Abandono condena crianças na região da Zona Noroeste

Conselheiro tutelar detectou até caso de tentativa de venda de criança para compra de drogas

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07 MAI 2017Por Carlos Ratton10h00
Precária infraestrutura urbana e a falta de equipamentos públicos básicos geram ambiente  para o aliciamento de dezenas jovens pelo crimePrecária infraestrutura urbana e a falta de equipamentos públicos básicos geram ambiente para o aliciamento de dezenas jovens pelo crimeFoto: Divulgação

A precária infraestrutura urbana e a falta de equipamentos públicos básicos estão proporcionando o aliciamento de dezenas jovens pelo crime e expondo meninas ao assédio e à exploração sexual na Zona Noroeste, área periférica de Santos, que faz divisa com São Vicente.

Sem educação e saúde de qualidade; cultura, esportes e lazer mínimos e um ambiente socialmente saudável, as crianças, moradoras da Vila dos Criadores, Telma, Pantanal, Capadócia, Alemoa e outros bairros, passam o dia se agarrando no que podem por uma vida melhor, nem que seja como “avião” de um traficante ou na boleia do caminhão de um motorista a procura de algumas horas de sexo extraconjugal.

“As autoridades que têm poder de decisão, a caneta nas mãos, e a sociedade que vive na Zona Leste da Cidade ignorando a situação podem esperar: essa conta vai chegar, mais cedo ou mais tarde, por intermédio de uma batida do cano de um revólver no vidro do carro durante um passeio, de dia ou à noite, nos equipamentos públicos sociais próximos à orla da praia, na saída de um teatro ou cinema, nas imediações de um curso ou faculdade e outros locais que muitas dessas crianças não têm e sequer terão a oportunidade de conhecer”, afirma o coordenador do Conselho Tutelar da Zona Noroeste, Gian Karlo Xavier.

Ele já perdeu as contas de quantos pais e mães que, por terem que passar a maior parte do dia fora trabalhando pelo sustento da família, pedem para que a equipe de conselheiros impeça que seus filhos sejam cooptados por marginais e suas filhas acabem na prostituição.

“O número de meninos que chegam em casa com uns trocados sem origem certa e de adolescentes grávidas na Zona Noroeste é muito alto. A vulnerabilidade social é grande. Tudo para eles é muito difícil por conta das condições econômicas e pela falta de equipamentos públicos. Superar isso tudo e ainda se tornar um homem ou mulher de bem é quase impossível. Uma criança da Zona Noroeste não tem a mesma chance de crianças da Zona Leste. Para suprir necessidades mínimas sem se envolver com o crime ela está tendo que fazer, por exemplo, malabares nos semáforos”, afirma ­Xavier.

Além do ambiente insatisfatório e desigual, o mais choca a equipe de conselheiros é a omissão do Poder Público, que ajuda no fomento da violência. Nas áreas mais vulneráveis, não há luz e saneamento básico. O cheiro de chorume (líquido proveniente do lixo) é constante. Caminhoneiros assediam as meninas e traficantes incentivam os meninos a praticar pequenos delitos no Centro e outros bairros de Santos.

“Os meninos vão cobrar o que está faltando na Zona Noroeste. A comunidade se cuida, mas os poucos técnicos de saúde, de assistência social e educação não estão tendo apoio estrutural para atender a demanda. Está faltando de papel a técnicos”, afirma o ­conselheiro.

Tentativa de venda

O conselheiro tutelar revelou à Reportagem que, tempos atrás, uma mãe tentou vender o filho para poder comprar drogas. O menino morava com a avó que, durante o tempo que ficou acamada, viu a filha entrar em sua residência e vender tudo que valia algum dinheiro. A avó, sem forças para reagir, viu tudo ser retirado.

“O menino deixou de frequentar a creche e, depois, soubemos pela comunidade, que não permite isso, que a mãe estava oferecendo a criança. Ela não conseguiu porque o conselho agiu e resgatou o menino. Esse é apenas um dos fatos detectados. Se ela queria vender é porque alguém queria comprar”, dispara o conselheiro, alertando que abusos e abandono de crianças são constantes.

Pais ajoelham

Gian Karlo conta que pais chegam a se ajoelhar e pedir para que tirar seus filhos da rua e mandá-los para um equipamento social, mas não existe respaldo do poder público.

Ele revela que só tem um lugar em Santos para atender crianças com problemas psicológicos e psiquiátricos que é a Seção Centro de Referência Psicossocial ao Adolescente – Secerpa, que fica distante da Zona ­Noroeste.

“Como um menino viciado em álcool, em drogas, uma menina que foi estuprada, pode receber um tratamento? Não existe condições econômicas para os pais levarem as crianças. O próprio Secerpa não possui funcionários e veículos para atender a demanda. Estão tendo que decidir quem atendem. É preciso aumentar e descentralizar os serviços urgente, inclusive no atendimento de crianças com necessidades especiais, que também não existe na Zona Noroeste”, conclui.

Bairros esquecidos são chamariz para ataques contra crianças

Os perigos aos quais as crianças passam na Zona Noroeste, revelados por Gian Karlo Xavier, não são difíceis de serem comprovados.

Um dia antes do conselheiro conceder a entrevista ao Diário do Litoral, dois estudantes, um de nove e outro de 12 anos, foram vítimas de uma tentativa de estupro, após serem rendidos por um homem em um carro preto na Areia Branca, em Santos.

