2021: Nível do mar está subindo além do previsto e Baixada Santista pode sofrer consequências

"Estima-se que o aquecimento do Oceano Ártico contribua com quase 4% para o aquecimento global dos outros oceanos", diz o relatório

Comentar
Compartilhar
12 OUT 2021Por Agência Brasil11h14
Ressaca atingindo a orla de Santos em 2020.Ressaca atingindo a orla de Santos em 2020.Foto: Nair Bueno/Diário do Litoral

O nível dos oceanos continua a subir em ritmo alarmante de 3,1 milímetros (mm) por ano, devido ao aquecimento global e ao derretimento do gelo na Terra, informou no começo do mês (outubro) o Serviço de Monitoramento do Meio Marinho do programa Copernicus.

A extensão do gelo marinho do Ártico tem diminuído constantemente. Entre 1979 e 2020 perdeu o equivalente a seis vezes o tamanho da Alemanha, de acordo com o relatório divulgado.

A extrema variação entre períodos de frio e ondas de calor no Mar do Norte está relacionada com mudanças na captura de linguado, lagosta europeia, robalo, salmonete e caranguejos.

A poluição causada pelas atividades em terra, como a agricultura e a indústria, tem impacto nos ecossistemas marinhos, reforçaram os especialistas na quinta edição do relatório sobre o estado dos oceanos.

O aquecimento dos oceanos e o aumento de salinidade intensificaram-se no Mediterrâneo na última década.

"Estima-se que o aquecimento do Oceano Ártico contribua com quase 4% para o aquecimento global dos outros oceanos", diz o relatório.

Mais de 150 cientistas, de cerca de 30 instituições europeias, colaboraram no trabalho. De acordo com as conclusões, o oceano passa por "mudanças sem precedentes", o que terá  enorme impacto no bem-estar humano e nos ambientes marinhos.

"As temperaturas da superfície e subsuperfície do mar aumentam em todo o mundo e os níveis do mar continuam a subir a taxas alarmantes: 2,5 mm por ano no Mediterrâneo e até 3,1 mm por ano globalmente", afirmaram os peritos.

O documento é apresentado como uma referência para a comunidade científica, líderes mundiais e o público em geral.

A combinação desses fatores pode causar "eventos extremos" em áreas mais vulneráveis, como Veneza, onde em 2019 uma subida do nível das águas fora do comum, uma forte maré e condições climáticas extremas na região provocaram a chamada "Acqua Alta" - quando o nível da água subiu para um máximo de 1,89 metros.

"Esse foi o nível de água mais alto registado desde 1966 e mais de 50% da cidade foram inundados", lembram os autores do documento.

Os cientistas explicaram que a poluição por nutrientes oriundos de atividades terrestres, como a agricultura e a indústria, tem "efeito devastador na qualidade da água" do oceano.

O aumento do crescimento das plantas pode levar à redução dos níveis de oxigênio na água do mar e até mesmo bloquear a luz natural, "com efeitos potencialmente graves" nos ambientes costeiros e na biodiversidade marinha.

No Mar Negro, por exemplo, o percentual de oxigénio tem diminuído desde o início das medições, em 1955.

O aquecimento da água do mar faz com que algumas espécies de peixes migrem para águas mais frias, levando à introdução de espécies não nativas num determinado habitat, como aconteceu em 2019 quando o peixe-leão migrou do Canal do Suez para o Mar Jónico, devido ao aumento das temperaturas na Bacia do Mediterrâneo.

Segundo o relatório, o gelo marinho do Ártico continua muito abaixo da média e diminui em ritmo alarmante.

Faça parte do grupo do Diário no WhatsApp e Telegram e mantenha-se bem informado.

Nos últimos 30 anos, o gelo marinho do Ártico diminuiu continuamente em extensão e espessura. Desde 1979, a cobertura de gelo em setembro reduziu 12,89% por década, com mínimos recordes nos últimos dois anos.

SANTOS E REGIÃO

Uma das alterações mais sentidas pelas cidades costeiras ao redor do mundo - principalmente no Brasil, e Santos e Região estão inclusos nisso - é o aumento do nível do mar. O último relatório divulgado pela Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (NOAA) indica que esse aumento poderá chegar até 2,5 metros até 2100. O cenário mais provável (com 96% de chances de acontecer) é de que esse número chegue a preocupantes 60 cms. O suficiente para colocar Santos e outra centena de cidades ao redor do mundo em uma condição de evacuação de bairros.

A pesquisadora Célia Regina de Gouveia Souza, do Instituto Geológico de São Paulo, tem feito monitoramentos constantes sobre esses números. Há mais de 25 anos ela monitora cerca de 600 km do Litoral de São Paulo e, em seu último estudo publicado, uma observação importante foi feita: os bairros da Ponta da Praia e da Aparecida poderão ser "engolidos" pelo mar até o final desse século. Ou, se não engolidos, podem ser evacuados. Isso se dá pelo movimento de erosão, que tem se mostrado mais amplo do que era imaginado.

A pesquisadora e geóloga aponta que o Aquecimento Global (acelerado pelo homem graças a emissão desenfreada de gases na atmosfera) é um dos principais fatores para esse que é um cenário preocupante. Isso ajuda a aumentar o derretimento das geleiras, e, claro, colaborar com a aumento do nível do mar.

A linha costeira brasileira é mais vulnerável a sentir os impactos dessa mudança, tendo em vista que ela é gigantesca e com alta densidade demográfica. E Santos, por exemplo, está incluído nesse fator de risco.

José Eustáquio Diniz Alves, doutor em Demografia e colunista do portal EcoDebate, diz que a chance de ocorrerem inundações nessas cidades é real.

"A chance de haver uma grande inundação provocada pelo avanço do mar paralisando as duas cidades ainda na metade do século XXI é muito grande. Nos últimos 10 anos tenho escrito, no Ecodebate, diversos artigos mostrando os efeitos do aquecimento global e da elevação do nível do mar sobre as cidades brasileiras, o naufrágio dos deltas dos rios e os danos sobre as “benfeitorias” humanas. A realidade é que toda a costa brasileira é vulnerável e deve passar por um agravamento dos desastres provocados pelos choques das ondas sobre as “malfeitorias” da civilização", finalizou.

Pesquisadores e estudiosos estão realizando monitoramentos o tempo todo. Porém, é inegável que as últimas ressacas na cidade se comportaram de maneira um pouco mais agressiva do que se via há cerca de 10 ou 20 anos.