A carga pesada dos caminhoneiros no porto de Santos

Falta de banheiro e estacionamento, pedágio caro e frete baixo são alguns dos obstáculos no caminho deles

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13 FEV 201315h11

O maior porto da América Latina em extensão bate recordes de movimentação de carga. No ano de 2007, passaram pelo porto de Santos 80,7 milhões de toneladas entre carga importada e exportada.

Autoridades falam em expansão portuária e na meta de tornar o porto de Santos um porto de excelência. O projeto Barnabé-Bagres estima um aumento na movimentação de carga em 120 milhões de toneladas. O ministro-chefe da Secretaria Especial de Portos, Pedro Brito, já afirmou que o porto de Santos tem condições de se tornar um hub port, um porto concentrador de carga.

Entretanto, o porto de Santos é hoje um porto concentrador de problemas para os caminhoneiros. Em entrevista ao DL, profissionais falaram sobre o volume de dificuldades que enfrentam no vai e vem do porto, que parecem não ter solução.

Para eles, o porto de Santos é um dos piores do país no que se refere à logística de transporte com trânsito caótico, falta de estacionamento e de banheiro. A cabine do caminhão vira quarto em pernoite. Problemas que se intensificam durante a espera, muita espera na porta dos terminais.

A primeira mulher a tomar o volante de caminhão como meio de vida, na Região, tem 50 anos de idade e 18, de estrada. Encontramos Janete Marchioni de Oliveira em frente a um terminal na Alemoa, esperando sua vez de descarregar o contêiner. Ela já estava naquele local há cinco horas.

Sem cobertura ou local adequado de espera, a entrevista foi feita debaixo de chuva. O desconforto é rotina nas áreas portuárias e retroportuárias, contudo, não há quem se acostume com tanta adversidade. Janete disse que o único problema que deixou de enfrentar desde quando iniciou na profissão foi o preconceito por ser mulher. Hoje é uma das profissionais mais respeitas no ramo por transportadoras e colegas. 

“Santos é o pior lugar que tem para você vir com o caminhão. Não tem um local pra você esperar adequadamente para poder carregar ou descarregar o seu caminhão. Não tem banheiro em lugar nenhum. A gente chega a ficar até um dia esperando e o único lugar mesmo para esperar é a cabine do caminhão.

Eles (autoridades e empresários) se preocupam com a estrutura dos terminais, mas não se preocupam com os caminhões que transportam a carga. A gente fica sujeita a multa por estacionar em local proibido. Eu já recebi muitas multas, assim como outros colegas”, afirmou Janete.

“Para nós mulheres é ainda mais difícil”, ressaltou. “Estou aqui há cinco horas já, preciso ir ao banheiro e não tem nenhum por perto”. O marido de Janete, Alípio Simões Seguro, 55 anos, é caminhoneiro há 30 anos. Ele enfatizou que caminhão é frete, o que precisa melhorar, antes de qualquer coisa é o frete.

“Se tivermos um frete que nos dê condições de sobreviver, a gente vai ter um caminhão melhor.O óleo diesel e caro, o pedágio é caro e o frete é baixo. Para levar dinheiro para casa tem que ter frete, para comprar um pneu que custa R$ 700 tem que ter frete, para cuidar do caminhão tem que ter frete”, disse o caminhoneiro complementando que as despesas chegam a consumir mais de 50% do valor do frete contratado. “E não é todo dia que tem trabalho, aí fica difícil”.

Mas, Alípio não acredita numa melhora do frete por causa da concorrência. Segundo ele, consegue trabalho quem aceita o frete oferecido pela empresa. “Se o frete é ruim e você não aceita, tem 500 para pegar o trabalho. E assim a gente não vai para frente nunca. Tenho colegas que são covardes e não lutam pela melhoria do frete, para não perder trabalho”.

Falta de segurança

Mas, Alípio também chama a atenção para a falta de segurança e o risco que enfrentam os caminhoneiros que pegam estrada. Alípio contou que há dez anos foi assaltado, na Rodovia dos Bandeirantes, na Capital paulista. Ele estava no posto quando foi abordado por dois homens que levaram sua carreta com a carga.

Outro homem o manteve sob a mira de um revólver até de manhã. “Fiquei no mato da meia-noite até as 8 horas da manhã, com uma arma apontada na cabeça. Levaram meu caminhão e até hoje não apareceu. Eu carregava peças para indústria, então a carga não interessa a eles. Eles queriam mesmo era o caminhão.

Deixaram a carreta em São Paulo e levaram o cavalinho embora. Eu senti muito medo e só pensava na minha família, que eu nunca mais veria ninguém. Foi muito difícil. Eu voltei para casa chorando, desesperado. Mas a vida continua”, relembrou Alípio.

Aquele dia mudaria sua rotina de trabalho. O experiente caminhoneiro, que viajou o Brasil todo, parou de fazer viagens e hoje, assim como Janete, transporta apenas contêineres vazios para os terminais, no porto de Santos. O medo da morte acabou por minar o maior prazer que Alípio tinha nessa profissão que é por o “pé na tábua” e seguir estrada à fora.

Despesas X frete

Assim como Alípio, o caminhoneiro autônomo Alexsander Peixoto Colen, 30 anos, afirmou que o maior problema ainda é o baixo frete. “O diesel aumentou, o pedágio aumentou, mas o frete não. Hoje o frete é mais barato que há quatro anos”.

Com as contas na ponta do lápis, Alexsander disse que 50% do frete morre nas despesas com diesel, pedágio e manutenção preventiva do caminhão, sem contar a prestação do caminhão de R$ 1.200 mensais. No mês passado, Alexsander gastou R$ 1.400 com combustível, R$ 700 com pedágio e R$ 430 com manutenção preventiva.

Mas o caminheiro disse que as despesas são ainda maiores para quem trabalha dentro da regularidade. Alexsander transporta em seu caminhão baú autopeças e matéria-prima de importação para produtos químicos farmacêuticos e tintas.

Para transportar produto químico, Alexsander fez curso de movimentação de carga perigosa que custa R$ 150. Ele também investiu R$ 75 no curso de capacitação para o caminhão, cujo laudo precisa ser renovado a cada seis meses. 

A inscrição obrigatória na Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) custou R$ 80. A documentação para o ISPS Code, R$ 500. “E por aí, vão os gastos”.

O dinheiro ‘do cafezinho’

Alexsander disse ainda que apesar de todos os gastos, o caminhoneiro enfrenta na estrada um outro fantasma. “A gente tem que pagar propina para guarda, empregado de empresa que arruma o serviço para gente. Só a propina leva 10% do nosso lucro”, denunciou Alexsander.