Os meninos foram levados no banco de trás do veículo a um terreno em São Vicente, onde o maníaco os retirou do carro e tentou atacá-los. Os estupros só não se consumaram porque o estudante de 12 anos conseguiu dar uma chute no criminoso, o que possibilitou a fuga do garoto e do colega.

Os dois meninos seguiram a pé de São Vicente até a Zona Noroeste, segundo relatou à avó do garoto mais novo, uma recepcionista de 59 anos. “Quando ele chegou em casa não conseguia falar e chorava muito. Só tremia”, declarou ela.
O estudante contou para a avó que, no caminho para São Vicente, o criminoso chegou a cumprimentar uma pedestre que o reconheceu no trânsito.

“Acredito que ele é da região”, afirma a recepcionista. A avó relata que o neto não irá mais ir ou voltar da escola sem ser acompanhado pelos responsáveis e passará por um acompanhamento psicológico.

Centro: a questão é a exploração sexual

A falta de políticas públicas que, além de aumentar a violência, estimula a exploração sexual de crianças e adolescentes, foi também alvo de reportagem do Diário no último domingo (30), por intermédio da conselheira Idalina Galdino Xavier.

Segundo publicado com exclusividade, dezenas de meninas de 12 a 17 anos estão diariamente sendo exploradas sexualmente na área central, também esquecida pelo Poder Público.

A situação é detectada nas ruas dos bairros do Paquetá, Vila Mathias, Vila Nova e cercanias. As meninas do Centro sofrem não só por terem o corpo usado como mercadoria, mas por outros tipos de violência física e pelo uso de drogas para suportar as humilhações. Muitas meninas estão até cometendo pequenos delitos para sobreviver.

Elas se posicionam a partir das 23 horas em esquinas próximas de comércios. Alguns pontos são conhecidos nas ruas General Câmara, Sete de Setembro, Braz Cubas, na Praça José Bonifácio e imediações da rampa do Mercado ­Municipal.

A falta de estrutura familiar leva a maior parte das crianças e adolescentes para as ruas. Ela conta que as meninas não têm discernimento para compreender que estão sendo empurradas pela família para as ruas para manter a própria subsistência.

Lembra ainda que as crianças e adolescentes exploradas também ficam expostas a doenças e que a situação se perdura não apenas por conta da falta de estrutura familiar, mas pelo preconceito da sociedade.

Ela ressalta que a maioria das meninas não quer essa vida e que uma delas até implorou para ser abrigada. Revela que existem três cidades: a Santos da orla, a do Centro e a da Zona Noroeste, sendo que as duas últimas praticamente são esquecidas pelo Poder Público e ignoradas pela primeira.

“A menina vestida de shorts e top na Avenida Floriano Peixoto, no Gonzaga, é vista de um jeito (descolada, na moda, enfim). Essa mesma menina vista na Rua Amador Bueno é considerada vagabunda, prostituta, que se veste desta forma para provocar. Tem homens que têm filhas e netas e usam as meninas do Centro. Hipócritas, preconceituosos e criminosos”, ­desabafa.

A conselheira vai mais longe. Afirma que não existe, em Santos, vontade de mudar a situação das meninas do Centro.

“Quem pode ajudar não faz nada, quem pode tirar proveito tira e quem milita contra a situação é perseguido. Os conselheiros são ameaçados constantemente pelos pais das menores e autoridades por cobrarem e denunciarem um serviço público insatisfatório. Ninguém quer resolver porque a situação é cômoda. É mais fácil jogar o problema para ‘debaixo do tapete’. As meninas na Fundação Casa, muitas preferem traficar drogas para fugir da exploração sexual”, dispara Idalina.

CMDCA já alertou que faltam políticas públicas

Segundo o presidente do Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) de Santos, Edmir Santos Nascimento, é preciso traçar um plano de ação urgente para mudar a realidade dramática de mulheres e crianças em vulnerabilidade social no Município.

“Precisamos perseguir a doutrina da proteção integral. Todos os direitos das crianças e adolescentes têm que ser garantidos e isso não ocorre nesses bairros. Fala-se que o IDH (Índice de Desenvolvimento Humano) de Santos é um dos maiores do Brasil, mas ele deveria ser medido por essas áreas menos favorecidas. Enquanto isso não ocorre, vamos continuar maquiando a realidade”, afirma.

Nascimento não se conforma de ver pessoas morando em cortiços, sem ventilação, insalubres. Crianças contraindo doenças. Morando num quarto que serve como sala e cozinha e meninas usando banheiro coletivo. “As crianças não têm espaço sequer para brincar. O que causa indignação é perceber que não existe política pública alguma a curto prazo para mudar essa situação”, disse.  

O presidente do CMDCA salientou a falta de equipamentos públicos e projetos esportivos e culturais. “Infelizmente, não possuímos números de quantas crianças e adolescentes possam estar sofrendo algum tipo de abuso, violência ou exploração sexual”, adiantava, alertando que o crime se aproveita da fragilidade do ambiente e vulnerabilidade das crianças.

“Os meninos não tem quase opção. A escolaridade é comprometida, a inserção futura no mercado de trabalho também e não precisa de muito esforço para o crime cooptá-los. Toda essa conjuntura contribui para a perda dessas crianças”, acredita.