Olhar Filosófico

Vontade de piar

Fazia um tempo que aquilo havia começado. Talvez ninguém nem tenha percebido. Mas não posso enganar os meus sentidos e preciso dizer a mais pura verdade: vi dois pássaros conversando sobre o legado de Rousseau. Sim, o filósofo suiço, um dos grandes influenciadores dos artífices da Revolução Burguesa na França.
Como não sou ornitólogo, não posso precisar com certeza quais as espécies eram essas a “papiar” na minha frente e defronte a uma das janelas da cozinha onde habito e me abasteço de cafeína. Chuto que era um “curió” chacoteiro e um “pardal” com complexo de superioridade, pois, pelo que percebi, sempre remetia seus argumentos a uma autoridade familiar de cinco, dez gerações passadas.

E o “papio”, do momento em que comecei a escutá-los, era sobre a ideia de vontade. Ambos, é bom que se diga, defendiam o contrato social de Rousseau, e usando do pensamento do mesmo filósofo, divergiam sobre a ideia de Vontade Geral, conceito  tão fundamental na filosofia de tal autor.

E pensar que tudo se iniciara com muitos risos entre essas estranhas aves. Aliás, foi o que primeiramente chamou minha atenção enquanto lavava um prato melado de macarrão recém comido. Pelo horário, quem costumava cantar por ali era o sabiá-laranjeira, mas aquilo que me impressionou os ouvidos não era canto, era, como disse, um “papiar” e uma série de risos agudos e afinados.

“Curió” chamou para si a explicação sobre a vontade geral com base em leitura ortodoxa (segundo o próprio) da obra completa de Rousseau e lida diretamente nas idiossincrasias e cacoetes do próprio idioma suiço (não num francês rococó). Fato é que isso dificultou um pouco a “papiada” entre os dois, pois, além de não entender o suiço, o “pardal” só havia lido Rousseau em alemão e exigia que, se fosse para ser sério, só filosofassem em alemão, afinal, soltou ele um pio: Heidegger deixou claro tal premissa.

Confesso que a partir daí o caldo meio que entornou, afinal, o “curió” ficou indignado pelo fato do colega de “bate-papio” ter citado Heidegger para falar de Rousseau. Água e óleo, retrucou ele, água e óleo!!!

Complacente, e querendo continuar a ser pernóstico sem levar uma surra, seu “pardal” assentiu que ao menos ele pudesse usar a tradução alemã da obra “Do contrato social”. “Curió”, para manter o piado e levar a tese adiante, consentiu (observação: pelo que percebi, claramente o “curió” também falava alemão, mas o que estava em jogo era uma questão de princípio).

Seu “pardal”, então, em alemão - e, ainda, com algum protesto - sustentou, pelas próprias linhas do autor, que a Vontade Geral era um conceito inconcluso do mestre suiço, precisando se atualizar com as condições sociais revolucionárias e não burguesas e liberais (como, segundo o pássaro, teria pensado com certa inocência política o filósofo): “Resulta do precedente que a vontade geral é sempre reta e tende sempre para a utilidade pública; mas não significa que as deliberações do povo tenham sempre a mesma retitude. Quer-se sempre o próprio bem, porém nem sempre se o vê: nunca se corrompe o povo, mas se o engana com frequência, e é somente então que ele parece desejar o mal. Há muitas vezes grande diferença entre a vontade de todos e a vontade geral: esta olha somente o interesse comum, a outra o interesse privado, e outra coisa não é senão a soma de vontades particulares; mas tirai dessas mesmas vontades as que em menor ou maior grau reciprocamente se destroem, e resta como soma das diferenças a vontade geral.”

Veja, meu amigo cantante - arrematou o “pardal” - somente numa sociedade revolucionária de superação da ordem burguesa e capitalista é que se poderia ter uma Vontade Geral suficientemente livre e conscientemente coletiva.

Seu “curió”, todavia, o lembrou a partir do próprio texto, que tal situação deveras revolucionária se daria também a partir de uma vontade geral em formação, furando a bolha conservadora e, na prática, pouco a pouco sendo a contra-ideologia a subverter o sistema do capital. E piou, letra a letra, outro trecho da obra: “Enfim, quando o Estado, próximo de sua ruína, apenas subsiste através de uma forma vã e ilusória, quando o laço social se rompe em todos os corações, quando o mais vil interesse se adorna afrontosamente com o nome sagrado do bem público, então a vontade geral emudece, todos, guiados por motivos secretos, deixam de opinar como cidadãos, como se o Estado jamais houvesse existido, e são aprovados falsamente, a título de leis, decretos iníquos cujo único fim é o interesse particular. Segue-se daí que a vontade geral esteja debilitada ou corrompida? Não; ela é sempre constante, inalterável e pura; mas está subordinada a outras que a subjugam.”

Foi, por aí, daquilo que pude ouvir, que seu “pardal” piou alto: Então, “curió”!! Percebe que o nosso filósofo está refletindo a partir de uma nova situação de coisas em profunda mudança numa espécie de cenário pré-revolucionário? Um Estado em crise?!

No que soltou pios assertivos o “curió” já se preparando para voar (pois dali se aproximava uma pomba e ambos ficaram por demais desconfiados): Mas o Estado burguês é a crise, meu bom pardal. Ele é a sua própria crise e sua própria farsa para a manutenção do estado capitalista das coisas!

Voaram! Nessa altura, uma grande quantidade de pombas também se achegaram à minha janela com movimentos de asas e cabeça estranhíssimos! Fechei rapidamente a ventana e voltei por necessidade espiritual à minha leitura d’Os Miseráveis, de Victor Hugo. E agora entendo perfeitamente o senhor Alfred Hitchcock.

 

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