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Olhar Filosófico

Educar para a liberdade

Entre as diversas concepções de educação que remontamos e reinterpretamos desde o sentido original do ideário grego ocidental, parece-me a de Paulo Freire, em sua obra Educação e Mudança (1979), suscitar uma inequívoca abrangência e demonstrar uma antropologia filosófica perene, qual seja:

“A educação é uma resposta da finitude à infinitude. A educação é possível para o homem, porque este é inacabado. Isto leva-o à sua perfeição. A educação, portanto, implica uma busca realizada por um sujeito que é o homem. O homem deve ser o sujeito de sua própria educação. Não pode ser objeto dela. Por isso ninguém educa ninguém. Por outro lado, a busca deve ser algo e deve traduzir-se em ser mais: é uma busca permanente de “si mesmo” (eu não posso pretender que meu filho seja mais em minha busca e não na dele). Sem dúvida, ninguém pode buscar na exclusividade, individualmente. Esta busca solitária poderia traduzir-se em um ter mais, que é uma forma de ser menos. Esta busca deve ser feita com outros seres que também procuram ser mais em comunhão com outras consciências, caso contrário se faria de umas consciências, objetos de outras.”

A partir daí, na presença de todos os envolvidos com a educação de alguma forma, podemos iniciar do seguinte:

  1. Nós, seres humanos, diferentemente de qualquer outro animal que tenhamos notícias, nos educamos primeiramente por uma necessidade Ontológica, de Ser, isto é, buscamos uma resposta por entre as nossas limitações para a possibilidade de sermos e estarmos mais além delas;
  2. Nós, seres humanos, temos a necessidade de assumirmos uma resposta que, ao mesmo tempo em que nos coloca num mundo coabitado e previamente estruturado por gerações presentes e passadas, nos dê um sentido de sujeitos dela mesma, ou seja, se a educação ‘passa’ por mim, devo, também, transformá-la para mim; 
  3. Nós, seres humanos, só podemos avançar por meio de nossas limitações, percebendo a dignidade do outro, a alteridade do processo de fazer-se humano educado, isto é, reconhecendo nos outros (e por isso mesmo, lutando para que a realidade socioeconômica sempre o permita) a igualdade de condições, possibilidades e particularidades do ser-sujeito. Reconheço a mim mesmo enquanto possibilidade de assumir-me enquanto outro, diferente, como aquele que deve, também, ter sua história escrita, contada e transformada na comunhão das consciências e destas em sua relação com o Outro que é a natureza em mutação.

Desde a origem do conceito de educação, derivado ocidentalmente dos gregos, não chegamos a um acordo unívoco, não que isso seja ruim, a respeito de como se educar. Fato é que criamos instituições que assumiram este papel e catalisaram formas que partiam e partem sempre do princípio de que educar é uma transmissão ininterrupta de saberes, por meio de conteúdos, específicos (como as disciplinas) ou não (como assimetria de temas e problemas), presentes na cultura, pretensamente universal, necessários à humanidade para o conhecimento de si mesmo, da natureza e de ‘seu’ Cosmos.

Surge daí a importância da incerteza, trabalhada com método, no processo de aprendizagem. A incerteza faz parte do destino humano de ser inacabado. Enquanto as certezas, viram probabilidades racionalizadas de um tempo para o entendimento de algo, desde as micropartículas que podem compor o universo inteiro às mais variadas significações da minha existência, por sua vez, a incerteza surge como um sim à vida e ao conhecimento contínuo e ampliador de significados, ela se torna um elemento afirmativo do aprendizado escolar, como se disséssemos: Nem pelo sim, nem pelo não, começaremos nosso processo de educação pela lógica do talvez!

Paulo Freire diria que é tarefa da escola democrática, portanto, com lideranças democráticas, ajudar a decidir, e decidir é romper, e romper é correr o risco de conhecer!

Se a escola é para a vida, a educação é para a liberdade!

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