Cotidiano

À frente do seu tempo: Quem foi a estudante que enfrentou um tribunal só de homens e chocou Santos

Em uma época onde o tribunal era território estritamente masculino, a santista Adalzira Bittencourt fez o impensável: foi a primeira mulher a atuar em uma defesa no tribunal santista

Ana Clara Durazzo

Publicado em 01/04/2026 às 10:45

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Escritora, advogada, jornalista e ativista, ela não apenas defendeu os direitos femininos, mas também colocou em prática quando isso parecia impossível / Arquivo Memória Santista

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Pouca gente conhece seu nome, mas Adalzira Bittencourt foi uma das mulheres mais à frente de seu tempo no Brasil. Escritora, advogada, jornalista e ativista, ela não apenas defendeu os direitos femininos, mas também colocou em prática quando isso parecia impossível.

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E foi em Santos, no litoral de São Paulo, que uma das páginas mais impressionantes dessa história aconteceu.

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A ousadia que parou Santos nos anos 1920

Na década de 1920, quando mulheres ainda lutavam até pelo direito ao voto, Adalzira protagonizou um feito inédito: entrou no Tribunal de Justiça de Santos para defender um réu em um caso de assassinato.

O detalhe? Ela ainda era estudante de Direito.

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A cena atraiu curiosos e chocou a sociedade da época. Uma mulher, jovem, ocupando um espaço dominado por homens e enfrentando um julgamento criminal era algo praticamente impensável.

Mesmo assim, ela não apenas participou, ela brilhou.

Com uma defesa considerada brilhante, baseada em referências da literatura e da psiquiatria, Adalzira conseguiu convencer o júri e absolver o réu. O episódio marcou a história jurídica da cidade e a transformou na primeira mulher a atuar em uma defesa no tribunal santista .

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Desde jovem, acreditava que educação e independência financeira eram pilares fundamentais para a liberdade feminina

Muito além do tribunal: uma voz ativa no feminismo

Mas sua atuação não se limitou ao Direito. Adalzira já era uma figura ativa no movimento feminista brasileiro.

Ao lado de nomes como Natércia da Cunha Silveira, ela participou da revista Brasil Feminino, defendendo a presença das mulheres em todos os espaços da sociedade .

Desde jovem, acreditava que educação e independência financeira eram pilares fundamentais para a liberdade feminina, uma visão considerada revolucionária para a época.

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A única mulher da turma e uma carreira internacional

Em 1927, formou-se em Direito pela Universidade de São Paulo — sendo a única mulher entre os formandos .

Logo depois, expandiu seus horizontes para além do Brasil:

  • Estudou Sociologia na Itália
  • Especializou-se em Direito Internacional na Holanda
  • Atuou como professora na Argentina
  • Realizou conferências nos Estados Unidos e América Latina

Sua trajetória mostra que sua luta não era apenas local — era global.

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A escritora que previu o futuro

Além do Direito, Adalzira também marcou presença na literatura.

Entre suas obras mais emblemáticas está o livro“Sua Excelência, a Presidente da República no ano de 2050” (1929).

Na obra, ela imaginava um Brasil governado por uma mulher, algo que só se tornaria realidade décadas depois, com Dilma Rousseff.

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A escrita de Adalzira dialogava com o feminismo e até com ideias modernistas, propondo um país transformado pela atuação feminina .

A escrita de Adalzira dialogava com o feminismo e até com ideias modernistas

Ativista, educadora e líder cultural

Sua atuação foi ainda mais ampla:

  • Fundou escolas para menores abandonados
  • Criou organizações voltadas à paz e educação
  • Presidiu a Academia Feminista de Letras
  • Organizou exposições literárias femininas no Brasil

Ela também participou de movimentos ligados ao sufrágio feminino, chegando a solicitar alistamento eleitoral ainda nos anos 1920, um ato político importante na luta pelo voto das mulheres .

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O legado que ainda ecoa em Santos e no Brasil

O episódio no tribunal santista foi apenas o começo de uma trajetória marcada por coragem e pioneirismo.

Adalzira Bittencourt ajudou a abrir caminhos em áreas como:

  • Direito
  • Literatura
  • Política
  • Educação

Em um período em que mulheres eram frequentemente silenciadas, ela fez exatamente o oposto: falou, escreveu, enfrentou e venceu.

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