Para o comerciante Paulo Oshiro, de 46 anos, o domingo do Dia dos Pais, há nove anos, não era celebrado com alegria. A morte de seu pai tirou o brilho da data. Não bastasse esta tristeza. Este ano, a dor multiplicou. Oshiro vai passar o primeiro Dia dos Pais sem um de seus quatro filhos: um assalto em um ponto de ônibus, por conta de um celular, levou a vida de Luann, seu filho mais velho.
O caso tomou proporções enormes por conta da brutalidade do crime, das redes sociais e da quantidade de amigos que o jovem, de 18 anos, tinha. Mas o que mantém viva toda a alegria e esperança de Luann é o esforço do pai em seguir os seus passos de solidariedade.
Com o projeto social “Luann Vive”, Paulo, que tem mais três filhos – Noah, Gustavo e Henrique -, tenta amenizar a dor da saudade. Hoje, ele é o entrevistado do Papo de Domingo para mostrar que, apesar da dor, a saudade de um filho perdido pode ser o recomeço para uma vida de cuidado ao próximo e de novas perspectivas.
Diário do Litoral – O que esperar deste domingo?
Paulo Oshiro – Falar do Dia dos Pais para mim sempre foi muito difícil porque eu perdi meu pai nesta data. O meu pai era a minha maior referência, era tudo o que eu sou hoje. Tudo o que eu faço hoje e faço com os meninos é reflexo de tudo o que ele fez para mim. Então, já era um dia muito difícil. Agora vai ser o primeiro ano que o meu time vai estar incompleto. Mesmo acreditando que o Luann está sempre perto de mim, que está sempre do meu lado, de forma física, o time está incompleto. É difícil. Ontem, abrindo o Facebook, eu recebi uma recordação dele. Uma foto com uma declaração que o Luann tinha feito no Dia dos Pais e foi difícil lembrar. O Luann era calmo e tranquilo. Às vezes, eu chamava a atenção dele em algumas coisas. Eu brigava muito com ele porque ele era muito focado só nos estudos. Eu acredito que nós somos o que vimos e o que mostramos para os filhos. Eu vi do meu pai e passei, e me vi no Luann também.
DL – E como era a sua relação com o seu pai?
Oshiro – Eu tinha muitas diferenças com o meu pai. Mas, em um determinado dia, nos vimos só nós dois. Nós fomos para o Japão. Na época, eu tinha 20 anos. Fomos eu e meu pai; minha mãe e meu irmão ficaram no Brasil. E como nós dependíamos um do outro, a relação ficou mais estreita. Então, dos meus 20 anos até o falecimento do meu pai, nós estávamos sempre juntos. Fiquei com um dos ofícios dele. Ele era marceneiro, era muito versátil e aprendia rápido. Batalhava bastante. Antes de ir para o Japão, tínhamos uma vida sacrificada. Depoi que ele faleceu, também comecei a aprender marcenaria por conta própria. Nós tínhamos uma boa relação.
DL – É isso o que você quer passar aos seus filhos?
Oshiro – Nós somos o que vimos e mostramos. Eu lembro que o meu pai tinha uma perua de lotação que fazia o trajeto do Morro São Bento e Jardim Rádio Clube. Toda vez que eu estava disponível, eu ficava com ele. Eu lembro que muitas pessoas ele não cobrava passagem, ele conhecia todo mundo. Ele via o sacrifício das pessoas. Então, esta parte de solidariedade veio dele. Ela ajudava muita gente no Morro. No final de ano, a gente frequentava alguns abrigos, adotávamos algumas crianças. E isso eu fui acompanhando desde pequeno. De uma certa forma, o Luann e o Noah viram isso através de mim e isso contagiou os meninos. O Luann já fazia os seus projetos pequenininhos, sem alarde. E foi isso que nos motivou a dar continuidade. Depois da partida dele, foi muito difícil aceitar pela forma brutal que aconteceu e, com o apoio dos amigos dele, continuamos o que ele já fazia.
DL – A perda do Luann ensinou algo diferente a respeito de parternidade?
Oshiro – Nós, pais, erramos muito em querer deixar para os nossos filhos um conforto maior. A gente luta diariamente, cada vez mais, correndo atrás para deixar uma condição melhor para que eles não tenham uma vida tão sacrificada. Eu lutava muito. Trabalhava dia e noite. Mas, com a partida do Luann, eu aprendi que hoje é o dia de fazer, hoje é o dia de amar, hoje é dia de procurar a ajuda das pessoas. Eu entendi que herança não é só o sobrenome, não é só o dinheiro que você deixa. O que você deixa de fato, o que fica marcado nos teus filhos, é a tua história. É o que você passa para eles. Isso sim é uma herança. Eu parei de trabalhar dia e noite. Eu acho que eu perdi um tempo com este erro. Bens materiais se vão, já o que você deixa da sua história fica guardada. E, com certeza, muito mais do que bens materiais, ela vai ultrapassar gerações. Como aconteceu com o meu pai e eu; e entre eu e o Luann.
