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Nilton C. Tristão

Lula, Alckmin & Platão

Algumas pessoas ficaram perplexas e outras indignadas perante a possível união entre o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-governador  paulista Geraldo Alckmin na composição de chapa destinada à disputa ao comando do poder executivo nacional em 2022. Entretanto, vivenciamos uma época em que a ocorrência do improvável e a efetivação do implausível foram transformadas em pautas diárias e corriqueiras. Circunstância que em nada difere do que ocorreu em momentos anteriores na história da humanidade. Por exemplo e dada as devidas proporções, é sabido que a aliança estabelecida entre Franklin D. Roosevelt e Winston Churchill com Josef Stalin para evitar que Adolf Hitler obtivesse o controle do “Lebensraum” russo, ucraniano e de todo o leste europeu foi imprescindível para salvar o mundo da tirania nazista. “Dantes inimigos mortais, políticos rivais se unem”. 

Igualmente, as postulações de Ciro Gomes, Sergio Moro, João Doria, entre outros, antes de suas divergências ideológicas e programáticas, destinam-se a evitar que o retrocesso antidemocrático na estrutura de Estado se aprofunde a partir do próximo ano. Nesse contexto, Geraldo Alckmin serve aos propósitos de Lula no sentido de sinalizar às elites econômicas brasileiras que os seus interesses podem ser contemplados sem que haja a necessidade de serrarem fileiras junto a alternativas exóticas, pouco confiáveis e desestabilizadoras do establishment, como também, afirmar à classe média conservadora que seus anseios por educação, saúde e consumo podem adentrar no escopo de prioridades na elaboração e execução de políticas públicas do próximo governo. 

Em 13 de outubro do ano passado, o ex-prefeito de São Paulo Fernando Haddad, durante um jantar com empresários e banqueiros, afirmou que o Partido dos Trabalhadores não é de esquerda, ou seja, quem seria melhor que Geraldo para avalizar e validar essa afirmação? Mas qual será o limite de Alckmin na relativização do espírito revanchista, revisionista, assoberbado e refratário à autocrítica de alguns setores petistas? Como se comportarão diante da dificuldade inerente e quase patológica do reconhecimento de avanços alheios e erros próprios dessa agremiação? São questões a serem equacionadas, lembrando que o vitorioso desse pleito assumirá o país carcomido por um modelo presidencialista fadigado e que evidencia o esgotamento na capacidade de dar respostas adequadas às sucessivas crises políticas que vêm continuamente abalando a normalidade institucional. 

Em 2005, o ex-presidente Fernando Henrique, do PSDB, afirmou: “O que separa PT e PSDB não é nenhuma diferença ideológica ou programática, mas pura e simplesmente a disputa pelo poder”. Portanto, o presumível entrelace entre Lula e Alckmin poderá significar a simbiose da superação das disputas atrozes para adentrar em um renovado projeto social-democrata. Pois, enquanto Doria encaminhou o tucanato na direção do campo liberal de direita, Alckmin cumprirá o papel de reforçar a identidade de centro da esquerda tupiniquim. 

De qualquer maneira, faz-se imperioso que o triunfante obtenha êxito em resgatar parte dos cidadãos que se encontram amarrados ao fundo escuro da caverna bolsonarista, vítimas da cegueira intelectual oriunda de imagens projetadas pelas redes sociais doutrinárias, uma verdadeira parede de silhuetas, ilusões e sombras. A cura apenas será possível através da chegada de uma nova era baseada em reflexões qualificadas que apontem com clareza a diferença entre o real e o falso, que determinem o fim do espaço ficcional que transgride a lógica concreta e possibilitem a retomada da razão como condição sine qua non à liberdade dos dominados pelas garras da “pós-verdade”, o local onde a narrativa unilateral se sobrepõe aos fatos universais.

Nilton C. Tristão
Cientista Político

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