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José Renato Nalini

Somos nada!

Somos nada! E, logo mais, menos do que nada. Como não se apercebem os humanos de sua insignificância e pequenez! Basta pensar que o mundo existiu durante milhões de anos – sim, milhões! Não milhares, obscurantistas fanáticos!... – e ninguém sentiu falta de nós. Da mesma forma, logo mais partiremos. E o mundo continuará a não sentir nossa falta.

Vejo o livro “Gabo & Mercedes: Uma despedida”, escrito por Rodrigo Garcia, filho de Gabriel García Márquez, o famoso escritor colombiano que ganhou o Nobel de Literatura em 1982. O prêmio que nenhum brasileiro ainda recebeu, para verificar a insignificância tupiniquim no cenário internacional. Pensei que com a Raínha Sílvia na Suécia, nós teríamos chance. Nada!

Rodrigo registra no livro os últimos dias vividos por Gabo, - esse o apelido de seu pai – que faleceu em 17.4.2014. Mas ele já vinha morrendo lentamente, pois perdeu a memória. Lamentava ter ficado sem a sua “ferramenta de trabalho”.

Aquele calvário das pessoas que convivem com alguém acometido do mal de Alzheimer e outras demências é retratado cruamente pelo filho. Os dias em que não reconhecia a mulher, com quem se casara em 1958. Ela se indignava e se recusava a acreditar que fosse a demência que causasse o esquecimento.

Tudo foi anotado pacientemente pelo filho Rodrigo, inclusive a crescente debilidade física e mental. Os lapsos de lucidez, a dolorosa consciência de estar perdendo a memória, o cotejo desse idoso inerme, verdadeira criança, com o homem forte que era o verdadeiro modelo dos filhos Rodrigo e Gonçalo.

A intenção de Rodrigo era guardar essas notas para futura consulta de suas filhas e sobrinhas. Mas após à morte da mãe, Mercedes, em 2020, ele se propôs a dividir suas anotações com os leitores de seu pai.

Esse livro publicado pela Editora Record é uma lição para os arrogantes, os pretensiosos, os sequiosos de poder, fama e dinheiro. Tudo isso passa a valer nada quando nos transformamos em nada, e, em pouco tempo depois, menos que nada seremos.

Por isso, é preciso preencher a mente com outros objetivos mais nobres. Como a crença numa outra realidade, um outro estágio, menos decepcionante do que este, no qual a vaidade humana consegue cegar a razão.

*José Renato Nalini é Reitor da UNIREGISTRAL, docente da Pós-graduação da UNINOVE e Presidente da ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS – 2021-2022.    

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