50 Tons: lacrado ou não?

Decisão de juiz do Rio, que pediu a retirada dos livros que não estivessem lacrados, divide opiniões.

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21 JAN 201316h40

“Foi um constrangimento horroroso. Em momento algum houve um interesse em nos orientar”, disse Carlos Eduardo Coelho, proprietário de uma livraria em Macaé, Rio de Janeiro. Dois policiais e dois comissários da Segunda Vara de Família, da Infância, da Juventude e do Idoso do Município entraram no estabelecimento e recolheram livros com conteúdo impróprio para menores de 18 anos que não estivessem em embalagens lacradas.

O fato no Estado vizinho levantou polêmica na internet, na roda de amigos e, principalmente, entre as leitoras do fenômeno Cinquenta Tons de Cinza. Obras com conteúdos pornográficos sempre foram vendidas, mas ficavam em seções especiais. Agora, com o sucesso da trilogia de E. L. James, citada pelo juiz no documento, esses livros são folheados na entrada das livrarias do mundo todo.

Diante disso, a retirada do livro gerou polêmica e dividiu opiniões. “Deve ser lacrado. Uma criança pode folhear sem a mediação de um adulto, o que não é recomendado. Para um adolescente, que já está no apogeu da sexualidade, o livro pode atrapalhar este desenvolvimento”, concordou a psicopedagoga Susanna Artonov.

Já o proprietário da livraria Realejo, José Luiz Tahan, acredita que esse tipo de atitude é uma forma de censura. “É necessário amadurecer o consumidor. Recomendar uma leitura para maiores de 18 anos, assim como classificação de filmes, é uma coisa. Agora, retirar das prateleiras é censura. Eu sou contra esse tipo de atitude”, defende.

Pornô light - Trilogia mistura romance e sadomasoquismo. (Foto: Matheus Tagé/ DL)

Leitoras

Quem leu a trilogia Cinquenta Tons de Cinza, obra que desencadeou esta polêmica, também divide opiniões sobre a decisão do juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos, responsável pela retirada dos livros em Macaé.

“Em todas as livrarias os livros são separados por gênero e idade dos leitores. Eu já acho isso suficiente! O máximo que se consegue ler em uma livraria é a sinopse da história. O que poderia ser feito é proibir a venda para menores de 18 anos. Não vejo necessidade para lacrar o livro”, comentou a professora Karina Ferreira de Jesus.

Para ela, Cinquenta Tons de Cinza não é tão apelativo como dizem. “Já li livros bem piores como “A Casa dos Budas ditosos”, do João Ubaldo Ribeiro. A história gira em torno do relacionamento “perturbado” e, como todo relacionamento, o sexo está incluído no pacote, porém com algumas preferências que podem chocar um leitor mais recatado. É um romance apimentado, mas é um romance”, defende.

Já para a agente de inspeção Kayra Oliveira, o livro deveria ser vendido lacrado, mesmo considerando que o livro pode ser classificado como romance. “Na minha opinião, pais, professores, governo e sociedade têm o dever de não expor, induzir, incentivar e autorizar leituras inapropriadas, com cenas e histórias que infligem a imaginação precoce da criança e dos pré-adolescentes”, acredita.

A enfermeira Thayanna Araújo discorda: “Vender lacrado e retirar os livros das prateleiras não vai impedir as crianças e os pré-adolescentes de terem acesso ao livro, pois grande parte das minhas amigas baixaram o Cinquenta Tons de Cinza pela internet”, conta.

Karina acredita que cabe aos pais orientar o tipo de leitura de uma criança e ainda levanta outra questão. “Se as dúvidas e as curiosidades das crianças e dos adolescentes fossem saciadas pelos pais de forma natural, talvez não fosse necessário lacrar os livros na livraria”, finaliza.

Ordem

A ordem de serviço do juiz Raphael Baddini de Queiroz Campos, assinada dia 11, apoia-se no artigo 78 do Estatuto da Criança e do Adolescente, de 1990. “O ECA determina a forma de comercialização desse material, que deve ser lacrado”, comenta o juiz. Ele não espera que sua iniciativa de fiscalização seja tomada como exemplo. “Não temos intenções outras quando cumprimos a lei. Estamos protegendo as crianças e adolescentes de Macaé.”

Curiosamente não havia um único exemplar da trilogia Cinquenta Tons na loja de Macaé no dia da ação. O proprietário da livraria disse que tem dez dias para se defender e pediu assessoria jurídica. “Ele (o juiz) está cumprindo a lei, mas punindo uma livraria. Os livros não são meus; são consignados pela editora. Não posso lacrá-los ou colocar etiqueta. Isso deve vir da editora”. A Intrínseca, que publica o best-seller de James, e a Câmara Brasileira do Livro só vão se pronunciar quando forem informadas oficialmente da questão.