Um a um os vasilhames com comida são levados para o interior do prédio. De domingo a domingo, há um ano e meio, a rotina é a mesma na Associação de Integração Social, que fica na comunidade do Sá Catarina de Moraes, em São Vicente. Aproximadamente 10 pessoas, a maioria em situação de rua, aguardam ansiosamente pela refeição noturna – talvez a única do dia. No cardápio do dia: arroz, macarrão, feijão, bife, salada de beterraba e folhas diversas, refrigerante e uma grande porção de solidariedade.
“Quem vem aqui não tem condições de se alimentar. Se eu fosse empresário faria o mesmo, ajudaria alguém. Deus nunca vai desamparar quem tem melhor condição de vida e ajuda quem passa necessidade”, disse o eletricista Ademir, de 64 anos. Ele veste roupas surradas, está com a barba por fazer e, mesmo com poucos dentes, não esconde o sorriso.
Há nove meses, Ademir mora nas ruas da Vila Margarida, em São Vicente. Foi casado e tem três filhos, que moram em outro estado. Todos os dias ele vai a pé até a associação, no Catarina de Moraes. Janta e leva em um pote comida para se alimentar na manhã seguinte. Eletricista de formação, por 12 anos ele atuou em grandes empresas. O que o levou para a situação de rua, não quis revelar. “Não sei se você viu uma reportagem que a jornalista pergunta alguma coisa para o Roberto Carlos, ele não responde, só chora”. Nesta hora, o silêncio impera.
O jantar se inicia. Os voluntários da entidade preparam pratos fartos e servem para as pessoas que já se encontram acomodadas nas mesas naquela noite. A comida fresca é doada por um restaurante localizado no Centro da Cidade. O projeto atende moradores de rua, boa parte com problemas com álcool e drogas, e famílias que passam por dificuldades. Entre os presentes, o jovem Paulino Gomes, de 33 anos. Há quatro anos morando nas ruas de São Vicente, o baiano do município de Brumado, chegou ao Estado de São Paulo após diversas caronas. Deixou em sua terra natal o emprego de Guarda Municipal e se afundou no mundo das drogas.
“Vim sozinho pegando carona e passagem com assistentes sociais nos municípios em que passei. Na minha cidade eu era guarda municipal concursado, mas as drogas acabaram com tudo”, disse Paulino. Ele fala bem e está com roupas limpas e calçado. Todos os dias comparece ao jantar da associação. Atualmente mora nas ruas do Parque Bitaru. “Em um canto que não chove e dá para dormir”.
O jovem Paulino disse que está livre da dependência química. Frequenta a igreja batista, onde também toca instrumentos. Seu maior desejo, hoje, é conseguir um emprego para conseguir alugar um cantinho para morar, e rever o filho de 11 anos.
“Conviver com a drogadição hoje é uma motivação. Tento passar para eles (os companheiros de rua) que há possibilidade de sair dessa vida. Acordei um dia muito doente e decidi parar. Na rua a gente vê de tudo. Meninas de 11 anos se prostituindo, crianças viciadas, idosos com problemas sérios com o álcool. A gente também sofre muito preconceito, mas não dá para culpar as pessoas que pensam assim. Muitos moradores de rua perdem a noção por conta do vício”, afirmou.
Com a esperança de em breve ingressar no mercado de trabalho, Paulino disse que um Natal feliz seria se as pessoas ajudassem a resgatar outras das ruas. “Não é apenas dar por dar. É entender a situação. É difícil sair do estado de rua, porque quem está na rua olha para trás e vê o que perdeu, a família já quer mais, olha para frente e não vê jeito de melhorar é quando o consumo de bebida alcoolica e de drogas ilícitas aumenta. É preciso entrar na realidade dessas pessoas, mas tem que estar preparado para o que vai encontrar. Se mais pessoas se mobilizarem, inclusive o governo, acho que teremos uma grande transformação”, destacou.
Solidão
Neiderson Olher, de 57 anos, frequenta o projeto desde o início. Só falta no jantar quando, por ventura, a chuva alaga a rua da entidade. Mora em um cantinho do Lava-Rápido que trabalha como lavador de carros durante o dia. Decidiu viver solitariamente, após a morte da mãe em 1998.
“Fui um dos primeiros a vir no projeto. Fui convidado por um amigo. A comida aqui é muito boa. Excelente. Tenho meus problemas e a minha vida não é fácil. Mas está bom assim. Desapeguei dos bens materiais”, disse Olher. Antes de viver solitariamente e uma vida incerta, ele trabalhava como funileiro e tinha moradia própria.
Olher fez questão de ressaltar sua opção de viver solitariamente. Considera o Natal uma data como outra qualquer. “Nada como um dia após o outro. Vivo esse. Se acordar, vivo o outro. Depois que perdi meu bem mais precioso, que era meus pais, desapeguei de tudo”.