DL – Quais são os projetos sociais que o senhor trabalha desde a morte do Luann?
Oshiro – A gente montou o projeto “Luann Vive”, que nasceu com o falecimento dele. De início, nós pensamos em fazer uma homenagem para ele fazendo uma mobilização para doação de sangue. Eu nem preciso dizer que foi um sucesso. Ai então, eu resolvi seguir os últimos passos do Luann. Uma semana antes, ele tinha ido a uma aldeia indígena em Bertioga. Então, eu quis conhecer a aldeia. E o que seria apenas uma visita, acabou se tornando um negócio muito mais legal. Levamos doações para o pessoal da aldeia. Ele tinha ido lá na festa do Dia das Crianças e entregou junto com um grupo de amigos, cerca de 250 brinquedos. A recepção deles foi muito bacana e eu percebi o porquê que o Luann se identificou tanto com aldeia, ele voltou fascinado. Foi quando eu decidi fazer uma festa de final de ano para eles. Me reuni com outro grupo, arrecadamos tudo, recebemos muitas doações e, como tomou uma proporção muito grande, percebemos que não dava mais para parar por ali. Além disso, como projeto, a gente começou a conscientizar que fazer o bem é legal e que a gente pode se divertir fazer o bem. Então, os próprios jovens começaram a se mobilizar e esta história foi passando de um para outro. Temos também a campanha contra a receptação, com o apoio da Prefeitura; a campanha de captação de doadores de medula. O meu objetivo é mostrar para os jovens que eles são multiplicadores. Além do objetivo principal das campanhas de conscientização, temos a função de atrair os jovens. Para que a gente consiga ter um pouco mais de segurança. A minha luta é para que a partida do Luann não tenha sido em vão. Eu larguei tudo, larguei a minha vida toda, para levar este projeto adiante.
DL – É uma forma de manter o seu filho vivo?
Oshiro – Sim. É uma forma de manter o meu filho vivo e é uma forma de não enlouquecer. Porque, para mim, o dia que estou em casa sem atividade, é muito difícil. Eu procuro sempre fazer alguma coisa porque os dias que eu fico sozinho são muito difíceis. Por mais que a gente tente ser forte, eu sou um ser humano. Tenho os meus momentos de muita risada, mas tenho os meus momentos de choro. O amor é egoísta, não é?
DL – Muita saudade também…
Oshiro – Muita. Sinto muito a falta, tanto a do meu pai quanto a do Luann. É muito difícil. Dia dos Pais é um dia muito difícil.
DL – O que o senhor diria aos pais que passaram pela mesma situação que a sua família, mas que ainda não encontraram um acalanto ou um conforto através do amor e da solidariedade?
Oshiro – Nesta luta de solidariedade desde a morte do Luann, eu encontrei alguns amigos pelo caminho. Um deles é o Wilson, pai da pequena Emily. Ele caiu de paraquedas na campanha de receptação. Não me recordava do caso da filha dele. Ele me explicou quem ele era. Eu vi que ele precisou se fortalecer desta forma. Assim, também apoiamos o pai do Allan, garoto do escoteiro de São Vicente, que morreu porque não tinha o que entregar. Eu não sei o que dizer para os pais que ainda não encontraram um caminho. Seria só uma frase pronta: ‘é uma estrela que brilha no céu’. Mas para estes pais que conheci nesta caminhada, eu diria para que continuassem focando nestas ações. Só quem passa por isso sabe o que passa no nosso coração, sabe o que a gente sente. Cada um na sua luta, visando o bem comum. Não desistam e lembrem que tem os outros filhos. Eu tenho o Noah, o Gustavo e o Henrique. Que eles ficaram aqui para dar uma força para a gente. Eles também precisam de mim.
DL – O que o senhor guarda dos seus filhos, especialmente do Luann?
Oshiro – O Luann era um garoto muito especial. Eu sempre falei para os meus filhos que não queria uma parede de diplomas e nem que eles fizessem as coisas pelo dinheiro. Eu quero que todos sejam felizes, independente do que forem. Essa era a minha maior briga com o Luann. Ele só estudava, era muito focado. Ele ansiava por mudanças, tinham um pensamento muito além da idade dele e muito além do que eu podia imaginar. Ele sonhava em ser ministro e mudar a situação do País. Ele criou uma consciência muito grande e tinha o sonho de mudar tudo. O sonho dele era tão grande quanto ele. Eu só quero que eles sejam felizes.
