do Movimento Paulista de Segurança no Trânsito, Silvia Lisboa.

Enquanto 93,1% dos condutores vítimas de acidentes são do sexo masculino, entre as mulheres esse índice é de apenas 6,4%. O principal tipo de acidente que vitimam as mulheres são os atropelamentos, que correspondem a 40% das fatalidades nesse grupo.

Prudência e paciência

Segundo Silvia Lisboa, fatores como agressividade e prática de infrações estão diretamente relacionados ao aumento de risco de acidentes de trânsito. "A agressividade tende a ser maior entre os homens e isso reflete em seu comportamento no trânsito", analisa. "Basta ver a diferença de reação diante de uma 'fechada' ou acidentes. O homem sente-se agredido e tende a revidar. Já a mulher pode até reclamar, mas traz para si a responsabilidade e assume o dano".

Outra característica feminina é a menor propensão a assumir riscos. "Mulheres são mais cautelosas, o que não quer dizer que sejam menos audazes. Mas elas tendem a considerar sempre as situações de risco e antever possíveis problemas no trajeto", avalia a coordenadora do Movimento Paulista.

Riscos

Segundo levantamento do Infosiga, o comportamento de condutores e pedestres é o maior fator de risco.

As estatísticas do Infosiga revelam ainda que quase metade das ocorrências fatais são colisões contra outros veículos. "Isso reflete o alto nível de competição e imprudência por parte dos condutores em geral", destaca Silvia.

"As mulheres, em sua maioria, nos dão o exemplo de como devemos nos comportar para evitar acidentes e fatalidades. Paciência, civilidade ao compartilhar o espaço e se colocar no lugar do outro são atitudes que devem marcar nosso comportamento em qualquer situação, principalmente no trânsito", conclui.